Xabi Uribe-Etxebarria é um empreendedor espanhol e tem um assistente, Martin, para ajudar na gestão das suas tarefas diárias. Xabi não pede a Martin que lhe acenda ou apague as luzes, nem lhe faz perguntas de cultura geral para as quais não sabe a resposta. Não é este o propósito de um assistente humano e, na opinião do fundador da Sherpa, também não deve ser este o propósito dos assistentes digitais.

A Sherpa é uma empresa espanhola especializada em inteligência artificial e está a desenvolver um assistente pessoal digital que tem como objetivo facilitar, melhorar e até tornar mais feliz a vida das pessoas. Assistentes digitais já há muitos – Siri, Google Assistant, Cortana, Alexa -, mas Xabi Uribe-Etxebarria insiste que o Sherpa é diferente.

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“Não estamos a competir com os gigantes tecnológicos, é um complemento aos sistemas deles. (…) É fácil de nos diferenciarmos, pois não estamos a construir um sistema de perguntas e respostas, o nosso sistema é completamente diferente. Aprende os hábitos do utilizador e vai mostrar a informação mesmo antes de perguntar por ela”, disse Xabi Uribe-Etxebarria, em entrevista ao FUTURE BEHIND.

O CEO da empresa espanhola veio até Portugal a propósito do Web Summit, onde falou dos erros que têm sido cometidos pelas empresas que estão a desenvolver assistentes digitais.

Sherpa | Xabi Uribe-Etxebarria

“A realidade é que os assistentes apenas sabem fazer alguns truques – agendar alarmes, acender as luzes. Não são mesmo assistentes pessoais e foi isso que percebemos há dois anos”, disse à plateia de centenas de pessoas que assistiam à conferência. “Acho que fizemos muitos erros, as empresas que estão neste espaço, e estamos muito longe dos assistentes que vimos no filme Her”.

“O que quero de um assistente é que aprenda comigo, saiba o que quero, saiba o que gosto e não gosto, e quero que antecipe as minhas necessidades. Se for hora de almoço, que me recomende um restaurante que se enquadre com os meus interesses”, detalhou Xabi Uribe-Etxebarria. “Quero que me ajude a tornar a vida mais fácil e até mais entusiasmante. É nisso que estamos a trabalhar”.

A pró-atividade é um dos elementos diferenciadores do Sherpa enquanto assistente digital. A Google tem trabalhado um pouco nesta área desde o lançamento do Google Now, mas em bom rigor a interação tem de partir quase sempre do utilizador. O objetivo da Sherpa é que não seja necessário dizer ‘Ok Google’, mas seja o dispositivo a dizer ‘Ok Xabi’, para depois dar ao utilizador informações sobre meteorologia, filmes disponíveis em cinemas próximos, resultados desportivos e também notícias.

A Sherpa já teve um assistente digital disponível para download nas lojas de aplicações, mas a empresa decidiu dar um passo atrás e reformular o seu produto. Agora está a preparar um grande lançamento para o segundo trimestre do próximo ano, altura em que vai lançar para o mercado aquela que é a sua visão de um ‘verdadeiro’ assistente digital.

O novo Sherpa ainda não foi mostrado publicamente, pelo que todas as suas potencialidades não passam agora de meras promessas. O que tem sustentado o discurso da empresa são os 8,1 milhões de dólares já angariados em investimento, sendo que 6,5 milhões dos quais foram conseguidos no ano passado, segundo a plataforma Crunchbase.

O dinheiro que a empresa espanhola angariou está a ser investido no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial. “Precisamos de ter bons algoritmos e para treiná-los precisamos de um grande número de utilizadores. Demora tempo, meses e até anos, para libertar estes sistemas e para tentar ajustá-los para que façam exatamente aquilo que queremos”, explicou ao FUTURE BEHIND.

Quando chegar no próximo ano, o assistente Sherpa vai falar inglês e espanhol, este último um idioma que já sendo suportado, por exemplo, pela Siri, está ainda muito pouco explorado no segmento dos assistentes digitais. O espanhol é das línguas mais faladas no mundo, o que representa uma grande oportunidade para tecnológica. Isso e tentar suportar outros idiomas que ainda não são muito contemplados pelos outros sistemas de inteligência artificial, como o português.

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“Podíamos fazê-lo [suportar português], mas primeiro precisamos de lançar o produto no segundo trimestre de 2018, em inglês e espanhol, e aí podemos adaptar o nosso motor de processamento de linguagem natural para novos idiomas. (…) A nossa plataforma está preparada para isso, temos pensado como conseguiremos construir uma plataforma que é escalável. No nosso caso é fácil, mas leva tempo”, explicou Xabi Uribe-Etxebarria, que admitiu que o português é um idioma interessante da perspetiva de negócio, pois o mercado brasileiro tem um grande número de potenciais utilizadores.

Mesmo idiomas mais complexos poderão não ser um grande quebra-cabeças para a tecnologia da Sherpa. “Fizemos um teste em japonês no ano passado e funcionou. Se tivermos mercado, a plataforma está preparada para qualquer idioma”.

“Se viste o filme Her, essa é a nossa grande visão. Que te ajude nas tarefas diárias, mas que torne a tua vida mais excitante, que te ajude a encontrar coisas que te façam sentir melhor. Também estamos a trabalhar para fazer com que a tua vida seja mais feliz. É a nossa visão para os próximos cinco a dez anos”, defendeu o CEO da Sherpa.

Sherpa | Xabi Uribe-Etxebarria

Além de planear lançar uma aplicação gratuita para smartphones, através da qual os utilizadores poderão interagir por texto ou voz, a Sherpa quer apostar acima de tudo no segmento automóvel e nos dispositivos inteligentes de áudio.

“Estamos a fechar acordos com fabricantes de primeira linha para que os próximos assistentes sejam integrados em carros e em colunas”, disse à plateia do Web Summit – curiosamente, evento do qual foi cofundador e chairman -, mas sem adiantar nomes concretos, pois os mesmos só serão revelados no próximo ano.

Talvez a grande questão que falta responder é como é que uma empresa espanhola, de Bilbao, consegue estar a atrair tantas atenções num mercado que parece exclusivamente dominado pelos gigantes de Silicon Valley?

“Penso que estar em Bilbao é uma vantagem para nós, pois temos duas das melhores universidades do país. São muito boas, têm equipas muito boas em inteligência artificial e temos a possibilidade de contratar pessoas muito inteligentes. E não estamos no hype de Silicon Valley, penso que é uma vantagem”, sublinhou durante a nossa entrevista.

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Xabi Uribe-Etxebarria admite que é difícil lutar contra a escala de uma Apple, por exemplo, pois com uma simples atualização de software a empresa consegue lançar um serviço que passa automaticamente a estar disponível para centenas de milhões de utilizadores.

Ainda assim está totalmente convencido que se fizer o produto certo, o produto que responderá às verdadeiras necessidades dos utilizadores relativamente aos assistentes digitais, então que o sucesso está ao alcance da sua equipa que é constituída por 30 pessoas. “Queremos construir uma grande empresa, é o nosso objetivo”.

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