Estima-se que em Portugal existam cerca de 90 mil cuidadores informais, pessoas que de forma voluntária tomam conta de outras pessoas que podem estar incapacitadas ou precisam de atenção especial. E não implica que sejam obrigatoriamente familiares.

O número foi partilhado pelo coordenador da Reforma do Serviço Nacional de Saúde na Área dos Cuidados Continuados Integrados, Manuel Costa, numa entrevista à RTP em fevereiro. Este valor foi um dos pontos de partida para o trabalho desenvolvido por António Miguel, Pedro Pimentel e Elisabete Serra na competição Hack For Good.

Os três elementos decidiram criar uma plataforma online que permite aproximar e dar mais apoio aos cuidadores informais que existem em Portugal. A plataforma Web Cuidar-e foi o projeto vencedor da hackathon promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian.

 

“Portugal tem a maior taxa europeia de cuidadores informais por pessoas dependentes e não existem ferramentas para lhes facilitar a vida. Então a nossa proposta de valor é exatamente essa. Facilitar a vida dos cuidadores informais e promover um lugar de encontro entre esses cuidadores que estão muitas vezes isolados”, explicou António Miguel em entrevista ao FUTURE BEHIND.

“A plataforma assenta em quatro grandes funcionalidades. Uma primeira funcionalidade é um sistema de gestão de tarefas diárias, calendarização de consultas, guias terapêuticos com medicamentos para as situações do dia a dia. Isso tem uma parte mais astuta em que os dados que alimentam a plataforma geram dados de comparação entre idosos em variáveis como a demografia”, explicou António Miguel.



Outras características incluem uma ferramenta de partilha de ideias entre cuidadores, uma calculadora de apoios de Segurança Social a que os idosos têm direito e ainda um robô de inteligência artificial que vai esclarecer dúvidas sobre o estatuto oficial do cuidador informal que o Governo português está a preparar.

Os três elementos que na competição Hack for Good atuaram sobre o nome My Flying Grandma revelaram durante a apresentação final do projeto que o objetivo inicial passa pelo licenciamento da plataforma a baixo custo, mas que o grande objetivo é que a mesma possa vir a ser usada de forma integrada pela Segurança Social.

Elisabete Serra explicou um pouco como foi feito o desenvolvimento do projeto. “Nós já somos sensíveis ao tema. Menos talvez à parte do hacking, mais à parte do good. Mas concentrá-mo-nos, pensámos um bocadinho antes de virmos e foi esse mesmo o momento. Pensámos quais podiam ser as nossas ideias e nestas 28 horas estivemos a desenvolver tudo”.

Agora a evolução da Cuidar-e passa pela maturação do projeto e pela angariação de mais apoios que permitam lançar o conceito para o mercado. “Vamos tentar aproveitar o mesmo foco que nos moveu aqui e tentar transportar isso daqui para a frente para tentar arranjar contactos, para tentar viabilizar financeiramente o projeto. Vai ser um processo que ainda está muito no início, mas que gostávamos de concretizar”, disse Pedro Pimentel na mesma entrevista.

Por ter sido o vencedor da Hack for Good o projeto Cuidar-e recebeu um prémio monetário de cinco mil euros, garantiu presença numa competição na Suíça organizada pela AAL, uma associação que usa as novas tecnologias para promover um envelhecimento da população com mais qualidade, e ganhou ainda uma licença IBM Bluemix-Watson no valor de dez mil euros.

Os vencedores da hackathon valorizaram no final a importância da iniciativa e consideram que a temática devia ser mais explorada em eventos semelhantes. “No nosso caso aquilo que nos motiva é se aplicamos a tecnologia a elementos super-comerciais, então vamos tentar ser também disruptivos para basicamente resolver problemas da sociedade e deixar de haver tantos idosos isolados e tantos idosos a receber apoio de cuidadores que não têm formação”, concluiu António Miguel.



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