São dois dos segmentos tecnológicos mais promissores e estão ambos a viver a sua fase de renascimento. No dia em que a realidade aumentada e a realidade virtual cumprirem na íntegra as expectativas enquanto sistemas de realidades digitais alternativas, então a relação dos utilizadores com a tecnologia vai sofrer novamente uma grande transformação.

Por agora estamos na fase inicial desta grande empreitada. Na área da realidade aumentada projetos como os Microsoft HoloLens e como o ARKit da Apple têm ajudado a aproximar mais as pessoas desta tecnologia. Na área da realidade virtual são projetos como os Oculus Rift, os HTC Vive e os PlayStation VR que têm dado às pessoas um primeiro vislumbre daquelas que são experiências totalmente imersivas.

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Se tanto na realidade aumentada (AR) como na realidade virtual (VR) já há bons exemplos, boas demonstrações tecnológicas que indicam que estas serão duas grandes tecnologias no futuro, a realidade dos números mostra que ainda há um longo caminho a percorrer até que estas sejam tecnologias verdadeiramente massificadas.

No caso específico de Portugal, as vendas de equipamentos AR e VR são ainda pouco expressivas. Segundo dados da IDC partilhados com o FUTURE BEHIND, nos primeiros nove meses de 2017 foram vendidos no mercado português 160 equipamentos de realidade aumentada e 27 mil dispositivos de realidade virtual.

Para melhor perceber a dimensão destes números, vamos primeiro detalhar o que significam cada um deles no mercado português e em seguida vamos colocar os números em perspetiva com outros mercados europeus.

Quem vende mais em Portugal?

Ainda que os Microsoft HoloLens sejam de longe os óculos de realidade aumentada comercialmente disponíveis mais badalados, a verdade é que o dispositivo da tecnológica norte-americana não entra nos dados apurados pela IDC. A consultora ainda não tem os números totais para 2017 e só no último trimestre do ano é que os HoloLens começaram a ser vendidos diretamente para Portugal.

As 160 unidades de óculos de realidade aumentada mais vendidos em Portugal são, por esta ordem, os das empresas Epson, Meta, ODG e Vuzix.

“Este é um mercado irrelevante, pois estamos a falar de produtos de teste, não há nenhum projeto que tenha sido implementado, aqui estamos a falar de empresas de software que compram os produtos só para fazer umas experiências e começar a trabalhar com alguns clientes”, comentou o diretor de análise da área das comunicações móveis da IDC EMEA, Francisco Jerónimo, em entrevista por Skype ao FUTURE BEHIND.

Na realidade virtual a situação é um pouco diferente, pois as vendas são superiores, mas o número de vendas não é totalmente puro. Nos primeiros nove meses do ano foram ‘vendidos’ 27 mil dispositivos no mercado português e ‘vendidos’ está entre apóstrofes, pois uma boa parte destes equipamentos foram na realidade oferecidos em campanhas promocionais.

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Os dois equipamentos de realidade virtual mais populares são os óculos que a Alcatel integra de origem com alguns dos seus smartphones, como o Idol 4S, com 15.200 unidades comercializadas, seguidos dos Samsung Gear VR com 6.300 unidades. Também uma parte das unidades dos Gear VR são oferecidas – não é possível determinar quantas -, sobretudo durante o processo de aquisição dos smartphones topo de gama da Samsung, como o Galaxy S8.

Ou seja, apesar de as vendas de realidade virtual serem muito mais significativas do que as vendas de equipamentos de realidade aumentada, a verdade é que uma boa parte destes equipamentos não foram comprados de forma isolada, mas sim incluídos num pacote e portanto provavelmente nem representam o primeiro motivo de compra.

O terceiro lugar nas vendas de óculos de realidade virtual vai para a Sony Interactive Entertainment que vendeu 1.900 unidades dos PlayStation VR. Este número acaba por ser importante, pois dá uma visão do impacto que os óculos de realidade virtual topo de gama mais vendidos no mundo estão a ter no mercado português.

Os concorrentes mais diretos dos PlayStation VR têm vendas inferiores em Portugal, algo que em parte explica-se pela forte tradição que a marca PlayStation já tem no mercado português e também pelo preço mais acessível. Os Oculus Rift amealharam 1.700 unidades vendidas nos primeiros nove meses do ano e os HTC Vive, de todos os mais caros, contabilizaram 430 unidades vendidas.

Portugal muito abaixo de outros mercados europeus

Nos círculos do mundo da tecnologia de consumo em Portugal existe o estereótipo de que o consumidor português é early adopter. É uma referência que já se ouviu vezes e vezes sem conta em apresentações de diferentes marcas ao longo dos últimos anos. Acontece que no caso da realidade aumentada e da realidade virtual, o ser early adopter esbarra no poder de compra.

Sejam equipamentos de AR ou VR – à exceção dos óculos mobile -, o preço médio é de várias centenas de euros. Basta pensar que uns Epson Moverio BT-300 custam 850 euros, uns HTC Vive custam 700 euros e o preço dos PlayStation VR é de 400 euros, sem câmara nem comandos dedicados. Acrescente-se a isto o facto de os óculos de realidade virtual necessitarem de sistemas dedicados – PC topo de gama ou uma consola – e o preço absoluto de investimento que é necessário fazer aumenta ainda mais.

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“Portugal é um país de early adopters quando o preço permite, quando o preço não permite, o early adopter desaparece. Só para termos aqui uma ideia, em termos de realidade aumentada vendeu-se em média, em 2017, cerca de 1.700 unidades por país”, começou por explicar Francisco Jerónimo.

No Reino Unido, nos primeiros nove meses do ano passado, foram comercializados perto de dez mil unidades de óculos de realidade aumentada. Em França e na Alemanha os valores rondam as cinco mil unidades. Em Espanha foram cerca de 1.500 unidades. Há mais países como Portugal, caso da Áustria, onde as vendas foram de apenas 200 unidades, ou da Dinamarca, onde também foram vendidas perto de duas centenas de unidades.

“É um mercado que está polarizado entre os cinco principais mercados, tudo o resto está com quantidades muito abaixo”, acrescentou depois o analista da IDC. “O que faz algum sentido porque muitos dos projetos acabam por ser implementados nas empresas onde os mercados são maiores. Uma multinacional que quer implementar AR, não vai começar pela sua operação em Portugal, vai começar pela operação na França ou na Alemanha onde consegue perceber rapidamente se é vantajoso ou não”.

Já na realidade virtual o cenário é semelhante. A média de venda de equipamentos VR nos países europeus que a IDC analisa – um total de 16 mercados – foi de 72 mil unidades. A título de exemplo, em Espanha foram vendidos 92 mil equipamentos VR e no Reino Unido 247 mil.

Francisco Jerónimo explica esta discrepância com a questão da escala dos mercados. “Quando há uma campanha da Samsung a oferecer o produto [Gear VR], naturalmente noutros países e nos principais mercados vai vender mais do telefone e vai entregar mais dispositivos VR”.

Depois, um pouco à semelhança do que já vimos com as vendas do iPhone X, o poder de compra do mercado português não consegue acompanhar o ritmo do poder de compra de outros mercados europeus, o que acaba por resultar em vendas que são muito abaixo da média.

“A nível de VR tem muito a ver também com o poder de compra”, rematou o porta-voz da IDC.

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