A Google e a Samsung têm muitos agradecimentos para trocar entre si. Se o Android tem uma grande força no mercado dos dispositivos móveis, pode agradecer à Samsung uma grande parte desse sucesso. Se a Samsung é a maior vendedora de smartphones do mundo, pode agradecer ao Android por ter arrepiado caminho na conquista deste título.

Mas o que é uma parceria de grande sucesso, é também uma parceria de grande dependência. O que aconteceria se a Google cortasse o Android à Samsung? O que aconteceria ao Android se fosse abandonado pela Samsung?




São questões que não têm uma resposta certa, mas em qualquer um dos cenários é fácil de imaginar grandes mudanças nos negócios das duas empresas e na forma como o mundo dos dispositivos móveis ficaria distribuído.

Não é à toa que as duas tecnológicas têm, cada uma à sua maneira, um ‘plano B’. A Samsung tem um sistema operativo proprietário chamado Tizen. Já a Google tem apostado cada vez mais no seu próprio hardware para depender um pouco menos dos parceiros.

Tanto o Tizen da Samsung como a aposta da Google no hardware são relativamente marginais. E talvez por isso é que tudo continua igual.

Samsung Galaxy S7

Samsung Galaxy S7, o mais recente topo de gama da tecnológica sul-coreana. Equipado com Android. #Crédito: Future Behind

Por esta altura pode estar a considerar que a ideia de grandes tecnológicas terem planos de contingência nada é mais do que uma teoria da conspiração. Será?

Em junho de 2016 surgiu uma reportagem do The Information que dava conta de trabalhos que estavam a decorrer na Huawei, mais concretamente no desenvolvimento de um novo sistema operativo. Esse sistema operativo seria um plano de recurso para duas situações: para a dependência que a marca tem do sistema operativo Android; e para a possibilidade de um ataque por parte da Apple por causa das parecenças entre o EMUI e o iOS. A reportagem foi baseada em três fontes anónimas e ninguém da Huawei confirmou oficialmente esses planos.

Voltando à Samsung, basta recordar o ano de 2014 no qual esta temática de um possível corte de relações com a Google esteve em maior evidência, justamente devido ao lançamento de um smartphone com o sistema operativo Tizen. Mas este hipotético corte de relações começou antes e viveu muito depois dessa janela de tempo. Alguns exemplos:

😈 Google and Samsung: With partners like these, who needs enemies? | Venture Beat [Março de 2013]
💔 The Master Plan: Why Samsung Is Ditching Android | Forbes [Junho de 2014]
😱 Why Samsung needs to move beyond Android — and Google | Computerworld [Julho de 2014]
💸 Samsung-Google Relationship becoming Awkward? | Business Korea [Julho de 2014]
👊 Samsung’s snafu is Google’s golden opportunity | The Verge [Outubro de 2016]

Todos foram aparentemente análises e relatos infundados pois estamos em 2017 e nada aconteceu. Ou a dependência mútua é de tal ordem que ninguém se atreve a mexer.

A questão é que se a Samsung ainda tiver alguma vontade de ter maior independência relativamente ao Android, este é o momento para conquistar esse espaço. A próxima grande guerra entre tecnológicas vai acontecer na área da inteligência artificial e dos assistentes pessoais e a Samsung comprou uma arma de peso para esta luta: a Viv.

Assistentes como sistemas operativos

A indústria tecnológica está a dar sinais de integração de serviços em ambiente móvel. Depois de uma forte expansão, em que o número de aplicações acumulou-se às dezenas nos equipamentos dos utilizadores, começa a assistir-se a uma tendência em que serviços nucleares são a via de acesso para outras aplicações.

Está a acontecer sobretudo em plataformas de messaging e com os assistentes virtuais. Por exemplo, atualmente pode pedir um uber de várias formas e nenhuma delas implica obrigatoriamente executar a aplicação da Uber.

Se a Google, a Microsoft e a Apple pareciam estar talhadas para dominar este segmento – com o Google Assistant, Cortana e Siri, respetivamente -, o jogo inclui muitos mais jogadores e alguns deles até bastante surpreendentes. É o caso da Alexa, da Amazon.

Amazon Echo Dot

Um dia ainda vão falar da coluna de som que mudou o mundo. Na imagem a Amazon Echo Dot, equipada com a Alexa. #Crédito: André Santos / Future Behind

Se pensarmos na Alexa, esta é a verdadeira expressão do assistente digital como sistema operativo. A Alexa, em si, é o software nuclear que faz funcionar todos os outros. A Alexa pode ser integrada em frigoríficos, smartphones, aspiradores, robôs e virtualmente em todos os equipamentos de eletrónica, como ficou provado durante o CES 2017. A Alexa dá depois acesso a um vasto conjunto de comandos, os chamados Skills, que na prática são as aplicações destes novos sistemas operativos modernos.

Se o que a Alexa faz pode ser surpreendente a vários níveis, a Viv não fica nada atrás. Já dedicámos um artigo à assistente digital que a Samsung comprou à Viv Labs. Por agora queremos só reforçar a questão de a Viv conseguir escrever o seu próprio código, em milissegundos, para concretizar os pedidos dos utilizadores.

Pelo que foi demonstrado publicamente, a Viv tem um grande potencial e não fica atrás daquilo que os principais concorrentes já mostraram.

A Samsung já confirmou oficialmente que vai integrar a Viv no seu próximo smartphone topo de gama, o Galaxy S8, não sendo ainda certo qual a designação que a assistente vai receber – os rumores apontam para Bixby.

O Galaxy S8 deverá chegar ao mercado no final de março

Muito do desempenho que a Viv poderá vir a ter depende, como já referimos, da capacidade da Samsung para atrair até si os programadores. Tal como acontece com a Alexa, terão de ser os programadores a criar Skills para a Viv.

A questão dos programadores é aliás essencial em qualquer assistente digital que queira ter um lugar central nos dispositivos dos consumidores. Olhando para este requisito, e pela longa experiência que têm, Google, Apple e Microsoft parecem novamente mais talhadas para criar um ecossistema em torno das respetivas assistentes.

É aqui que entra novamente a Samsung, mas desta vez com o Tizen – sobretudo na sua versão para relógios.

Os Gear S como um exemplo de eficácia

A Samsung disponibilizou o Tizen para smartphones, mas não conseguiu atrair programadores suficientes para tornar o sistema operativo interessante para a maioria do mercado. Apesar de haver informações de que a Samsung está a trabalhar num novo smartphone com Tizen, o Tizen para telemóveis falhou.

Por que razão deve um programador investir tempo num sistema operativo marginal, quando 98% dos utilizadores e potenciais clientes estão no Android e no iOS? O desfecho do Tizen até podia ter sido outro se a Samsung tivesse sido mais célere na sua estratégia.

Mas o Tizen está longe de ser um falhanço como sistema operativo. A Samsung equipa os seus televisores topo de gama com Tizen e é das empresas que tem um maior ecossistema de aplicações para o grande ecrã. A Samsung decidiu ‘fechar os olhos’ ao Android Wear e apostar no Tizen para smartwatches e os resultados estão à vista.

O Android Wear está num estado debilitado, havendo já fabricantes que dizem não querer apostar mais neste conceito. Já a Samsung, com a sua aposta proprietária, consegue figurar no top 3 dos maiores vendedores de relógios.

Samsung Tizen

A Samsung mostra publicamente que o Tizen está longe de estar ‘morto’. #Crédito: Tizen / Facebook

Talvez mais importante: quem tem um relógio inteligente da Samsung equipado com o Tizen tem à sua disposição um variado conjunto de aplicações que tornam o dispositivo autossuficiente. Nos relógios Gear S a Samsung consegue aliás fazer uma mistura interessante entre aplicações de grande perfil – Uber, eBay, Line, Yelp, Flipboard, entre outros – e aplicações que são desenvolvidas por programadores ‘desconhecidos’.

O Tizen para smartwatches não tem milhões de aplicações disponíveis – nem precisa. Tem em número suficiente para satisfazer as necessidades básicas dos utilizadores e para assegurar conteúdos suficientes para aqueles que gostam de explorar mais opções.

Em conclusão, a Samsung foi capaz de criar um bom ecossistema de serviços e aplicações em torno do Tizen para os ambientes de TV e de relógio inteligente, mostrando isto que a Samsung tem toda a capacidade – e o dinheiro, diga-se – para atrair também os programadores para o seu próximo ecossistema, a Viv.

Sabendo que a luta pela inteligência artificial está agora a começar, a Samsung pode fazer com a Viv o mesmo tipo de trabalho, esforço e investimento que fez com os Gear S. E com os mesmos resultados positivos. O timing para avançar é este mesmo – mais do que isto e pode começar a ser tarde para recuperar terreno face aos outros gigantes.

Quem sabe se não é com a Viv que a Samsung consegue ganhar a tão, alegada, independência relativamente à Google e ao sistema operativo Android. Melhor: parte do sucesso da Viv pode ser justamente construído em cima do sucesso que a Samsung e todos os seus rivais no mundo Android ajudaram a alcançar.