A Razer anunciou ontem ao final do dia a aquisição da Nextbit, a empresa responsável pelo smartphone Robin. Este facto por si só merecia todo o destaque numa notícia pois significa a entrada da Razer num novo segmento de negócio. Mas a verdade é que esta é mais uma aquisição de perfil considerável feita pela Razer nos últimos tempos.

Se à aquisição da Nextbit juntarmos a recente aquisição da THX – a empresa de áudio fundada por George Lucas – e também da Ouya – a consola Android que fez sucesso em 2012 -, então começa a formar-se um padrão. A Razer está a salvar empresas em momentos de aflição.




Pelos projetos que a tecnológica norte-americana revelou durante o Consumer Electronic Show – portátil com três ecrãs e projetor imersivo -, é possível perceber que as ambições da Razer estão a aumentar de forma significativa e que a empresa pretende ser muito mais do que uma marca associada a periféricos de gaming.

Os valores da Nextbit

A Nextbit é uma empresa relativamente recente. A primeira vez que ouvimos falar dela foi no início de 2014, altura em que se soube que engenheiros veteranos da Google, Amazon, Dropbox e da HTC iam juntar-se para criar um novo projeto.

Esse projeto seria desenvolvido na área dos dispositivos móveis e foi amplamente apelidado de ‘inovador’ pela própria Nextbit, como uma forma de gerar interesse em antecipação pelo equipamento.

A grande revelação só chegaria mais de um ano depois, no dia 1 de setembro de 2015. A Nextbit anunciava o Robin, o seu primeiro smartphone e que chegava ao mercado com uma proposta diferenciadora. Apesar de ser um dispositivo Android, o equipamento foi concebido em torno do conceito de cloud computing.

O objetivo era que o utilizador não tivesse de se preocupar com a gestão de espaço no seu equipamento, nem com a gestão de ficheiros: estivessem eles no smartphone ou não, estariam sempre acessíveis através de um serviço cloud com 100GB. Por exemplo, se o Robin atingisse 90% da sua capacidade de armazenamento, eliminaria de forma automática as aplicações que o utilizador já não iniciava há mais tempo.

Quando isto acontecia, os ícones das aplicações removidas ficavam num tom cinzento: isto significava que já não estavam ‘fisicamente’ no smartphone. Mas se o utilizador quisesse essa aplicação de volta, só precisava de carregar no ícone que o sistema de armazenamento restaurava a aplicação e os seus dados tal como estavam antes.

O equipamento fez campanha no Kickstarter e tornou-se num sucesso imediato, tendo reunido perto de 1,6 milhões de dólares. Fora do Kickstarter o Robin custava cerca de 380 euros.

A verdade é que apesar da proposta diferenciadora do equipamento, mesmo em termos de design, o Robin não provocou um grande impacto no mercado. Desde então reuniu uma pequena comunidade de utilizadores, não se sabendo ao certo quantos equipamentos foram comercializados.

A Nextbit marcou presença no Mobile World Congress em 2016, altura em que esperava ganhar maior proeminência, mas levar um smartphone alternativa para o local onde foram revelados o Samsung Galaxy S7 e o LG G5 é arriscado.

Ao longo de 2016 pouco ou nada se soube sobre o Robin. Em novembro de 2016 houve registo de várias notícias sobre um desconto significativo que o equipamento recebeu nos EUA e que colocou o preço a rondar os 150 euros.

Novidades propriamente ditas só agora com a aquisição da Razer. “A Nextbit vai operar como uma unidade de negócio independente com a sua própria gestão e à parte do restante negócio da empresa-mãe. A Nextbit vai continuar a dar suporte ao produto e também atualizações de software para o smartphone Robin”, esclarece a Razer em comunicado.

“Temos sorte em ter encontrado na Razer uma empresa que partilha os nossos valores de empurrar os limites daquilo que os nossos equipamentos conseguem fazer”, comentou no mesmo comunicado o diretor executivo da Nextbit, Tom Moss.

Sabe-se igualmente que as vendas do Robin foram canceladas, muito provavelmente para ajudar a equipa a focar-se num novo projeto.

Com a aquisição da Nextbit a Razer leva para ‘casa’ vários profissionais de renome e que já trabalharam em grandes tecnológicas, leva experiência no desenvolvimento de dispositivos móveis, leva especialistas e tecnologia de armazenamento inteligente na cloud, leva uma versão personalizada do Android que pode ser adaptada a mais equipamentos e leva uma nova vertente de negócio.

Não foi revelado um valor para a aquisição da Nextbit, mas a verdade é que por muito pequena que fosse a empresa, dentro de um conglomerado maior como é a Razer os ativos da startup podem acabar por fazer a diferença.

A Razer tem uma longa tradição na produção de hardware de qualidade, o que pode ajudar a Nextbit a produzir futuras versões do Robin mais ambiciosas nesse ponto de vista.

THX, Ouya e outras aventuras

A aquisição da THX também é recente, tendo sido anunciada em meados de outubro de 2016. Já a aquisição da Ouya remonta a julho de 2015.

No caso da THX as razões para o negócio estarão acima de tudo relacionadas com propriedade intelectual. A marca fundada na década de 1980 foi pioneira em muitas áreas da tecnologia de áudio, pelo que a sua propriedade intelectual acaba por fazer sentido no universo multimédia que a Razer desenvolve como negócio principal.

Razer BlackWidow X Chroma

Os periféricos de gaming ainda são a principal vertente do negócio da Razer. Já existem mais de 20 milhões de utilizadores no mundo com dispositivos Razer Chroma

Já a aquisição da Ouya também acabou por fazer sentido devido à forte ligação que a Razer tem como o mundo do gaming. A aquisição da Ouya encaixava também no desenvolvimento de uma set-top box multimédia baseada em Android e num melhor posicionamento que a Razer podia conseguir sobretudo no mercado chinês.

Olhando para estas três aquisições da Razer, parece claro que a empresa quer não só reforçar as suas competências em áreas que não domina tão bem, como quer alargar a abrangência do seu negócio.

Será que podemos esperar um smartphone por parte da Razer? É algo que talvez não surpreendesse pois a marca tem alguma tradição de apostar em segmentos de negócio que à primeira vista não seriam lógicos dentro da marca – como as pulseiras fitness Nabu.

Em setembro do ano passado o CEO da Razer, Min-Liang Tan, confirmou ao TechCrunch que a empresa estava à procura de diversificar a sua presença no mercado. A criação do fundo zVentures, avaliado em 30 milhões de dólares, servirá para apoiar startups de realidade aumentada e com projetos na área da Internet das Coisas (IoT na sigla em inglês).

A isto acrescente-se o facto de a Razer estar também a apostar de forma séria na realidade virtual através do projeto OSVR e temos uma empresa que já é muito mais do que uma marca de teclados e ratos para gaming.

A Razer está a crescer como empresa e está a diversificar as suas capacidades tecnológicas. Se veremos tudo isto convertido num novo equipamento ou numa grande variedade de lançamentos é algo pelo qual vale a pena ficar atento em 2017.

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