Jogar já não é só jogar. Os estúdios de desenvolvimento estão a alastrar o conceito de experiência de jogo. Um título não encerra em si mesmo – e nem sequer estamos aqui a considerar os DLC. Para perceber o que estamos a dizer basta pensar que 2016 já trouxe e vai trazer ainda mais experiências transmedia.

Isto significa que o jogo não está preso apenas na consola. O jogo vive numa série, numa curta-metragem ou num filme. A questão aqui é que o jogo vive mesmo além do conceito de disco físico ou download de 20GB. Se quiser perceber a trama toda de um determinado título então terá de pousar o comando e ir além do que é jogável.

O melhor exemplo deste conceito transmedia é talvez o jogo Quantum Break, lançado no início de abril para a Xbox One e PC. A construção das personagens tem por base atores conhecidos de séries e filmes da ‘vida real’, mas esta já começa a ser uma norma nos grandes blockbusters.

A diferença está na forma como a história é contada. No final de cada capítulo jogável o jogador assiste a um episódio no formato de série. As personagens de ‘carne e osso’ são as mesmas do jogo, o que contribui para um melhor fio condutor entre os diferentes meios.

Esta mistura de conteúdos digitais e live action vai ainda mais longe pois permite que as decisões dos jogadores possam ter impacto direto na forma como o jogo se desenrola.

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Realidade ou ficção? #Crédito: Remedy Games

Em Quantum Break assumimos a pele de Jack Joyce, um pessoa aparentemente normal, mas que por ter sido exposta a uma experiência consegue agora manipular o tempo. Como nas grandes histórias, Jack tem um inimigo – Paul Serene. Paul também tem poderes especiais relacionados com a manipulação do tempo, mas são diferentes: consegue ver o futuro e tomar decisões que lhe permitem cumprir esse ‘destino’ ou seguir outro rumo e anular por completo o que estava previsto acontecer.

Nos quatro capítulos principais de Quantum Break o jogador acompanha sempre Jack Joyce, mas no final de cada um é colocado na perspetiva de Paul Serene. Aí tem uma visão sobre o que pode acontecer e poderá tomar uma decisão. Mediante esta decisão, o episódio da mini-série que lhe é apresentado será diferente.

A proposta de Quantum Break é tão diferenciadora do ponto de vista da jogabilidade que este poderá muito bem ser o modelo dos grandes videojogos do futuro: mais interativos, mais envolventes, mais realistas e quase sem barreiras a separar o digital e o real.

O exclusivo da Microsoft não é no entanto caso único na narrativa transmedia.

Ainda este fim de semana o FUTURE BEHIND esteve na antestreia do filme Ratchet and Clank. A película vai estrear nas salas de cinema portuguesas no início de maio, mas já amanhã, 20 de abril, o título fica disponível para a PlayStation 4.

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Jogo ou filme? #Crédito: Caprice1996 / Deviantart





Jogo e filme estão ligados pois além de contarem a mesma história, complementam-se. Quem jogar Ratchet and Clank e vir o filme depois vai reparar que há segmentos do jogo, sobretudo as cinemáticas, que são retirados do filme. Quem vir o filme primeiro e jogar depois vai perceber que o título é na realidade uma exploração muito maior da história condensada que está nos cinemas.

Depois cada um há sua maneira tenta exercer uma força sobre o utilizador: se gostou do filme, então porque não comprar o jogo?; se gostou do jogo, porque não ir ver o filme? Um verdadeiro sentimento transmedia.

A moda dos jogos multi-meios está a afirmar-se de tal forma que até a mais ‘tradicional’ Nintendo vai fazer parte desta revolução – ou será afirmação?

Amanhã a gigante japonesa vai transmitir a curta metragem Star Fox Zero: The Battle Begins, relacionada com o próximo título da série Star Fox que chega às consolas na sexta-feira, 22 de abril.

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Terão algo a contar além do jogo? #Crédito: Nintendo

A curta metragem vai dar alguma contextualização sobre o que os jogadores poderão encontrar na nova aventura de Fox Mccloud. E já agora fica a dica: depois da transmissão da curta-metragem haverá ainda a transmissão de um Nintendo Direct relacionado com o jogo. Surpresas de última hora?

Para terminarmos o nosso caso dos videojogos transmedia recuperamos um outro exemplo de uma grande empresa de videojogos, a Square Enix. A 30 de setembro vai estrear a décima quinta entrada principal da saga Final Fantasy. É um dos jogos mais aguardados da última década e será certamente um dos títulos de 2016.

Mas como 50 horas de jogo parecem não chegar para contar toda a trama principal, a Square Enix decidiu acrescentar-lhe mais alguns elementos. Em primeiro lugar está a ser disponibilizada uma série animada no YouTube. O primeiro episódio já pode ser visto e os restantes serão lançados até à chegada do jogo.

Como se não fosse suficiente a empresa vai ainda lançar uma longa-metragem relacionada com o universo de Final Fantasy XV. No filme será possível ficar a conhecer melhor a história do rei Regis, pai da personagem principal do jogo – Noctis. E obviamente a relação que existe entre os dois.

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O que dizem os teus olhos sobre o futuro dos videojogos Noctis? #Crédito: Square Enix

Em todos estes exemplos há um elemento em comum: história e enredo mais enriquecido. Se os jogos já deram um salto de qualidade gráfica muito bom, nos últimos anos tem-se assistido a um amadurecimento das narrativas dos videojogos.

O conceito de jogos transmedia é apenas mais um passo nessa direção.