Snapchat quer aproximar-se da vida real e para isso criou os Spectacles

É uma das partes mais curiosas da reportagem do The Wall Street Journal sobre o novo rumo do Snapchat: o seu criador, Evan Spiegel, não vê tanto o serviço como uma rede social, mas antes como uma empresa de câmaras e fotografias. E por isso é que a criação de uns óculos de sol que captam dez segundos de vídeo de cada vez é um passo lógico para a plataforma.

“Snap Inc. é uma empresa de câmaras.

Acreditamos que reinventar a câmara representa a nossa maior oportunidade de aprimorar a maneira como as pessoas vivem e comunicam”, lê-se agora no site oficial da empresa.

Hoje o dia é de mudança para o Snapchat. A empresa que até aqui tinha o mesmo nome do serviço passa a chamar-se Snap Inc., justamente por ter objetivos muito mais ambiciosos além do serviço para smartphones. Os óculos Spectacles são esse primeiro passo, são o passo que permite ao Snapchat viver além do smartphone.

Em termos físicos os Spectacles assemelham-se a uns óculos de sol tradicionais, vão estar disponíveis em três padrões e estão equipados com duas câmaras fotográficas que produzem vídeo com uma amplitude de 115º. Este é um aspeto importante pois permite que os conteúdos partilhados depois no Snapchat estejam mais próximos daquilo que as pessoas veem na vida real.

Evan Spiegel quer que os vídeos gravados através dos Spectacles consigam trazer às pessoas um maior revivalismo, como se fossem memórias vivas. E sabendo, por exemplo, que as câmaras de ação ganharam popularidade justamente por este posicionamento mais próximo, por relatarem os conteúdos numa perspetiva mais intimista, talvez este seja o momento certo para os óculos.

Os rumores de que o Snapchat podia avançar para o segmento do hardware já tinham surgido, mas talvez não fosse de esperar que esse momento estivesse tão próximo. Mas ao que tudo indica este foi um momento de mudança completamente orquestrado e há muito que estava no roteiro da empresa e do seu CEO.

Evan Spiegel, por exemplo, confessou na reportagem que já andava a testar os óculos desde o início de 2015, o que dá aos Spectacles um ciclo de desenvolvimento consideravelmente grande.




“Quando recuperei as imagens e vi-as, eu pude ver as minhas memórias, através dos meus olhos – foi inacreditável. Uma coisa é veres imagens da experiência que tiveste, outra coisa é ter uma experiência da experiência. Foi o mais próximo que tive de sentir que estive lá outra vez”, disse, recordando as primeiras férias que teve com a namorada.

Pensar nos Spectacles e não pensar nos Google Glass – e no seu desastre – é quase inevitável. Ainda que sejam projetos totalmente diferentes, acabam por partilhar um perigo em comum: a captação de imagens das vidas alheias. Um aspeto curioso na reportagem do The Wall Street Journal é o facto de Evan Spiegel nunca comentar de forma direta as questões de privacidade que vão surgir em torno dos óculos.

O Snapchat tem 150 milhões de utilizadores diários

Mas um pouco ao contrário do que a Google fez – um grande esforço de marketing para promover os Glass -, o Snapchat vai trabalhar os Spectacles de forma discreta. Os óculos vão custar 130 dólares, o equivalente a 115 euros, mas vão ter distribuição limitada. Ainda não existe qualquer indicação de que venham a ser vendidos fora dos EUA. E o objetivo do Snapchat não é tirar lucro direto deste produto. O objetivo é perceber como é que as pessoas se vão relacionar com os óculos.



Para afastar qualquer pressão comercial sobre o produto é o próprio diretor executivo da agora Snap Inc., Evan Spiegel, quem apelida os Spectacles de “brinquedo”. Quando temos o CEO de uma empresa a dizer isto do seu mais recente produto e que representa uma grande viragem na abordagem da empresa, então não há pressão possível que lhe possam atirar.

Evan Spiegel também vê os Spectacles como uma libertação. Os utilizadores podem continuar a partilhar no Snapchat – basta tocar nos óculos que é feita uma gravação de dez segundos e imediata partilha com o smartphone através de uma ligação wireless -, mas também vão manter as suas mãos livres para outras tarefas.

Na reportagem também não existe qualquer referência a efeitos de realidade aumentada nos Spectacles, algo que fazia parte da lista de rumores associada aos óculos. Mas esse é também um aspeto que deve ser fácil de implementar com uma simples atualização de software no futuro.