Restam poucas dúvidas de que existe uma guerra intensa e feroz entre o Facebook e a Snap Inc. O sinal mais visível deste duelo é a implementação da funcionalidade Stories, um conceito popularizado graças ao Snapchat, em todas as principais plataformas sociais do Facebook. Em bom rigor, o Facebook tirou ao Snapchat um dos seus principais fatores de diferenciação.

Sobretudo no Instagram, a funcionalidade Stories está a ter um grande sucesso. Quanto à adesão noutras plataformas, será preciso um pouco mais de tempo até que existam dados oficiais sobre a sua utilização.




A Snap Inc. tem estado relativamente calada sobre a estratégia agressiva que o Facebook tem protagonizado. Mas a Snap Inc. não tem estado parada e recentemente vimos duas reações vigorosas, ainda que diferentes, à storização do Facebook.

A primeira destas respostas veio através da possibilidade de pesquisar conteúdos específicos em Stories que são públicas e partilhadas – isto é, para as quais diferentes utilizadores podem contribuir. Pode não parecer a funcionalidade mais revolucionário, mas a verdade é que acaba por trazer uma nova dimensão ao conceito das Stories e volta a adicionar um elemento de valor que as Stories do Facebook e Instagram não oferecem.

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A ferramenta de pesquisa das Stories permite que o utilizador pesquisa por palavras-chave e encontre conteúdos que correspondam a esse interesse. Por exemplo, a ideia é que ao pesquisar por ‘cão’, consiga encontrar todos os conteúdos públicos que contenham imagens ou vídeos de cães.

Como é que a Snap Inc. sabe que conteúdos correspondem a cada categoria? Através de uma análise automática por parte de ferramentas de inteligência artificial e de reconhecimento de imagens. Uma vez mais, na prática é uma funcionalidade que aos olhos dos utilizadores funciona de forma simples, mas que tecnologicamente é bastante evoluída.

Ao permitir a pesquisa de conteúdos nas Stories, o Snapchat ganha uma dimensão menos efémera. A rede social já confirmou que há conteúdos que podem estar disponíveis menos de 24 horas, mas outros conteúdos, de acordo com a sua relevância, podem ser encontrados através da pesquisa ao longo de vários meses.

Ao criar uma tecnologia de pesquisa, a Snap Inc. torna o Snapchat numa plataforma não só de consumo de conteúdos imediatos, mas também numa plataforma de descoberta – aqui pode até ser feito um paralelismo com o YouTube. Os utilizadores quando vão ao YouTube pretendem descobrir algo do seu interesse, algo que gera grandes tempos de interação na plataforma – mil milhões de horas de vídeo são consumidas no YouTube todos os dias.

Agora que o Snapchat está a conhecer um declínio no crescimento número de utilizadores ativos diários e que a concorrência também já disponibiliza as Stories, a Snap Inc. parece interessada em aumentar o tempo de permanência dos utilizadores na aplicação, aquele que já era um dos destaques da rede social.

Esta foi a resposta mais prática que já vimos até agora da Snap Inc. relativamente à storização do Facebook. A segunda resposta foi mais irónica e uma jogada de marketing.

No dia 1 de abril, o dia das mentiras, a partida que o Snapchat decidiu pregar aos seus utilizadores foi a disponibilização de um filtro que transformava as suas fotografias como se tivessem sido publicadas no Instagram.

A verdadeira mensagem estava depois nos pormenores deste filtro: a fotografia captada aparecia apenas com três likes, com um deles a ser feito por um utilizador chamado ‘my_mom’, naquela que parece ser uma alusão ao facto de o Instagram estar agora a ser utilizado por um maior número de utilizadores mais velhos. Em contrapartida, a juventude dos utilizadores do Snapchat é um dos seus principais valores.

O duelo segue no hardware

Um exemplo deste ar mais jovem e irreverente da Snap Inc. foi dado no ano passado com o lançamento dos Spectacles, uns óculos de sol que incluem uma câmara para uma partilha mais simples e rápida de fotografias ou vídeos do Snapchat.

O lançamento dos Spectacles foi uma das melhores jogadas de marketing do ano passado no universo das novas tecnologias. Durante semanas e semanas a fio falou-se de uns óculos de sol que eram vendidos em quantidades muito limitadas e num baixo número de localizações nos EUA. Esta ‘raridade’ dos Spectacles foi aliás o elemento que tornou os óculos mundialmente famosos, sobretudo pelas longas filas de espera e pelas histórias associadas.

Agora nos EUA já é possível comprar os Spectacles através de uma loja online, o que por um lado reduziu o momentum de marketing do wearable, mas pode ajudar a aumentar significativamente as suas vendas.

Devido a este alargamento da comercialização dos Spectacles, o Facebook teria aqui o momento perfeito para desferir aquele que seria um rude golpe na imagem e na estratégia da Snap Inc. – tornar os Spectacles compatíveis com o Instagram.

Por agora os Spectacles ainda só são compatíveis com o Snapchat, a única aplicação que permite ver os conteúdos no seu melhor formato. Existem formas de publicar os vídeos e as fotografias captados através dos Spectacles noutras redes sociais, mas o formato não é compatível e o resultado final é no mínimo estranho.

Se o Facebook quebrasse esta exclusividade a favor do Instagram, fosse de forma oficial ou de forma mais dissimulada, seria um movimento fortíssimo pois estava a tirar aos Spectacles o principal motivo para os quais foram criados. E do ponto de vista de orgulho empresarial, seria um duro golpe para a Snap Inc. ver os seus Spectacles a serem usados para alimentar o Instagram.

Se haveria utilizadores do Instagram interessados nos Spectacles, isso já seria uma conversa completamente diferente. A verdade é que no Instagram são publicados muitos conteúdos que utilizam, por exemplo, os filtros proprietários do Snapchat, tanto nas publicações no feed, como nas publicações feitas nas Stories. Basta fazer uma pesquisa pela hashtag #S n a p c h a t no Instagram para encontrar 194 mil publicações, muitas delas com os ditos filtros de realidade aumentada.

Não parecem muitas publicações? Podiam ser certamente muitas mais – a hashtag #Snapchat apresenta resultados muito limitados pois de acordo com o Instagram “As publicações recentes de #snapchat estão ocultas porque a comunidade tem denunciado alguns conteúdos que podem infringir as Normas da Comunidade do Instagram”, lê-se na aplicação.

E como o diretor executivo da Hootsuite, Ryan Holmes, já analisou, não seria também de todo descabido para o Facebook lançar uma versão própria dos Spectacles. Isto é, em vez de criar uma compatibilidade com o hardware que já existe, fazer o seu próprio hardware.

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Este ponto de análise relativamente aos Spectacles é feito não para alimentar mais escaramuça entre as empresas, mas porque pode haver de facto possíveis pontos de confronto entre as duas empresas no longo termo no que diz respeito ao hardware.

Os Spectacles são vistos como uma primeira tentativa da Snap Inc. no mundo do hardware, antecipando aquele que pode ser um gadget mais comercial e mais orientado para o campo da realidade aumentada. Ora, o Facebook está justamente a perseguir o mesmo objetivo, ainda que no caso da empresa de Mark Zuckerberg essa seja uma meta pública – o CEO do Facebook já disse que o objetivo da sua empresa é criar óculos de realidade virtual que em tudo se assemelham aos óculos que as pessoas utilizam atualmente.

Poderá ser apenas uma questão de tempo, mas a Snap Inc. e o Facebook também vão rivalizar no segmento do hardware. Portanto qualquer movimento que faça desequilibrar a balança o quanto antes pode definhar as ambições da empresa rival nesse campo.

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