Este foi o não-ano dos smartphones modulares. Apesar de ter sido em 2016 que estrearam no mercado as primeiras propostas de smartphones pensados em torno de um ecossistema de módulos, rapidamente deu para perceber que as propostas das empresas tinham as suas falhas.

O LG G5 ficou curto em módulos e na forma como os mesmos devem ser trocados. O Lenovo Moto Z apresentou uma proposta mais prática, mais preenchida de acessórios, mas acaba por tornar o smartphone em algo demasiado volumoso e bem mais dispendioso. O Project Ara estava para sair da gaveta, mas foi atirado para a lareira. E o PuzzlePhone neste momento é apenas uma promessa.




Tirando o Project Ara, que já não existe, os restantes equipamentos têm todos uma característica em comum: o preço elevado. São dispositivos topo de gama e por isso têm uma etiqueta a condizer. Percebe-se que as empresas queiram dar o melhor dos seus dispositivos num formato inovador. Mas ao fazerem isto estão a limitar a abrangência do ecossistema modular.

Para que os dispositivos modulares possam ser um verdadeiro sucesso – no sentido em que ganham uma tração interessante no mercado -, então é preciso baixar o preço de entrada destes equipamentos. O primeiro grande smartphone modular será aquele que jogar no segmento de média gama.

Talvez os desafios tecnológicos neste momento impeçam equipamentos muito mais baratos. Mas pelo menos é necessário trabalhar com este objetivo na cabeça.

Quem compra um dispositivo topo de gama é porque gosta de soluções chave na mão, gosta dos smartphones mais polidos e mais trabalhados do mercado. Só uma pequena franja de early adotpers é que estará disposta a investir 600 ou mais euros num equipamento que até para as empresas que o produzem, são experimentais.

Mas se as tecnológicas falarem a língua dos consumidores – € $ £ -, então vai haver um melhor entendimento entre as partes.

Ao baixarem o preço dos dispositivos modulares, as empresas estarão também a permitir que o ecossistema de módulos possa ganhar alguma força. A diferença entre gastar 250 ou 600 euros num dispositivo permite aqui uma grande margem de investimento para a aquisição de um ou outro módulo.

Usando capas externas que ligam ao smartphone através de um conector magnético, a Motorola criou uma proposta diferente de smartphone modular

Este artigo é motivado pelos valores que a Motorola revelou recentemente e que, pela positiva, mostram uma adoção interessante do seu dispositivo modular.

Metade dos utilizadores do Moto Z utilizam módulos no smartphone, revelou o diretor de produto da Motorola Mobility, John Touvannas, à publicação PC Mag. Dos que usam módulos, 20% usam os módulos mais caros que a Motorola tem disponíveis, o projetor e a câmara fotográfica melhorada.

Um inquérito feito pela Motorola aos clientes que compraram o Moto Z revela que a razão principal para a compra do smartphone é justamente a sua capacidade modular. E quem tem módulos dá-lhes uso: o módulo de bateria externa é usado em média 37 horas por semana e o módulo do projetor 10 horas por semana.

Agora imagine este cenário num smartphone e num ecossistema de módulos muito mais acessível.

Há um apelo inegável nos smartphones modulares: conseguir melhorar o dispositivo sem que seja necessário fazer uma grande atualização de hardware. Ganham os consumidores e ganha o meio ambiente já que os níveis de produção de equipamentos baixaria e a quantidade de lixo eletrónico baixaria – pelo menos estes são dois objetivos do conceito de smartphone modular.

Nos próximos tempos é provável que os dispositivos modulares mantenham-se como experiências premium e não estarão acessíveis a todos os consumidores. Mas será igualmente de esperar que os rápidos avanços na tecnologia ajudem a alargar o espectro da modularidade a níveis de preço mais baixos.

O fundador do projeto PuzzlePhone, Alejandro Santacreu, está consciente desta ideia e por isso é que está não só a construir um smartphone modular, mas também a criar um ecossistema de parcerias que permitirá a outras empresas produzirem equipamentos. Sabendo que na China há fabricantes já com todo o conhecimento no fabrico de dispositivos móveis, será uma questão de tempo até que consigam colocar no mercado smartphones por 300 euros ou até valores inferiores.

O PuzzlePhone divide-se em três partes essenciais que permitem trocar a maior parte dos componentes do dispositivo

“Pode haver um PuzzlePhone de 300 euros, pode haver um de 3.000 euros se tiver características exóticas”, disse o CEO da PuzzlePhone em entrevista ao FUTURE BEHIND no final de outubro. Tudo dependerá do objetivo de cada empresa.

Serão verdadeiros equipamentos modulares?

Em junho o conhecido ‘revelador de informações antes do tempo’, Evan Blass, escreveu um artigo intitulado de ‘Pode o verdadeiro smartphone modular levantar-se?’.

Neste artigo publicado na Venture Beat era colocado em causa o verdadeiro sentido de um smartphone modular. Para que a modularidade esteja no seu estado mais puro, os utilizadores deveriam poder trocar os principais componentes dos seus dispositivos: seja o ecrã, o processador, a RAM, o armazenamento ou qualquer outra parte crítica do funcionamento.

Aquilo a que assistimos em 2016 não é uma interpretação lata deste conceito modular, mas é um cenário no qual os módulos funcionam como um acréscimo de tecnologia ao dispositivo. O smartphone está lento? Vai continuar porque o processador não é trocável. Mas se quiser dobrar a capacidade da bateria, isso é algo que já se arranja.

Um dos conceitos que está associado à aposta na modularidade é a extensão de vida dos dispositivos móveis. A PuzzlePhone diz que os seus equipamentos vão durar dez anos. Mas a empresa finlandesa não está a ter a mesma abordagem da Motorola e da LG.

Estão as gigantes dos dispositivos móveis mesmo interessadas em vender menos equipamentos a troco de venderem mais componentes? No final de contas eles são uma empresa, querem é fazer negócio e manter os investidores satisfeitos.

O objetivo das empresas será determinante para a concretização deste conceito tecnológico. Resta saber justamente qual o verdadeiro objetivo: faturar mais, fazer a diferença para o consumidor sem olhar ao dinheiro ou encontrar um meio caminho entre estes dois mundos?

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