A Sony é uma das tecnológicas mais multifacetadas da atualidade. É verdade que a empresa pode não ter a mesma posição dominante e a aura que tinha na década de 1990, mas isso não significa que a Sony tenha deixado de ter uma influência significativa em diferentes segmentos.

Dentro da gigante japonesa há uma divisão de dispositivos móveis, uma de videojogos, uma de produtos e soluções de imagem, uma de entretenimento visual e de áudio, uma de semicondutores e outra de componentes.




A Sony tem aquele que foi considerado como o melhor e mais inovador smartphone do Mobile World Congress. A Sony tem a consola mais popular da atualidade com 60 milhões de unidades vendidas. A Sony tem também aquela que é reconhecida como uma das máquinas fotográficas point-and-shoot mais badaladas do mercado. A Sony tem um dos televisores mais espetaculares de 2017. A Sony é uma das empresas que mais sensores de imagem fornece para outros fabricantes. Nestes pontos de vista, a Sony ainda é a Sony.

Ninguém duvida que a tecnológica japonesa é capaz de criar aqueles que são alguns dos melhores gadgets do mundo nos seus respetivos segmentos. O que nem sempre pode parecer claro é a estratégia da empresa nos diferentes segmentos e a forma como tenta conjugá-los.

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Aqui é importante dizer que dentro do universo Sony há ainda outras duas forças importantes – a Sony Pictures, um dos nomes grandes na área do cinema; e a Sony Music, um dos nomes grandes na área da música.

Mas o que hoje nos leva a escrever sobre a tecnológica japonesa é a crescente importância que o segmento de videojogos tem ganhado dentro da empresa. A Sony tem muitas divisões e todas elas bastante poderosas, mas a verdade é que se tirarmos a Sony Interactive Entertainment da equação – a divisão responsável pelo universo PlayStation -, então temos uma Sony mais fragilizada.

Se tirarmos o iPhone à Apple e a publicidade à Google, também estaríamos a tirar quase tudo a estas duas gigantes. Mas ao contrário da Sony, estas empresas até podem ter muitos produtos, mas os segmentos de negócio não são diversificados – hardware para o lado da Apple, publicidade para o lado da Google.

Olhámos para os resultados financeiros consolidados da Sony dos últimos três anos fiscais – 2014, 2015 e 2016 – e a questão da playstationdependência parece estar a ganhar contornos.

É só fazer as contas

Em 2014 a divisão de gaming da Sony representou 16,89% das receitas totais da empresa. Em 2015 este valor subiu para 19,13% e no mais recente exercício fiscal, que terminou a 31 de março de 2017, a divisão de gaming já representava 21,68% das receitas totais.

Ou seja, as vendas da PlayStation, o serviço PlayStation Network e a venda de videojogos têm vindo a ganhar, de forma constante, um maior peso nas contas finais da Sony. Atualmente já representam mais de um quinto das receitas da empresa, o que é bastante tendo em conta que existem 11 grandes áreas que ajudam a definir as contas anuais da Sony.

Nestes três anos, que correspondem acima de tudo aos anos em que a PlayStation 4 está no mercado, a divisão de gaming foi sempre a divisão que mais contribuiu para as receitas globais da Sony. Em 2014 o segmento de videojogos superou por muito pouco a divisão de dispositivos móveis – 1,38 biliões de ienes contra 1,32 biliões -, mas no ano fiscal de 2016 as diferenças foram mais significativas – 1,64 biliões de ienes gerados pelos videojogos, 0,75 biliões de ienes gerados pelos dispositivos móveis.

Sony Kaz Hirai

Kaz Hirai é o diretor executivo da Sony e é o homem que tem conduzido a empresa desde 2012. #Crédito: Sony

Ou seja, neste momento os videojogos já são duas vezes mais valiosos para a Sony do que a sua divisão de dispositivos móveis, quando apenas há dois anos estavam a lutar pela liderança dentro da empresa taco a taco. Além da clara ascensão da PlayStation 4, nota-se também um claro declive no segmento de dispositivos móveis – uma questão que já discutimos com o analista da IDC, Francisco Jerónimo, neste artigo.

Em termos tecnológicos, a segunda área mais importante para a Sony neste momento é a de entretenimento de imagem e áudio – televisores, leitores Blu-Ray, colunas de som, leitores de música digital, headphones, entre outros. Esta área representa um bilião de ienes em receitas para a Sony, mas continua distante do universo PlayStation.

Talvez onde vemos uma maior dependência da Sony relativamente à PlayStation é na análise do lucro. Mesmo apresentando níveis de faturação interessantes, o lucro da Sony acaba por não ser muito grande.

Margens de lucro

Em 2014 o lucro da Sony apenas representou 0,83% das receitas conseguidas nesse ano fiscal. Em 2015 o valor subiu para 3,62% e em 2016 cresceu um pouco mais para 3,79%. A título de comparação, os lucros da Apple no ano fiscal de 2016 representaram 27% das receitas totais conseguidas pela empresa.

O que é que isto significa? Significa que a Sony não é a melhor das empresas no que diz respeito às margens de lucro. A empresa vende bem, fatura bem, mas lucra pouco com as vendas que faz. Estas margens magras fazem com que em caso de vendas mais fracas – como tem acontecido com o segmento dos smartphones – o impacto seja imediatamente notório no desempenho total da companhia.

Nos anos fiscais de 2015 e 2016, à exceção dos serviços financeiros da Sony – sabia que a Sony tem um banco? -, a divisão de videojogos foi aquela que gerou mais lucro para a empresa.

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Se, por exemplo, tirarmos da equação os lucros gerados pela divisão de gaming em 2014, 2015 e 2016, a Sony sentiria quebras de 70,21%, 30,14% e 46,96%, respetivamente, nos lucros finais de cada ano fiscal. Estes são valores muito significativos.

Se a Sony sobreviveria sem o negócio da PlayStation? Claro que sim. Se a Sony teria a mesma força que tem sem a PlayStation? Muito dificilmente. A Sony pode ainda não estar playstationdependente, mas tem estado a dar alguns passos nesse sentido.

Isto acontece em parte porque a tecnológica japonesa tem de facto executado uma estratégia muito bem conseguida com a PlayStation 4. Desde que chegou ao mercado em novembro de 2013, o sistema agarrou a liderança junto das consolas de nova geração e de lá nunca mais saiu. Maior poder gráfico, catálogo de jogos exclusivos muito apelativo e uma estratégia de marketing fortíssima são elementos que ajudam a perceber este desempenho.

A Sony não tem ficado, por outro lado, simplesmente a ver o dinheiro a cair na sua conta. A empresa está a esforçar-se para endereçar as novas necessidades do segmento de gaming ao apostar nos PlayStation VR e na PlayStation 4 Pro. Estas apostas, aliadas ao ainda bom momento da PlayStation 4 lançada em 2013, vão resultar em mais 18 milhões de unidades vendidas nos próximos 12 meses.

Mesmo com uma quebra na venda das consolas – de 20 milhões para 18 milhões – no horizonte, os resultados financeiros da Sony não deverão ser muito impactados pois parte do sucesso que a PlayStation 4 tem representado nas contas recentes da empresa está relacionado com um aumento das margens de lucro que a empresa tem conseguido tirar à medida que a produção do sistema de jogo vai ficando mais barato.

Se ninguém questiona o valor e a importância da PlayStation para a Sony, já o desempenho de outras áreas comerciais têm sido mais questionadas. A verdadeira dependência da PlayStation acaba por não estar sequer na consola – atualmente é um motor importante para a empresa, mas se as outras unidades de negócio não crescerem a médio prazo, aí sim, a Sony vai ficar mais dependente dos videojogos.