Aquela que era apelidada como uma das startups mais secretas do mundo, executando um trabalho tão misterioso que mais parecia pertencer ao domínio da ficção, perdeu definitivamente este título. Pela primeira vez foi revelada uma imagem do hardware que a Magic Leap está a desenvolver e com o qual está a trabalhar. E não é bonito.

Pense nos Microsoft HoloLens, uns óculos de realidade aumentada de aspeto futurista e completamente independentes. Se precisar de ajuda para visualizar o equipamento pode sempre ver este nosso artigo. Já está? Os Magic Leap são totalmente o contrário.



Magic Leap QEP0

O que vemos na imagem é o PEQ0. Explica o Business Insider que a designação PEQ é o nome que a Magic Leap dá às suas unidades de desenvolvimento. A fotografia revelada mostra uma pessoa com uns óculos e um vasto arsenal tecnológico às costas – literalmente.

O aspeto rudimentar que a unidade de desenvolvimento apresenta está a gerar alguma apreensão e desconfiança relativamente ao trabalho que a Magic Leap tem estado a desenvolver. Os trabalhos da tecnológica já duram há mais de dois anos e nesse período de tempo angariou mais de mil milhões de dólares em financiamento com a promessa de que teria uma tecnologia revolucionária.

A Magic Leap não comentou diretamente a imagem revelada pelo Business Insider, mas o diretor executivo da empresa, Rony Abovitz, usou o seu perfil no Twitter para deixar algumas mensagens.

“Olá a todos – a foto pela qual todos estão tão entusiasmados NÃO é aquilo que pensam”, escreveu numa mensagem. “A foto mostra um equipamento de R&D da Magic Leap com o qual recolhemos dados sobre a sala/espaço para o nosso trabalho de aprendizagem em machine vision/machine learning”, acrescentou logo a seguir.

“Fazemos isto para perceber iluminação, texturas e várias superfícies. A realidade misturada vive no mundo real”, finalizou.

Esta não é a primeira vez que Rony Abovitz usa o seu espaço pessoal para defender o trabalho da empresa. Em dezembro a publicação The Information publicou uma reportagem sobre a Magic Leap que era tudo menos positiva. O trabalho de investigação dizia que os trabalhos da Magic Leap estavam muito atrasados no desenvolvimento e que a tecnologia que a empresa tinha à data era inferior àquela que já é possível experimentar nos Microsoft HoloLens.

O The Information escreveu que a Magic Leap estava a ter dificuldades em miniaturizar a sua tecnologia de realidade misturada – algo que a fotografia revelada agora parece confirmar. Outras demonstrações tecnológicas com maior detalhe que a Magic Leap já fez terão recorrido a uma ligação por fios a um computador de grande potência.

Depois desta reportagem menos abonatória, Rony Abovitz descarregou um vasto conjunto de mensagens no Twitter – como compilou o Business Insider. De todas as mensagens, destacamos duas:

“Para alguns bloguers de tecnologia mal-humorados: também vocês vão poder brincar com a coisa real quando for expedida”, numa alusão à versão final do produto da Magic Leap que chegará ao mercado. Numa outra mensagem o fundador da startup apenas escreveu “Acreditem”.

Estas duas situações mostram que Rony Abovitz está disposto a defender a sua ‘dama’ publicamente, mesmo quando a sua empresa não faz qualquer comentário oficial às notícias. Por outro lado, também parecem mostrar que as reportagens em questão estão a causar alguma pressão junto da empresa.

O cenário mudou drasticamente ao longo do último ano. Em abril do ano passado a Wired publicou uma reportagem onde tecia rasgados elogios à tecnologia que a Magic Leap estava a desenvolver.

“É de dobrar a mente”. “Parece real como os candeeiros e os monitores de computador à sua volta”. “É um objeto virtual, mas não há rasto de píxeis ou artefactos digitais na sua plenitude tridimensional”. “Óculos mágicos”, foram algumas das frases que se destacaram no artigo.

Mas esse parece ter sido o pico da Magic Leap. Desde então a maior parte das reportagens sobre a empresa lançaram sempre alguma desconfiança no trabalho que estava a ser feito. Desconfianças estas que em determinadas situações mostraram-se totalmente válidas.

Uma das demonstrações que a Magic Leap publicou era falsa – a empresa que produziu a demonstração admitiu que era totalmente feita em computador e não representava a experiência de utilização que era possível ter com o equipamento.

Este vídeo em questão terá sido usado inclusive para o recrutamento de novos funcionários. Atualmente estima-se que mais de 800 pessoas trabalhem para a Magic Leap, entre desenvolvimento de hardware, software e experiências de realidade aumentada.

O facto de a empresa tentar manter um secretismo de alta tecnologia quando todas as fugas de informação apontam em sentido contrário não está a ajudar a criar uma imagem positiva sobre o trabalho da empresa.

Na reportagem do The Information podia ler-se que o grande elemento diferenciador que a Magic Leap prometeu aos seus investidores viu o seu desenvolvimento perder prioridade. Esta tecnologia alegadamente inovadora tinha o formato de uma lente convencional, mas permitia uma interpretação diferente dos sinais digitais, criando uma maior sensação de realismo.

“Basicamente tentamos clonar e fizemos uma versão do sinal que comunica com a unidade de processamento gráfico do cérebro”, explicou Rony Abovitz em abril do ano passado à Wired.

Este projeto agora está a ser gerido a longo termo, enquanto o que estará a ser preparado a médio prazo assemelha-se mais aos óculos HoloLens. O Business Insider diz que a Magic Leap deverá disponibilizar kits de desenvolvimento ainda este ano e que os preços não deverão ser superiores a dois mil dólares – mil dólares abaixo dos HoloLens.

A publicação diz também que a Magic vai ter já esta semana uma reunião com alguns investidores onde irá mostrar um protótipo funcional do seu hardware. Este evento está a ser visto como um marco para a tecnológica pois pode ser o momento em que afasta as críticas e consegue mais investimento ou acentua a desconfiança e afasta os investidores. Neste evento o protótipo que será mostrado não é o da fotografia, mas um no qual os componentes tecnológicos estão integrados num cinto.

O que aqui está em causa não é o facto de a Magic Leap ter ou não uma tecnologia revolucionária, conseguir ou não cumprir aquilo que foi prometido. O que neste momento transparece para a opinião pública é que a Magic Leap está muito atrás daquilo que tem prometido e que lidar com a pressão é algo com o qual a empresa e o seu CEO não se dão bem.

Além da pressão mediática, existe também a pressão de ter nomes de peso entre os investidores – que incluem a Google e a Alibaba – , existe a pressão de ter atingido uma grande valorização sem ter mostrado publicamente um gadget ‘palpável’ e existe pressão por parte da concorrência que tem mostrado cada vez mais interesse na realidade aumentada – crédito para o Tim Cook nesta área.

Tic, tac Magic Leap. Tic tac.