Esta é a história: o WhatsApp alterou os seus termos de utilização e esta mudança vai fazer com que alguns dados dos utilizadores sejam partilhados com a empresa-mãe, o Facebook. Levantaram-se imediatamente questões de privacidade e também de compromisso pois o WhatsApp já tinha dito mais do que uma vez que não “venderia” os dados dos utilizadores – já lá iremos a este ponto.

A questão é que neste processo todo há um elemento que parece indicar que o WhatsApp sabia justamente as críticas que ia receber. Caso contrário, porquê deixar um período de 30 dias para que os utilizadores optem por evitar parte destes novos termos? Este é o ‘loophole’ que existe nesta nova vida do WhatsApp.


A partilha de dados está ativa por defeito – algo que tem gerado controvérsia pois num mundo ‘cor de rosa’ devia ser justamente o contrário – e ao poder ser desativada, então este parece ser um reconhecimento de que houve uma alteração significativa da qual os utilizadores podem não gostar. Muitos não estão a gostar.

O mesmo aconteceu com o Windows 10. A Microsoft queria que os utilizadores migrassem para a nova geração, mas criou um sistema de retorno ao Windows 7/8/8.1 pois reconheceu justamente que havia uma grande alteração relativamente à experiência de utilização anterior.

No caso do WhatsApp enviar mensagens, fazer chamadas ou partilhar ficheiros multimédia vai continuar a ser feito exatamente como era feito até aqui. As alterações que existem são, basicamente, no contrato que os utilizadores têm estabelecido com a plataforma.

Veja aqui as principais alterações ao termos de utilização do WhatsApp

Um ponto importante a destacar. Uma das funcionalidades mais apreciadas no WhatsApp, a encriptação de mensagens, mantém-se inalterada. Ou seja, mesmo à luz do novo acordo as comunicações que tiver com os seus contactos vão manter-se privadas. Nem o WhatsApp nem o Facebook saberão o que está a ser escrito e falado.

De acordo com o novo contrato o WhatsApp vai partilhar com o Facebook o número de telefone dos utilizadores e alguns metadados, como o modelo de smartphone que estão a usar e a versão do sistema operativo – assim o diz a Wired.

Promessas quebradas

É algo que está enraizado na educação das pessoas: as promessas são para cumprir.

“Nunca o fizemos, não o fazemos e nunca venderemos as vossas informações pessoais a quem quer que seja. Ponto. Final da história”.

A frase foi escrita pelo próprio fundador do WhatsApp, Jan Koum. Isto no distante ano de 2009. Estaria longe de imaginar que passados cinco anos a sua empresa seria comprada pelo Facebook por 18 mil milhões de dólares.

Ontem, o CEO escreveu isto:

“Não vamos publicar ou partilhar o teu número do WhatsApp com outros, incluindo no Facebook, e também não vamos vender, partilhar ou dar o teu número aos anunciantes”.

Existe aqui uma alteração de magnitude: em 2009 Jan Kaum referia-se a todos os dados de utilização. Agora já só fala na proteção dos números de telefone.

Quando se soube do negócio o CEO da plataforma de messaging foi rápido a dizer que o WhatsApp ia manter a sua independência. Afinal de contas o Facebook sempre gerou bastante polémica na forma como alegadamente geria as questões de privacidade dos utilizadores.

Com as mudanças nos termos de utilização existe uma sensação de que o WhatsApp está a quebrar a promessa feita. É verdade que não está a vender os dados dos seus utilizadores, está a partilhá-los com outros serviços da mesma empresa. Mas não terá o WhatsApp vendido os dados dos utilizadores na mesma altura em que foi vendido ao Facebook?

O Facebook vai usar os dados oriundos do WhatsApp para fazer melhores recomendações de amizade e também para endereçar de forma mais precisa os anúncios para os utilizadores. Claramente este não era o objetivo dos utilizadores que se juntaram ao WhatsApp antes do anúncio das alterações – e eram mais de mil milhões em todo o mundo.

Recorde Facebook: o mundo nas suas mãos

Olhando para a questão com alguma distância esta pode ser uma polémica oca – ou seja, os utilizadores podem pura e simplesmente escolher não fazer a partilha do número de smartphone.

Mas desde as denúncias de Edward Snowden que todos andam – e bem! – mais preocupados com as questões de privacidade na internet.

Ao partilhar os dados com o Facebook o WhatsApp fica sujeito aos pedidos que forem feitos ao Facebook, algo que não acontecia até aqui. Por exemplo, se um tribunal pedir dados de um utilizador à rede social, agora pode não só levar as informações relativas ao Facebook, como pode levar também algumas relativas ao WhatsApp.

O Facebook ao ter em si concentrados agora mais dados poderá eventualmente tornar-se num alvo mais apetecível para as autoridades e serviços secretos que pretendem saber algo mais sobre determinadas pessoas.

É aqui que sabemos que esta é uma questão sensível. Mesmo pertencendo tudo ao campo do hipotético, são muitas as questões e os cenários levantados em torno das alterações de utilização do WhatsApp. Se fossem completamente inofensivas isto não aconteceria.

Nesta história não há bons nem maus da fita: tanto o Facebook como o WhatsApp estão à procura da melhor estratégia conjunta para os seus negócios e acreditam estar a fazer o melhor pelos seus utilizadores. Resta saber se haverá vítimas no meio deste processo.

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