É já na quinta-feira, 15 de dezembro, que fica disponível o jogo Super Mario Run para dispositivos iOS. Apesar de este não ser o primeiro jogo da Nintendo para dispositivos móveis – Miitomo até pode ter um maior pendor social, mas não deixa de ser um jogo -, será sem dúvida este o momento que vai marcar o ponto de viragem na estratégia da Nintendo relativamente ao mundo mobile.

Na prática isto é que o vai acontecer na quinta-feira: um dos maiores ícones da indústria dos videojogos vai chegar a uma das principais plataformas de gaming que existe atualmente. Estima-se que no final do ano existam 2,1 mil milhões de smartphones em utilização e quando em 2017 chegar também ao Android, Super Mario Run vai poder marcar presença numa grande fatia deste mercado.




O lançamento de Super Mario Run acaba por ser o momento perfeito para olhar para a estratégia mobile que as três grandes empresas do mundo dos videojogos tradicionais – Nintendo, Sony Interactive Entertainment (SIE) e Microsoft – estão a preparar.

E olhando para o que temos atualmente, a Nintendo parece levar alguma vantagem sobre os rivais de sempre.

As críticas

Nos últimos anos, sobretudo desde o lançamento da Nintendo Wii U, a Nintendo tem sido acusada de ter falta de ritmo relativamente aos principais concorrentes. Enquanto a SIE e a Microsoft colocaram no mercado consolas mais poderosas, a Nintendo preferiu com a Wii U seguir o caminho da jogabilidade diferente.

Em vários sites da especialidade encontraram-se ao longo destes três anos de Wii U vários comentários de jogadores que vaticinaram o fim da Nintendo. É verdade que foi um período duro para a empresa japonesa, mas também é verdade que acabou por ser ultrapassado sem perdas colossais.

A Wii U vai entrar para a história como uma das consolas de videojogos menos bem-sucedidas no número de vendas – pois na qualidade dos jogos e na satisfação dos clientes, a conversa já seria outra.

A Wii U vendeu até à data 13,36 milhões de unidades e 92,35 milhões de jogos

A consola doméstica da Nintendo além de ter menos poder de processamento e menor capacidade gráfica, também acabou por apresentar algumas funcionalidades que precisavam de estar mais evoluídas. Um dos calcanhares de Aquiles foi a experiência de jogabilidade online – neste aspeto a PlayStation 4 e a Xbox One levam anos de vantagem sobre a Wii U.

Já do lado da Nintendo 3DS as críticas nunca foram muito acentuadas porque apesar da quebra na venda das consolas, a portátil continuou a vender a um ritmo interessante e foi apresentando um catálogo de jogos diversificado. O facto de a PlayStation Vita da SIE ter sido o flop neste segmento, também ajudou a aliviar a pressão.

Com estas duas consolas – Wii U e 3DS – a Nintendo aprendeu da forma mais dura que a mente dos jogadores casuais tinha passado para os dispositivos móveis. A Nintendo tinha, na prática, duas respostas para esta tendência, mas na verdade nenhuma conseguiu responder eficazmente ao crescimento galopante dos jogos em smartphones e tablets.

Nintendo Wii U

Mesmo apostando num conceito de segundo ecrã móvel, a Wii U não convenceu os jogadores. #Crédito: Freepik / Flaticon

 

Foi no entanto uma experiência necessária para que a Nintendo reconhecesse o potencial do segmento mobile e decidisse apostar nele. O que durante muitos anos parecia um cenário impossível de concretizar, já está em andamento e com resultados francamente positivos.

A Nintendo decidiu abrir-se aos dispositivos móveis, mas não está a ser para já gulosa nesta aposta. A estratégia da empresa passa por criar jogos de qualidade para os smartphones e que introduzam a empresa e as suas personagens icónicas na esperança de converter alguns desses jogadores para os sistemas de jogo mais dedicados.

Veja-se o exemplo de Pokémon GO.

Resultados comprovados

Não foi a Nintendo que desenvolveu o sucesso Pokémon GO. O jogo bateu vários recordes e foi sem dúvida um dos destaques de 2016. A criação ficou a cargo da Niantic, mas o trabalho teve de ser feito em parte com a The Pokémon Company – e sabemos que a Nintendo além de ter uma participação nesta empresa, trabalha de muito perto com ela.

Recentemente chegaram ao mercado os dois novos jogos da série Pokémon, Sun e Moon, e o sucesso foi instantâneo.

Parte desse sucesso é explicado pela própria qualidade do jogo, mas parte do sucesso comercial também está a ser atribuído à onda positiva gerada por Pokémon GO.

Melhor: o sucesso de Pokémon GO teve também uma boa resposta noutros jogos antigos da franquia e nas próprias vendas da Nintendo 3DS. Apenas um mês e meio depois do lançamento do jogo para smartphones, a Nintendo emitiu um comunicado onde dava conta de um crescimento de 80% nas vendas da Nintendo 3DS em comparação com o ano anterior.

Os jogos Pokémon Omega Ruby e Alpha Sapphire cresceram também 80% nas vendas e os jogos Pokémon X e Y cresceram 200%. Foi a própria ‘Big N’ quem reconheceu haver uma correlação entre o sucesso de Pokémon GO e o desempenho dos jogos nas consolas portáteis.

Ou seja, mesmo não tendo sido o ‘génio’ por trás do sucesso Pokémon GO, a Nintendo capitalizou diretamente com a aplicação.

Foram vendidas mais de 6 milhões de cópias dos jogos Pokémon Sun e Moon nas primeiras semanas de vendas

Por isso é que o lançamento de Super Mario Run é importante. A Nintendo procura atingir o mesmo efeito, isto é, fazer com que o jogo para dispositivos móveis venha a ter um impacto direto no relacionamento dos jogadores mobile com a marca Nintendo. O melhor talvez seja não esperar por resultados semelhantes a Pokémon GO sobretudo no curto prazo, mas talvez alguns destes novos fãs venham a estar entre os primeiros comprados da Nintendo Switch.

E os outros?

A Nintendo neste momento só tem disponível o jogo Miitomo e Super Mario Run chega esta semana. É pouco, tendo em conta que já houve empresas que enriqueceram e quase faliram à custa dos jogos mobile – sim Rovio, estamos a olhar nessa direção. Como vimos, Pokémon GO conta e não conta, mas mesmo não contando, é quase impossível dissociar o nome do jogo ao nome da Nintendo.

O pouco que a Nintendo já tem nos dispositivos móveis quase que chega para bater as apostas que as suas principais rivais têm feito.

Do lado da Microsoft a aposta é, no mínimo, tímida. Além dos problemas que a empresa tem no seu próprio ecossistema, o Windows 10 Mobile, a Microsoft investe muito mais no segmento da produtividade no Android e no iOS. Ainda assim é possível encontrar Kinectimals, Quiz to Win, Snap Attack ou mais recentemente, Microsoft Solitaire Collection.

A Microsoft tem um caso sério de sucesso nas mãos, mas para isso teve de investir mais de dois mil milhões de dólares. O jogo Minecraft Pocket Edition conta mais vários milhões de downloads no iOS e no Android, mas foi lançado bem antes de a Microsoft ter comprado a Mojang.

Minecraft Pocket Edition

Em certa medida, Minecraft pode ser visto como o Pokémon da Microsoft. #Crédito: Mojang

No geral a aposta da Microsoft em jogos no ambiente mobile é muito discreta e não há muito a explorar nesse sentido. Ou seja, há muito trabalho a fazer por parte da tecnológica norte-americana – ainda que o seu foco esteja claramente no cross-play entre Xbox e PC.

Já do lado da Sony Interactive Entertainmet houve já um número considerável de apostas, mas todas elas com baixo impacto. Sing Star, PS Vita: Pets, Invizimals, Uncharted: Fortune Hunter e Run Sackboy! são jogos que já estão disponíveis em ambiente mobile, mas que nunca conseguiram gerar grande atratividade, nem grandes críticas.

A própria SIE tem consciência deste cenário e por isso é que recentemente decidiu criar um estúdio que vai estar focado no desenvolvimento de jogos para smartphones e tablets. O segredo do mundo mobile está na palavra nativo – não basta fazer uma adaptação, é preciso construir de origem tendo em conta o ambiente mobile.

Isto é o que a Sony pretende fazer a partir de 2017. A empresa vem com força:

– Disgaea
– Arc The Lad
– PaRappa the Rapper
– Mingol
– No Heroes Allowed! DASH!
– Wild Arms
– Boku no Natsuyasumi
– Doko Demo Issho
– Yomawari
– Sora to Umi no Aida
– Hot Shots Golf

Estes são os nomes que estão confirmados que vão chegar aos smartphones Android e iOS no médio prazo. Olhando para esta lista não é visível uma aposta em figuras icónicas e exclusivas da SIE como Nathan Drake, Kratos ou Ratchet & Clank.

A verdade é que a Sony também não parece estar neste momento interessada em seguir exatamente a mesma estratégia da Nintendo. Por exemplo, ao passo que os jogos da Nintendo estão a ser lançados globalmente, a Sony pretende primeiro lançar os seus jogos mobile nos mercados asiáticos.




Este recomeço da Sony no mundo mobile depois de várias apostas com pouco sucesso – incluindo o smartphone Xperia Play – é um reconhecimento de que a Nintendo está à frente. A própria SIE admitiu que o sucesso alcançado por Pokémon GO fez a empresa considerar os smartphones e tablets de forma totalmente diferente.

Ter um estúdio dedicado é parte da resposta a este problema, mas não será suficiente. Será preciso criar os jogos mobile quase da mesma forma que se criam os jogos para as consolas. A Nintendo colocou esta dedicação em Super Mario Run – até o criador da personagem Mario, Shigeru Myamoto, esteve no desenvolvimento do jogo – e fruto de boas jogadas de marketing, o jogo já tem uma lista de ‘espera’ de 20 milhões de pessoas.

Conclusão? Apesar de tudo, incluindo o facto de ter negado os smartphones durante um longo período de tempo, a Nintendo parece ter conseguido adiantar-se ainda assim à sua concorrência mais direta.