“Uma versão puramente peer-to-peer de dinheiro eletrónico permitiria que os pagamentos online fossem enviados diretamente de uma parte para outra sem passar por uma instituição financeira”. É assim que começa o white paper assinado por Satoshi Nakamoto, no qual é explicado como funciona a tecnologia do Bitcoin e a criptomoeda associada.

Naquele white paper existem muitas ideias inovadoras como a criação de um registo quase inviolável de transações, manutenção de uma rede por meio de um consenso garantido por poder computacional ou a promessa de grandes níveis de privacidade na troca de dinheiro.

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Todas estas ideias em conjunto ajudaram o Bitcoin a popularizar-se e a tornar-se na criptomoeda mais valiosa. No entanto foi aquela primeira ideia que destacámos, a de não ser necessária uma entidade externa para garantir a confiança num sistema de pagamentos, uma das que mais atraiu os primeiros utilizadores do Bitcoin. Colocando noutras palavras, a promessa de um sistema descentralizado ajudou o Bitcoin a ser aquilo que é.

Para muitos o Bitcoin é uma das maiores armas alguma vez criadas contra os poderes instituídos – como o sistema financeiro tradicional – e é por isso que muitas vezes é dito que o blockchain, enquanto tecnologia, e o Bitcoin, enquanto conceito de moeda digital criptográfica, podem mudar o mundo tal como o conhecemos.

Sem dúvida que o tema da descentralização tem sido uma das grandes bandeiras ideológicas do Bitcoin e de outras criptomoedas que surgiram posteriormente. Mas cada vez mais parece que o conceito de descentralização pode ser apenas teórico e quando é analisado, na prática, a descentralização do Bitcoin tem muita superficialidade.

Os dados da (des)centralização

Podemos começar com o exemplo da concentração da riqueza associada ao Bitcoin: segundo uma análise feita pelo banco Credit Suisse, 97% dos bitcoins são detidos por 4% de todos os endereços, o que significa uma alta concentração de riqueza nas mãos de uma pequena percentagem.

Segundo uma nota partilhada pelo banco, e citada pelo Business Insider, a concentração da riqueza num pequeno número de endereços, sejam eles individuais ou relativos a exchanges, significa que este pequeno número de atores pode ter uma influência gigante na forma como a divisa digital se comporta em termos de valor de mercado.

O Credit Suisse também diz que “proporções significativas de Bitcoin e de outras criptomoedas estão aparentemente a ser geridas como ativos preciosos, restringindo severamente o fluxo e a disponibilidade das moedas digitais”. Entenda-se, o Bitcoin está a comportar-se cada vez menos como uma moeda e mais como uma garantia de valor.

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Haters gonna hate e vão dizer que uma análise de um banco nunca pintaria a situação da criptomoeda como positiva. No final de contas, o Bitcoin pode muito bem ser a maior de todas as ameaças para a banca tradicional.

Mas e se a ideia de que o Bitcoin é pouco descentralizado for suportada por outras análises? Recentemente surgiram notícias de um estudo independente feito pelos investigadores Adem Efe Gencer, Soumya Basu, Ittay Eyal, Robbert van Renesse e Emin Gün Sirer. Durante dois anos desenvolveram um estudo focado nas redes Bitcoin e Ethereum, para perceberem justamente se são tão descentralizadas quanto se apregoa.

O estudo chegou a várias conclusões: por exemplo, que a rede de Bitcoin neste momento não está a utilizar toda a largura de banda que está associada aos nós da plataforma. Entre 2016 e 2017 a largura de banda dos nós da rede de blockchain do Bitcoin aumentou 1,7x, segundo os investigadores, o que significa que o tamanho dos blocos podia ter aumentado em proporção semelhante sem afetar os níveis de descentralização da plataforma.

Aumentar o tamanho dos blocos – registo da informação das transações – sem aumentar a capacidade da rede significaria custos acrescidos, o que por sua vez diminuiria a descentralização do Bitcoin por torná-lo menos acessível a um determinado conjunto de pessoas. Em rigor já é isto que acontece um pouco – a taxa associada a cada transação de Bitcoin ronda os dez dólares, o que torna a criptomoeda pouco apetecível para transações de baixo valor.

O estudo liderado por Emin Gün Sirer, especialista em criptomoedas e professor na Universidade de Cornell, nos EUA, revela ainda que o poder de mineração do Bitcoin e do Ethereum está muito centralizado: no caso do Bitcoin os quatro maiores conglumerados de mineração representam 53% da hash rate, enquanto no Ethereum os três maiores mineradores também concentram mais de 61% da hash rate.

“A rede inteira de blockchain para ambos os sistemas é determinada por menos de 20 entidades mineradoras”, escrevem os responsáveis pelo estudo na publicação Hacking Distributed.

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Foi ainda feita uma análise à distribuição da rede de nós de cada tecnologia e neste campo o Ethereum aparece mais ‘descentralizado’ do que o Bitcoin: existem mais nós associados à rede Ethereum e estão mais distribuídos em termos geográficos quando comparados com os nós da rede do Bitcoin. Os nós são computadores que asseguram a estrutura base de cada uma das redes.

Além disso, 28% dos nós do Ethereum foram identificados como estando associados a centros de dados, enquanto no Bitcoin esse número é de 56%. “Nós que residem em centros de dados podem indicar um elevado nível de corporativização”, escrevem os autores do estudo.

Outras teorias centralizadas

À medida que os meses vão passando, cada vez mais ‘cérebros’ estão focados na tecnologia de blockchain e nos seus ativos associados. E à medida que os meses vão passando, vão surgindo mais análises em retroespectiva. No início deste ano foi publicado um outro estudo que diz, em linhas gerais, que a subida que o Bitcoin registou em 2013 de 150 para mil dólares pode ter sido desencadeada por uma única pessoa, um sinal de que a hipotética exploração do lado mais centralizado da tecnologia não é de agora.

Devido ao maior número de utilizadores que o Bitcoin garantiu desde 2013, conseguir repetir aquele nível de manipulação parece mais difícil de concretizar – mas depois lembramo-nos dos números já aqui revelados e que mostram níveis de centralização que podem ser preocupantes.

Existem mais linhas de análise que apontam no sentido da centralização do Bitcoin. Egor Homakov, um especialista em segurança informática, escreveu um artigo na plataforma Medium no final de 2017 que relembrava o grande poder que a China representa em termos de mineração – acredita-se que mais de 50% do poder de mineração esteja naquele país asiático.

O Bitcoin continua a ser descentralizado no sentido em que não há um repositório central que controle a informação do blockchain – a base de dados está distribuída -, é descentralizado no sentido em que permite de facto transferência de dinheiro entre duas entidades sem a necessidade de um banco e é descentralizado no sentido em que não tem um controlo central definido por um conjunto de executivos, como acontece numa empresa por exemplo.

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Ainda assim o ecossistema do Bitcoin está fortemente dependente do poder de nações específicas, de grupos de mineração específicos e de exchanges específicos – e existe sempre a possibilidade de ser criado um enquadramento legal para o Bitcoin e outras criptomoedas que coloque regras nas pessoas que têm gerido a rede de forma descentralizada.

O que ainda vale ao Bitcoin nesta fase, como salientou o especialista Erik Voorhees em 2015, é a diferença entre os conceitos de centralização coerciva e centralização baseada no mercado – o Bitcoin encaixa no segundo conceito e em teoria nunca poderá encaixar no primeiro, pelo que uma centralização ‘à moda antiga’ está fora de questão. Uma centralização coerciva é aquela na qual o utilizador vê-se obrigado a responder a um conjunto de regras determinadas por uma entidade e não tem alternativas viáveis para concretizar a sua ação.

Por outro lado parece igualmente inegável que a descentralização, um dos maiores argumentos do Bitcoin, está a perder força e nesta altura também pode ser usado como um dos maiores contra-argumentos de oposição à tecnologia e à criptomoeda.

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