Depois do artigo de fundo da revista Wired sobre a Magic Leap, a startup voltou a ser o centro das atenções do mundo tecnológico. E mais uma vez pelo facto de continuarmos sem saber concretamente o que faz esta empresa e quando vai chegar o seu produto ao mercado. Já agora, que produto é?

Por incrível que pareça a Magic Leap faz parte do clube dos unicórnios, mas é como se usasse o manto da transparência do Harry Potter. Está à frente de todos e ainda assim continua a ser difícil saber em que posição está o seu trabalho.

Até agora nem os programadores tiveram acesso a esta tecnologia. Continua cerrada a sete chaves e só por convite é possível entrar no covil da startup norte-americana.

Pesquisámos e tentamos explicar da forma mais simples o que é e o que faz a Magic Leap. Alegadamente.

Será magia?

“É de dobrar a mente”. “Parece real como os candeeiros e os monitores de computador à sua volta”. “É um objeto virtual, mas não há rasto de píxeis ou artefactos digitais na sua plenitude tridimensional”. “Óculos mágicos”.

Estas são apenas algumas das expressões usadas pelo repórter da Wired nos três primeiros parágrafos do texto que preparou sobre a empresa Magic Leap. Sabe o que isto quer dizer? Que possivelmente experimentou algo tecnologicamente espantoso.

Sabe-se que a Magic Leap está a trabalhar numa nova tecnologia de realidade aumentada (AR na sigla em inglês), isto é, uma que permite adicionar uma camada de elementos digitais ao mundo físico. Agora sabe-se que está a trabalhar num produto que pode ser semelhante a uns óculos. Mas serão como os pouco discretos Microsoft Hololens ou será algo mais subtil e que pode de facto mudar a indústria da AR?

A questão é que a Magic Leap está a colocar-se num campeonato à parte ao dizer que está a desenvolver uma tecnologia de realidade misturada (MR na sigla em inglês). Apesar de o dizer isso não significa que esteja sozinha, a Meta e Microsoft também estão no mesmo segmento.

O grande segredo da empresa está na tecnologia usada para desenvolver uma nova tipologia de lentes que confere detalhe e realismo aos elementos gráficos como nenhuma outra empresa o fez – diz quem já experimentou. Este é o mais recente exemplo partilhado pela tecnológica que garante não haver qualquer retoque digital nestas filmagens.

A Magic Leap não gosta que lhe chamem lentes, mas para que todos possam perceber do que se trata ficaremos por este conceito. Aliás, a única imagem que há do sistema parece-se mesmo com uma lente.

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O CEO da Magic Leap, Rony Abovitz, a segurar o chip fotónico que contem o segredo da empresa. #Crédito: Wired / PETER YANG





Imagine um par de óculos normais, mas com umas lentes especiais. E o que têm de especial estas lentes? Têm um sistema que permite que os olhos foquem os elementos virtuais como se fossem elementos físicos e reais. Em vez de lentes o nome ‘oficial’ dado à estrutura é de chip fotónico.

Um chip fotónico? Mas o que é isso, perguntamos nós e o The Verge. Aliás, o The Verge tem muitas questões sobre o que está realmente a desenvolver a Magic Leap.

Parte da resposta é dada pelo próprio diretor executivo da Magic Leap, Rony Abovitz. Diz que as lentes têm uma estrutura tridimensional, um pouco como as wafers, que permite a passagem de fotões por forma a criar um sinal digital da profundidade da luz.

O CEO vai mais longe e diz mesmo que criaram “um sinal digital da luz que replica a parte visual do mundo e a forma como comunica com o cérebro”. “Basicamente tentamos clonar e fizemos uma versão do sinal que comunica com a unidade de processamento gráfico do cérebro”, acrescentou na entrevista à Wired.

A forma como os elementos digitais são transmitidos para as lentes também é diferente, garante a Magic Leap, mas sobre isto nada mais diz. Boa, mais promessas…

O que quer dizer isto ao certo? É o que todos estão a perguntar. Mas talvez por ninguém saber bem é que a Magic Leap está tão bem valorizada, tem algo único.

Mesmo sem ter nada palpável para mostrar ao mundo a tecnológica norte-americana já conseguiu angariar 1,4 mil milhões de dólares em investimento de empresas como a Google e a Alibaba. O diretor-executivo da Google, Sundar Pichai, faz mesmo parte do conselho de administração da startup. E senta-se ao lado de outros grandes nomes como Peter Jackson, o realizador da famigerada trilogia Senhor dos Anéis.

Após mais uma ronda mediática ficamos sem saber quando pode um equipamento chegar ao mercado, que equipamento será esse e quando é que os programadores terão acesso à tecnologia. Os developers são uma parte importante da equação pois serão eles a desenvolver conteúdos e ferramentas compatíveis com aquilo que a Magic Leap virá a lançar.

Será um ato de fé?

A expressão inglesa Leap of Faith serve para definir uma ação que tomamos com base num sentimento que não conseguimos explicar. Parece-nos certo, parece-nos correto, acreditamos que é possível. Não temos nada em concreto que baseie esta opinião, a não ser fé. A expressão popularizou-se na série de videojogos Assassin’s Creed, da Ubisoft. O Leap of Faith é um salto dado a partir dos pontos mais altos da cidade e que fazem a personagem cair num monte de palha, evitando uma morte certa. Mas não é um dado adquirido.

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O leap of faith tornou-se numa imagem da marca da franquia Assassin’s Creed. Neste momento é que muitos estão a fazer relativamente à Magic Leap. #Crédito: Ubisoft

É que perante tanto promessa, tantas palavras espetaculares e não haver algo mais disponível como uns Microsoft HoloLens ou uns Oculus Rift, o que a Magic Leap está a pedir é mesmo um leap of faith.

Todos os que gostam de tecnologia estão dispostos a fazê-lo, disso não há dúvida. A grande questão é: até quando? Quanto mais tempo a Magic Leap demorar a trazer o seu produto para o mercado, mais propostas diferenciadoras vão surgir e outras tecnologias começam a melhorar.

O facto de a tecnológica ter dado um olhar exclusivo à Wired sobre o seu produto parece indicar que está pronta para começar a abrir mais as portas – se assim não fosse não ia chamar uma das maiores publicações do mundo e principal referência no segmento tecnológico.

Mas pelas palavras que lemos e pelos relatos ouvidos, a Magic Leap não parece estar ainda totalmente pronta para comprometer-se com um equipamento. Talvez esta abertura foi a forma encontrada para ganhar mais algum tempo e mais ‘fé’ por parte das empresas que já investiram e dos consumidores que estão cada vez mais curiosos.

Independentemente do desfecho desta história pelo menos já ficou a saber, dentro do possível, o que é a Magic Leap e o que aí pode vir. Agora resta esperar pelo tal salto mágico.