É muito fácil olhar para o TAG Heuer Connected Modular 45 e perdermo-nos no preço do relógio: 1.650 euros no mercado português. É claramente o elemento que coloca este smartwatch à parte de quase todos os outros. Mas o valor do relógio não é suficiente para ensombrar um posicionamento muito próprio que a icónica marca suíça tem tentado ocupar no segmento dos relógios. Quer gostem, quer não, a TAG está a assegurar o seu futuro.

Sobretudo quando surgiu o Apple Watch, houve muitos artigos que questionaram de que forma as marcas mais tradicionais e de um segmento de gama média-alta, gama alta e gama premium iriam responder à proposta da marca da maçã. Basta recordar que o Apple Watch Edition apresentou-se com preços que ascendiam aos 18 mil euros, pelo que não era, definitivamente, um gadget para todas as bolsas.


A Apple nunca detalhou quais as versões mais bem-sucedidas do Watch, mas a verdade é que em apenas um ano a tecnológica de Cupertino conseguiu ser a segunda empresa que mais faturou com a venda de relógios a nível mundial. Durante a apresentação do Apple Watch Series 2 o diretor executivo da empresa, Tim Cook, disse que só a Rolex faturou mais com a venda de relógios.

Este simples facto mostrou às empresas do sector que afinal havia de facto vontade por parte dos utilizadores em terem um relógio mais tecnológico, um relógio que se aproximasse mais do smartphone enquanto peça de hardware.

Vários fabricantes suíços juntaram-se entre si – caso da Mondaine, da Alpina e da Frederique Constant -, enquanto outros optaram por juntar-se a quem percebe de tecnologia. A TAG Heuer inclui-se neste segundo grupo e o seu trabalho no segmento dos relógios inteligentes tem sido apoiado de perto pela Intel e pela Google.

A Strategy Analytics estima que tenham sido vendidos 21 milhões de smartwatches em 2016

A primeira materialização desta parceria surgiu em 2015 quando a marca revelou o TAG Heuer Connected, o seu primeiro relógio inteligente e na altura a verdadeira resposta do Android Wear ao posicionamento premium que o Apple Watch também ocupava. O preço a rondar os 1.300 euros do TAG Heuer Connected fez muitos desconfiarem do hipotético sucesso comercial desta aposta da marca suíça.

Depois de 56 mil unidades vendidas, a TAG Heuer está de volta com um segundo relógio inteligente. O TAG Heuer Connected Modular 45 mantém a fasquia de preço bem elevada e isso já faz parte da estratégia da empresa. Não só protege um legado de prestígio, como começar a criar o seu próprio espaço neste mundo novo dos relógios inteligentes.

Se o preço é elevado, a fabricante suíça também fez algumas apostas que ajudam a perceber a etiqueta de preço elevada. Em primeiro lugar o Modular 45 tenta amenizar a diferença que existe entre os relógios analógicos e os relógios digitais. Como? Através de uma abordagem modular.

O smartwatch foi construído por forma a poder ser facilmente desmontado nos seus principais componentes. Além de garantir ao utilizador uma maior personalização e fácil troca de componentes – existem mais de 500 combinações possíveis entre diferentes versões do relógio e diferentes braceletes -, combate a obsolescência.

No dia em que o utilizador achar que o seu smartwatch já não é o mais moderno do mercado ou quiser um mostrador analógico porque adapta-se melhor a algum evento, basta desmontar o equipamento e substituir o corpo central. Sim, terá de comprar o mostrador analógico à parte, desembolsando mais 3.700 euros, mas é uma flexibilidade que nem a Apple, a Samsung ou a Huawei garantem neste momento. E para quem está habituado a gastar bom dinheiro com relógios, esta opção de escolha pode ser bastante apreciada.

Na sua versão digital o Connected Modular 45 apresenta-se com um design clássico, com uma construção em titânio e com um vidro em safira que ajuda a proteger o ecrã AMOLED sensível ao toque.

Uma vez mais a TAG Heuer contou com um ‘empurrãozinho’ da Intel e da Google. No caso da fabricante de chips, a Intel ajudou a colocar um processador, que até aqui só era visto em smartphones, no novo relógio da TAG. O chip Intel Atom Z34XX pode parecer demasiado para um relógio, mas vai fazer com que o utilizador tenha uma máquina de elevado desempenho durante um maior período de tempo. Quando a ‘hora’ deste processador chegar, então entra a modularidade uma vez mais em ação.

O poder de processamento adicional também será importante para lidar com as transformações que integram o Android Wear 2.0 – sobretudo na área da inteligência artificial, com o Google Assistant a assumir um papel de relevo neste ecossistema. A Intel confirmou ao The Verge estar a desenvolver um assistente digital próprio e que não entrará em conflito com o da Google.

Mesmo equipando um processador mais potente, a TAG Heuer diz que a autonomia do Connected Modular 45 deverá rondar as 30 horas, o que deverá ser suficiente para garantir um dia inteiro sob utilização intensiva.

O novo TAG Heuer vem equipado com NFC, GPS, Wi-Fi, mas não tem suporte para redes 4G

O TAG Heuer Connected Modular é caro? Sim, sobretudo para um país com os rendimentos médios de Portugal. Mas à imagem de outros relógios da marca, este também não é um relógio para todos os consumidores. A TAG consegue assim manter o seu perfil premium no que diz respeito ao mercado dos relógios, ao mesmo tempo que começa a assumir-se como o ‘Apple Watch’ do ecossistema Android.


O simples facto de existir um smartwatch de gama alta e de uma marca icónica, com renome no mercado, poderá ser suficiente para desviar alguns potenciais clientes da Apple – a empresa que se tornou a maior rival dos fabricantes suíços e dos fabricantes de relógios analógicos no geral.

De acordo com a Reuters, a TAG investiu dez milhões de dólares no desenvolvimento do seu primeiro smartwatch e diz que recuperou o investimento. A confiança da empresa está em alta numa altura em que solidifica a sua estratégia de empresa híbrida – não descura o peso do analógico, mas também não vira a cara ao apelo evidente que existe pelos relógios inteligentes.