Ubuntu Edge, o smartphone-promessa da Canonical que nunca chegou a ver a luz do dia, dificilmente será esquecido por três motivos: pelo valor de 32 milhões de dólares pedidos em crowdfunding; pelo falhanço considerável da campanha, que só angariou 40% do pretendido; e pela promessa que o Ubuntu Edge representava relativamente à convergência entre o smartphone e o desktop.

O conceito não podia ser mais simples: o utilizador ligaria o smartphone diretamente a um monitor e teria acesso a todas as aplicações que costuma ter em ambiente desktop. Ao contrário do Windows Continuum e do Samsung Dex, que têm limitações nos serviços que disponibilizam em modo desktop, o Ubuntu não teria quaisquer limitações dentro do seu ecossistema.




Graças a equipamentos como o HP Elite X3 e o Samsung Galaxy S8, transformar um smartphone numa experiência desktop avançada começa a tornar-se mais comum. Em julho de 2013, quando o Ubuntu Edge foi revelado, era apenas uma visão, mas era uma visão promissora.

Com o anúncio do smartphone a Canonical tentava várias jogadas de uma só vez: entrar no segmento do hardware; entrar na luta dos sistemas operativos móveis; e entrar, antes da concorrência, numa nova era tecnológica, uma era à qual a empresa dava a definição de convergência.

O falhanço do conceito do Ubuntu Edge não foi suficiente para afastar a Canonical do desejo de ter presença nos dispositivos móveis e de perseguir este sonho da convergência. Ainda foram lançados smartphones que traziam de origem o Ubuntu, em parceria com as empresas BQ e Meizu, que provocaram alarido mediático, mas não corresponderam às expectativas.

Hoje, 5 de abril de 2017, o fundador da Canonical e do Ubuntu, Mark Shuttleworth, veio lembrar que a empresa ainda não tinha desistido da distribuição Linux para smartphones. Destaque para o ‘ainda não tinha’, pois hoje foi anunciado que o sonho – ou pesadelo? – da convergência terminou. Todo o trabalho que até aqui foi feito não vai ter continuidade.

A Canonical perseguiu durante anos um objetivo que nunca conseguiu materializar muito bem e que nunca trouxe o seu potencial valor para o mercado – isto se tivermos em conta aquilo que prometia o Ubuntu Edge.

“Assumi que, se a convergência fosse o futuro e pudéssemos entragá-la como um software gratuito, seria amplamente apreciada tanto na comunidade do software gratuito como na indústria tecnológica, onde existe uma frustração substancial com as alternativas atuais, fechadas e disponíveis para os fabricantes. Estava errado dos dois lados”, escreveu Mark Shuttleworth numa publicação no blogue oficial da Canonical.

“Na comunidade, os nossos esforços foram vistos como fragmentadores e não inovadores. E a indústria não se juntou à possibilidade [da convergência], preferindo a abordagem ‘melhor com o diabo que conheces’ nesses formatos, ou investindo em plataformas proprietárias. O que a equipa do Unity8 conseguiu até agora é lindo, funcional e sólido, mas respeito que os mercados, e a comunidade, acabem por decidir quais os produtos que devem crescer e quais devem desaparecer”, concluiu.

A toalha da Canonical relativamente ao mundo dos dispositivos móveis e da convergência foi atirada ao chão, sem grande margem para outras interpretações. Perde-se assim mais uma alternativa ao duopólio Android-iOS e perde-se competitividade no mercado. Perde-se também mais uma empresa que perseguia o sonho do smartphone-computador.

Rei morto, rei posto

Felizmente para a Canonical, o seu futuro e o futuro do Ubuntu não estavam diretamente dependentes da aposta no segmento mobile. Era uma ramificação que a empresa queria explorar, mas nunca foram depositados esforços e dinheiro em escalas que pudessem colocar em causa outras vertentes do sistema operativo open source.

Bem pelo contrário. Tal como Mark Shuttleworth escreveu na mesma publicação, os segmentos de Internet das Coisas (IoT na sigla em inglês) e de computação cloud estão em franco crescimento. Juntamente com a aposta no desktop, estes serão dois pilares nos quais a Canonical espera suportar o futuro do Ubuntu.

“Provavelmente todos sabem que a maior parte das cloud públicas, e muitas das infraestruturas cloud privadas Linux, dependem do Ubuntu. Também devem saber que muito do trabalho IoT feito em carros, robótica, redes e machine learning é em Ubuntu. (…) A escolha, em última instância, é investir nas áreas que estão a contribuir para o crescimento da empresa”, reafirmou Shuttleworth.

Este é portanto o dia que marca uma nova etapa para o Ubuntu – não em termos de estratégia, pois estas decisões são apenas um reflexo da evolução natural que a distribuição Linux tem conhecido, mas por deixar bem claro qual o rumo que a Canonical pretende seguir, afastando de vez o fantasma dos dispositivos móveis.

O Ubuntu, como sistema operativo, também vai voltar um pouco às origens: o interface do ambiente de trabalho voltará a ser GNOME, caindo de vez o ambiente Unity que sempre causou alguma divisão dentro do sistema operativo. A versão Ubuntu 18.04 LTS será a primeira a reintegrar o GNOME.

Sem mais artigos