“Quando mexes num smartphone tão grande, não consegues evitar pensar se alguém realmente precisa de algo deste tamanho. Afinal de contas, até um ecrã de 4,5 polegadas (como o que existe no Samsung Galaxy S II) é bastante grande (talvez demasiado grande) para as necessidades da maior parte das pessoas num smartphone. Num nível acima, um ecrã de 4,7 polegadas, que vai chegar em breve no HTC Titan II, parece ridiculamente grande. Então qual é a ideia?”.

Este é um excerto do texto escrito pela Wired relativamente ao ecrã de 5,3 polegadas do Samsung Galaxy Note, apresentado em 2011. Nesse mesmo ano a Apple tinha revelado o iPhone 4s com o seu ecrã de 3,5 polegadas, que até então era o tamanho tido como norma para um smartphone.




O descrédito inicial que o Samsung Galaxy Note recebeu acabou por revelar-se pouco certeiro: nos anos seguintes os smartphones continuaram a crescer em tamanho e é de facto à Samsung que se deve esta tendência. A empresa acreditou que este seria o caminho, não vacilou perante as críticas, aprendeu com elas e continuou a melhorar o seu produto. Atualmente os smartphones com ecrãs abaixo das cinco polegadas quase que podem ser considerados como o ‘nicho’ de mercado.

Recuperamos este caso não só pela importante lição que nos deu, mas por considerarmos que um outro, também relacionado com a Samsung, está agora a surtir efeitos semelhantes.

Lembra-se do Samsung Galaxy Round?

O smartphone foi revelado em outubro de 2013 e foi o primeiro equipamento comercialmente disponível por parte da Samsung a mostrar-se com um ecrã curvo. A tecnológica já tinha criado um outro smartphone com ecrã curvo, o Galaxy Nexus, mas esse dispositivo fez parte da família Nexus da Google, pelo que não pode ser totalmente creditado à Samsung.

O Galaxy Round apresentado na altura veio para o mercado disputar a linha da inovação dos ecrãs curvos. A rival LG tinha apostado no LG G Flex, que gerou bastante atenção mediática. Mas enquanto a LG deu ao seu equipamento uma curvatura vertical, a Samsung apostou numa curvatura horizontal.

A estranheza voltou a fazer-se sentir nos artigos das publicações da especialidade. Apesar da espetacularidade de ter um smartphone curvo, a verdade é que a Samsung acabou por não dar ao Galaxy Round funcionalidades críticas que aproveitassem esse form factor. A curvatura do equipamento não passava de um gimmick e o smartphone nunca teve uma distribuição muito além do seu país natal.

O smartphone, mesmo sendo um topo de gama, nunca conseguiu provocar impacto suficiente no mercado, de tal forma que a própria Samsung não deu continuidade ao conceito. Mas o Galaxy Round foi muito importante num aspeto: deu à Samsung feedback e experiência na implementação de ecrãs curvos em dispositivos comerciais.

Esta aprendizagem materializou-se logo no ano seguinte com a apresentação do Samsung Galaxy Note Edge. O equipamento era em tudo semelhante ao novíssimo Galaxy Note 4 apresentado na mesma ocasião, mas tinha um elemento claramente diferenciador – uma das margens do smartphone desaparecia para dar lugar a um segundo ecrã.

Este segundo ecrã funcionava de forma independente e era aí que a Samsung colocava várias funcionalidades de software ou botões que eram extensões das aplicações. Além de ser um smartphone com dois ecrãs, este segundo painel do Galaxy Note Edge era curvo.

Mas ao contrário do Galaxy Round, desta vez o conceito da Samsung aparecia muito mais tentador, tanto de um ponto de vista estético, como de um ponto de vista funcional. A Samsung voltava a fazê-lo: a empresa acreditou que este seria o caminho, não vacilou perante as críticas, aprendeu com elas e continuou a melhorar o seu produto. Os equipamentos com ecrãs Edge começaram a surgir com uma forte cadência: a cada novo modelo, eram feitas melhorias ao próprio ecrã e às funcionalidades associadas.

Atualmente estamos não só no ponto em que é preciso reconhecer esta aposta da Samsung, como é preciso reconhecer que é uma aposta ganha. Os não muito bonitos Galaxy Round e Galaxy Note Edge foram os precursores daquele que é um dos smartphones mais bonitos, mais bem construídos e mais modernos da atualidade.

Há anos que os utilizadores sonham com smartphones cujas partes frontais são acima de tudo dominadas pelo ecrã. A LG também fez um excelente trabalho com o LG G6, mas o factor ‘edge’ do Galaxy S8 faz com que o equipamento da Samsung esteja um passo à frente nesse aspeto.

Samsung Galaxy S8

Quer isto dizer que daqui para a frente vamos ter outro caso ‘Galaxy Note’, isto é, a Samsung está a cunhar aquela que será a tendência do futuro? Serão os ecrãs edge a tendência do futuro para os dispositivos móveis?

Neste caso é um pouco mais difícil de dizer, pois estes são ecrãs ainda muito caros e que nem todos os fabricantes estarão dispostos a integrar nos seus equipamentos, devido às já baixas margens que obtêm com estes equipamentos. Serão precisos mais alguns anos até que os ecrãs edge sejam acessíveis o suficiente para que os possamos ver em mais smartphones e em variantes de preço mais baixos.

Mas os sinais já começam a aparecer: o BlackBerry Priv já tinha dois ecrãs Edge, o Huawei Porsche Design também e diz-se que a Apple vai seguir o mesmo caminho. Se de facto a Apple apostar neste conceito, então é quase certo que teremos os ecrãs edge como o futuro dos dispositivos móveis.

A Samsung e a Apple são as duas empresas mais influentes no segmento dos dispositivos móveis. Se numa primeira fase foi a Apple aquela que mais ‘inspirou’ os smartphones concorrentes – incluindo da Samsung, sejamos justos -, mais recentemente tem sido a Samsung a pautar algumas das tendências que têm marcado o sector – com a Apple a também ‘beber’ inspiração do lado da sul-coreana.

Na questão dos ecrãs Edge, se eles vingarem de facto, então o crédito deverá ser atribuído à Samsung. Mesmo que esta não seja a tendência para os próximos tempos, pelo menos a Samsung pode gozar por agora do título de smartphone mais arrojado da atualidade.

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