Esta pode ser uma má altura para ser dono de um smartphone Windows. Não porque o sistema operativo tenha perdido as suas qualidades de um momento para o outro, mas porque existem vários indicadores que mostram que o sistema operativo não está a viver uma fase positiva. E este cenário nublado pode não alterar nos próximos tempos.

Começando pelos próprios números da Microsoft. No final da semana passada a Microsoft admitiu que não vai conseguir concretizar a sua visão de ter mil milhões de dispositivos Windows 10 até 2018 e isso é responsabilidade do segmento mobile.



“Estamos satisfeitos com o nosso progresso até à data [350 milhões de dispositivos Windows 10], mas devido à redução do nosso negócio de hardware de telemóveis, vai levar mais tempo além do ano fiscal de 2018 para atingir o objetivo de mil milhões de dispositivos ativos mensais”, disse um porta-voz da tecnológica ao ZDNet.

Já hoje acordámos com os resultados do último trimestre fiscal da Microsoft, referente ao período entre abril e junho. Ficamos a saber que o negócio de telefones da Microsoft teve uma queda de 71% nas receitas. Foi mesmo a única divisão específica da Microsoft a trazer-lhe resultados negativos em comparação com igual período de 2015.

A Microsoft não revela quantos smartphones vendeu nesse período nem qual a quebra nessa divisão em termos de receitas. Apenas diz que a sua divisão de hardware teve uma queda de 35% para os 782 milhões de dólares, mas ‘apressa-se’ a dizer que dentro desse segmento o desempenho dos tablets Surface aumentou 9%.



Ainda não há dados das empresas de análise para o segundo trimestre do ano, por isso recorremos aos do primeiro trimestre. Entre janeiro e março a Microsoft vendeu apenas 2,39 milhões de smartphones Windows, muito abaixo dos 51 milhões de iPhones comercializados e dos 293 milhões de Android. O Windows teve nesse trimestre uma quota de mercado de 0,7%, de acordo com a Gartner.

Já de acordo com a base de dados da GSM Arena, uma das mais completas ao nível de smartphones, encontrámos apenas três referências de equipamentos Windows lançados este ano. Desses, apenas um é da Microsoft: o Lumia 650.

Windows para smartphones

Os Lumia 950 e 950 XL continuam a ser os equipamentos de proa para o Windows 10 nos smartphones

Esta redução no número de lançamentos pode ao que tudo indica estar relacionado com um possível ‘Surface Phone’ que muitos acreditam poder trazer à Microsoft um novo pulmão no segmento dos dispositivos móveis.

Mas como veremos, nem só de hardware se faz este mercado.

Onde estão as aplicações do momento?

Se os smartphones Windows estão nesta fase a passar um mau bocado não é pela falta de qualidade do sistema operativo em si, mas acima de tudo pela menor força do ecossistema de aplicações. Está mais do que provado que os consumidores querem estar onde estão as aplicações. E o Windows não garante aos utilizadores os últimos grandes êxitos no segmento das aplicações móveis.

Falemos do inevitável Pokémon GO. É líder de downloads na App Store da Apple e do Android. Teria tudo para ser líder também no Windows, mas não é pois a Niantic, a Nintendo e a The Pokémon Company não disponibilizaram o jogo para esse sistema operativo. Não só não o fizeram como ainda não vieram a público alimentar qualquer esperança nesse sentido.

Há relatos internacionais, da publicação WinBeta, que dizem que a Microsoft está a tentar trazer o Pokémon GO para o Windows. Mais de 50 mil utilizadores do sistema operativo assinaram uma petição nesse sentido. Mas do lado de quem desenvolve, que é o que importa mais, nem uma palavra sobre o tema. Aguardemos.

O Windows para smartphones continua a evoluir. A Microsoft apresentou esta semana a Build 14393 que corrige problemas relacionados com a autonomia e também com suporte para dispositivos Dual-SIM

Outro êxito ‘instantâneo’ que não está disponível para Windows – nem há confirmação de que venha a estar – é a aplicação Prisma. É possível que seja apenas daqueles sucessos passageiros, mas a magia do universo das aplicações móveis é esse mesmo: hoje algo é espetacular, amanhã já vem outra aplicação melhor e por aí fora.

A Prisma está disponível para iOS, a versão beta para Android já está a ser distribuída e os utilizadores do Windows não podem experimentar os filtros ‘oficiais’ da aplicação.

Quem diz o Prisma diz o MSQRD. A aplicação de ‘filtros em direto’ já teve os seus cinco minutos de fama no mercado das aplicações móveis até ter sido comprada pelo Facebook. Utilizadores do iOS e do Android experimentaram, os do Windows não.

Um caso que nos parece ainda mais explícito em como o Windows não é sedutor o suficiente para os criadores de aplicações é o Snapchat. Já não estamos a falar de um sucesso temporário, estamos a falar de uma das maiores startups da atualidade.

Com mais de cem milhões de utilizadores ativos é uma das plataformas sociais preferidas dos jovens e as marcas estão a tentar rentabilizar aí a sua presença. Todos falam no Snapchat, ainda que nem todos possam perceber a sua essência. Mas o Snapchat ainda não chegou ao Windows.

Não só não chegou, como não permitiu um clone seu. A aplicação 6Snap era um cliente alternativo ao Snapchat, mas a empresa liderada por Evan Spiegel exigiu a sua retirada da loja e impediu que pudesse voltar.

Há várias notícias que dão conta das negociações entre a Microsoft e a rede social para que a app chegue também ao seu sistema operativo. Se acontecer será muito bom pois diversidade é sempre bem-vinda.

Os exemplos de aplicações populares que existem no Android e no iOS e que não existem no Windows Phone é muito mais vasta e significativa. E isso é mau para a Microsoft. Vale à tecnológica norte-americana uma comunidade dedicada de programadores que têm arranjado alternativas não oficiais aos principais serviços e jogos, mas a ‘matemática’ geral dos sistemas operativos móveis acabam por ter pouco peso.

Era de esperar que a aposta no conceito de aplicações universais, isto é, a mesma app a funcionar no PC, no tablet ou no smartphone, aliciasse mais os programadores. Até ao momento isso ainda não foi visto em grande escala.

Windows para smartphones

Passar ao lado do crescimento da realidade virtual

O tema da realidade virtual é um ao qual temos prestado especial atenção aqui no FUTURE BEHIND. E até ao momento ainda não ouvimos nada sobre este segmento vindo da Microsoft para o Windows em dispositivos móveis. Já a Google parece estar a apostar muitas fichas no segmento para o Android.

A tecnológica norte-americana parece estar mais inclinada para o mercado da realidade aumentada com os seus HoloLens. É uma aposta válida já que há vários estudos que apontam uma maior rentabilidade da realidade aumentada relativamente à virtual, mas a realidade virtual já é neste momento um mercado que está a atrair muitas atenções.

O Windows 10 Mobile só está disponível há quatro meses

Podemos usar o exemplo da Apple para também dizer que o iOS não está a ser alvo de uma aposta em realidade virtual muito forte. No caso dos donos do iPhone eles não precisam de esperar que a empresa-mãe faça todo o serviço, existem outras empresas a explorar o segmento, como a todo-poderosa Google.

A Google tornou o iPhone compatível com os óculos Carboard e tem trazido as suas principais aplicações de realidade virtual para o iOS. Para o Windows não há nada de muito relevante – a app mais conhecida é o jogo InMind VR – e se não houver uma aposta forte da Microsoft neste sentido, então a situação deverá manter-se.

Seja na realidade virtual ou nos restantes segmentos, o Windows para smartphones é importante. O mercado precisa de diversidade – já o vimos com o Sailfish OS – por isso um Windows num estado debilitado nunca são boas notícias, nem para a Microsoft, nem para os seus utilizadores, nem para o mercado no geral.