A evolução tecnológica dos últimos anos, sobretudo provocada pelos dispositivos móveis, trouxe um grande número de plataformas digitais que se tornaram num grande sucesso e num curto espaço de tempo. Instagram, Uber, Waze, Snapchat, Spotify, WhatsApp e Tinder são apenas alguns exemplos de serviços que atualmente são de escala global e que há dez anos não existiam.

Estes exemplos de sucesso explosivo inspiraram muitos empreendedores a tentarem a sua sorte neste aguerrido espaço digital. Isso tem resultado no aparecimento de novos serviços e novas plataformas que muitas vezes são apontados como o próximo grande sucesso.

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Secret, Yik Yak, Jelly, Bump, Diaspora, Ello e Beme são nomes que podem figurar no espaço de projetos que não conseguiram corresponder ao entusiasmo inicial que provocaram. Há outros exemplos de sucessos instantâneos mais recentes, como o Mastodon ou o Prisma, que mesmo tendo sido alvo de uma forte cobertura mediática, têm conseguido resistir ao passar dos meses.

A questão é que tanto os investidores, como a imprensa, como os utilizadores, estão sempre à procura da ‘next big thing’. Qual vai ser o próximo Facebook? Qual vai ser o próximo YouTube? Qual vai ser o próximo Netflix?

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Qualquer startup que à partida diga que quer ser o herdeiro de algumas das empresas já mencionadas pode estar a colocar-se em caminhos apertados, pois o mercado depois é muito duro com essas empresas, mesmo que o produto seja bom. Veja-se o exemplo do Snapchat – a aplicação sempre foi popular, mas agora que está cotada em bolsa, sofre constantemente o escrutínio externo por estar a perder terreno para as Instagram Stories.

Daquilo que assistimos nos últimos anos, sobretudo no espaço social, os novos êxitos entre as aplicações são aqueles que quase sem um grande esforço de marketing conseguem ter taxas de crescimento muito significativas e conseguem atrair centenas de milhares de utilizadores.

Atualmente há duas empresas que estão a viver esta fase – Sarahah e Houseparty. São duas aplicações sociais, bastante distintas entre si, mas que ao longo dos últimos meses têm recebido uma grande cobertura mediática e estão a ser apontados como dois novos serviços que podem ganhar uma grande escala rapidamente. Também podem cair no saco dos grandes projetos que nunca o foram, mas isso só o tempo acabará por dizer.

O que interessa por agora é conhecer estes serviços e perceber em que consistem.

Sarahah

É uma das aplicações sensação entre os jovens. O objetivo desta aplicação é permitir uma ligação mais direta, mais sincera e mais espontânea com os seus contactos. Como? Através do envio anónimo de mensagens.

A aplicação está baseada no conceito de anonimato justamente para estimular a sinceridade. A Sarahah foi criada para que o utilizador possa dar o seu feedback sem filtros a amigos, familiares ou colegas de trabalho sobre determinadas situações. O feedback pode ser positivo ou negativo, mas a própria aplicação aconselha sempre o utilizador a ser construtivo naquilo que vai dizer.

Isto porque da forma como a Sarahah está montada, está também bem montada para a disseminação de ódio e comentários ofensivos, um problema que já afeta bastantes plataformas sociais digitais e que nem sequer têm funcionalidades de anonimato. Sabendo que esta aplicação permite ao utilizador manter-se anónimo, então algumas das mensagens que receber poderão ser mais desagradáveis. Há no entanto opções nas definições que permitem aumentar os níveis de privacidade da aplicação.

Sarahah

Com as mensagens recebidas na Sarahah o utilizador pode depois trabalhar nos aspetos que os seus amigos apontaram como negativos ou positivos. Em vez de simples comentários, também pode fazer perguntas e ficar à espera das respetivas respostas – tudo sempre em anonimato. Esta é uma ferramenta pensada claramente para os mais jovens – o próprio design da aplicação parece deixar isso claro, pois apesar de ser minimalista, o layout tem uma certa curva de aprendizagem que os não-nativos digitais terão provavelmente maior dificuldade em dominar.

A aplicação – disponível para iOS e Android – permite que o utilizador faça pesquisa por nomes, numa tentativa de descobrir ao acaso novas pessoas, mas cada utilizador tem associado um link que pode partilhar noutras redes sociais para que seja mais fácil ser descoberto na Sarahah.

Dito assim pode não parecer a aplicação mais evoluída do mundo – e não é. É o facto de estar a atrair a atenção de muitos jovens que tem colocado a Sarahah no radar das pessoas que seguem o mundo tecnológico. Sobretudo as restantes plataformas sociais estão sempre a monitorizar a concorrência, especialmente a que consegue atrair os mais novos – ou noutra perspetiva, os grandes utilizadores de tecnologia do futuro.

Apesar de agora ser dominada por adolescentes, quando a aplicação foi criada pelo programador Zain al-Abidin Tawfiq, o seu público-alvo eram os trabalhadores de empresas de todo o mundo. “Há um problema no local de trabalho que as pessoas precisam de comunicar abertamente aos seus chefes”, disse o empreendedor saudita ao Mashable.

Houseparty

Como sabemos que a Houseparty está a ter sucesso? O Facebook está, alegadamente, a preparar uma funcionalidade para as suas plataformas que replica aquilo que a Houseparty permite fazer. Esta é uma aplicação que torna a videoconferência entre utilizadores muito fácil de realizar.

É possível ter até oito pessoas a participarem em simultâneo – aquilo a que podemos chamar de ‘festa’ – e é mais uma aplicação desenvolvida a pensar nas gerações mais novas e para quem partilhar a sua vida com os colegas através da internet é uma atitude comum.

Segundo o cofundador Sima Sistani, esta aplicação é diferente pois permite à pessoa definir quando está pronta para ser contactada. É nesta altura que os utilizadores abrem novas salas, salas essas que podem ser ocupadas pelos seus amigos. É também possível estar em mais do que uma sala ao mesmo tempo.

Sempre que um novo utilizador se junta à conversa, o ecrã é dividido em mais quadrados para acomodar todos os que estão em conversação. Para o caso de apenas querer falar com três amigos, por exemplo, assim que todos estiverem online o utilizador também pode escolher ‘fechar’ a sala, impedindo que outras pessoas se juntem a esta sala específica.

Houseparty

A equipa que está a desenvolver a Houseparty desde o início de 2016 não é desconhecida do mundo tecnológico – foi a mesma que criou o Meerkat, o serviço que ajudou a massificar as transmissões de vídeo em direto a partir do telemóvel. As respostas do Twitter e do Facebook neste segmento acabaram por ‘matar’ o Meerkat, pelo que a empresa está a passar novamente pela experiência de ter em breve um gigante a clonar a sua proposta de valor. De acordo com o The Verge, o serviço do Facebook semelhante à Houseparty tem o nome de código Bonfire.

No final do ano passado a aplicação Houseparty tinha 1,2 milhões de utilizadores que gastavam em média 20 minutos na aplicação por dia. Os utilizadores com idades entre os 16 e os 24 anos representavam 60% da utilização da aplicação. Também no final do ano passado a empresa recebeu 50 milhões de dólares em investimento, depois de ter dado uma nega a uma alegada proposta de compra do Facebook.

A empresa até começou em modo ‘fantasma’ e usou um outro nome ao início justamente para tentar não só fugir ao escrutínio público e ao hype, mas também ao peso do passado que o Meerkat acarreta. Depois de ter entendido melhor o feedback dado pelos primeiros utilizadores, a Houseparty estava pronta para se mostrar ao mundo – no iOS e Android.

Dificuldades à frente

Tanto a Houseparty como a Sarahah têm futuros muito atribulados à sua frente. No caso da Houseparty, a startup tem uma das maiores tecnológicas do mundo a criar um sistema igual ao seu – enquanto a Houseparty esforçou-se bastante para dar resposta à grande procura que estava a ter, pois a app estava sempre a falhar, o Facebook tem uma infraestrutura que serve dois mil milhões de utilizadores.

É verdade que nem todas as tentativas de inspiração do Facebook são bem sucedidas, mas também é verdade que a empresa tem uma agressividade incomum nesta área e que acaba por ‘secar’ o que existe à sua volta em termos de concorrência.

Já a Sarahah tem recebido algumas críticas negativas. Apesar de o conceito da plataforma poder ser muito interessante para os públicos mais jovens, foi imediatamente levantada a questão de potenciar o cyberbullying.

No caso da Sarahah há ainda a destacar o facto de já outras aplicações com conceitos semelhantes terem tido um percurso muito parecido – atraíram a atenção de muitos jovens, mas foram sucessos do momento e que não conseguiram manter as pessoas interessadas na plataforma.

Ou seja, aquelas que são provavelmente as duas aplicações mais ‘quentes’ da atualidade têm um caminho espinhoso pela frente. Pensar que podem chegar ao grupo das grandes aplicações que milhões de utilizadores têm instaladas nos seus smartphones não é errado, mesmo com a concorrência de gigantes – o Snapchat comprova-o.

Agora que parece cada vez mais difícil alguém juntar-se ao grupo dos grandes, sem ser através de uma aquisição ou parceria, lá isso parece.

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