Não é fácil, mas aconteceu: a Microsoft conseguiu abrir a sua conferência na E3 2016 com o anúncio de uma nova consola, a Xbox One S, e terminou essa mesma conferência com o anúncio de uma nova consola, o Project Scorpio. Não há qualquer engano naquilo que acaba de ler e se existir, bem, então pertence à tecnológica norte-americana.

Da noite para o dia aquilo que aconteceu foi que a Microsoft passou a ter três consolas de videojogos. A verdade é que só uma delas, a original Xbox One lançada em 2013, está no mercado. Mas na cabeça dos jogadores as contas fazem-se muito além do que existe agora. Eventos como a Electronic Entertainment Expo servem para isso mesmo, preparar o jogador para o que aí vem.

Em agosto chega a Xbox One S. A consola é 40% mais pequena do que o modelo original, tem suporte para conteúdos de vídeo em Ultra HD e vai suportar vídeos e jogos em formato High Dynamic Range [HDR].

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Em termos de especificações a consola terá características semelhantes à Xbox One ‘normal’ – e dizemos ’semelhantes’ pois o diretor do The Coalition Studio, estúdio responsável por Gears of War 4, Ron Fergusson, disse que a Xbox One S tinha processamento melhorado, informação que já foi entretanto esclarecida: o que está lá a mais é para o suporte aos conteúdos em HDR, não para melhorias substanciais, salientou Albert Penello, da equipa Xbox, ao Eurogamer.

Parece um passo óbvio: uma consola mais moderna, com novas capacidades, mas com a mesma arquitetura e compatibilidade que a Xbox One original. Perfeita para seduzir os jogadores que andavam interessados na consola da Microsoft, mas ainda não tinham dado o passo.

Mesmo entre estas duas consolas podia ser difícil a escolha já que a Xbox One original baixou de preço, para os 279 dólares, com a Xbox One S a começar nos 300 dólares. A diferença não é grande, mas já pode mexer com a cabeça de alguns consumidores.

A grande questão aqui é que existe uma terceira consola. Ou melhor, ainda não é uma consola, é um projeto e um kit de desenvolvimento que os estúdios já têm entre mãos. Chama-se Project Scorpio e será o futuro sistema de jogo da Microsoft.

Se ter três consolas de marcas diferentes – Sony, Microsoft e Nintendo – podia já ser difícil de escolher, agora só no portfólio da Microsoft há três sistemas de jogo para considerar.

Claro que pode optar já por uma Xbox One S e assunto arrumado. Mas fique a saber que no final de 2017 essa mesma Xbox One S estará tecnicamente ultrapassada. É a gigante norte-americana quem o diz referindo-se à futura consola como “um monstro”.

O Project Scorpio foi descrito pelo responsável máximo da divisão Xbox, Phil Spencer, como a consola de videojogos mais potente alguma vez feita até ao seu lançamento. Sabe-se que terá processador de oito núcleos, 320 GB/s de largura de banda de memória, um poder de computação gráfica de 6 teraflops, vai suportar jogos em resolução 4K e também experiências de realidade virtual topo de gama.

Além disto pouco mais há, a não ser um vídeo com caras conhecidas de alguns estúdios onde dizem o quão entusiasmados estão com o projeto.

Se os estúdios estão entusiasmados então os jogadores também deveriam ficar. Estúdios contentes com as ferramentas certas produzem melhores jogos e melhores jogos irão certamente agradar aos jogadores. Do ponto de vista do gaming não há qualquer problema com o Project Scorpio: aliás, parece muito promissor.

O que todos estão a falar é a questão da estratégia. Ao ter anunciado uma consola que vai fazer sombra a todas as outras em termos de especificações a Microsoft está a arriscar-se a estagnar as vendas da atual Xbox One e de condenar já à partida a Xbox One S.

O próprio líder da Sony Interactive Entertainment, Andrew House, já disse ao The Guardian estar surpreendido por a Microsoft ter avançado com o anúncio de uma nova geração de consolas tão cedo.

Se o preço da futura consola fosse conhecido, então seria mais fácil decidir. Sabe-se que será mais cara que os 400 dólares pedidos pela Xbox One S com disco de 2TB. Mas também não pode ser excessivamente cara: a Microsoft começou por pedir 499 dólares pela Xbox One atual e deu-se mal nas vendas, vendendo apenas metade da concorrente PlayStation 4.

Para os que defendem que as especificações técnicas não são decisivas na venda das consolas, o atual estado do mercado parece desmentir isso: mesmo com jogos de grande qualidade a Nintendo Wii U simplesmente não teve fôlego para acompanhar a concorrência. Os estúdios nunca se mostram muito satisfeitos por terem de otimizar jogos para diferentes plataformas se os desafios técnicos forem grandes. A Wii U foi então deixada de lado.

Apesar de haver a promessa de que os jogos lançados no futuro serão jogáveis em todas as Xbox One, com melhorias de performance e renderização no Project Scorpio, isso vai criar duas velocidades de desenvolvimento. Desenvolver para o Project Scorpio nunca será o mesmo que desenvolver para a Xbox One S.

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Única imagem de um jogo em desenvolvimento para o Project Scorpio

Phil Spencer disse à Wired que esta questão não é um problema pois os estúdios estão habituados a desenvolver tendo em conta diferentes níveis de hardware – acontece para quem desenvolve no PC, é certo. Mas também já surtiu resultados negativos, como o último jogo do Batman.

E como se sabe promessas é algo que facilmente não é cumprido no segmento dos videojogos. O Ars Technica por exemplo, questiona se a Microsoft será mesmo capaz de entregar resolução nativa 4K nos videojogos.

O diretor da Xbox Games, Aaron Greenberg, veio a público dizer que esta era a altura ideal para anunciar o Project Scorpio pois isso permitirá que os estúdios comecem já a trabalhar com o conceito em mente. Haverá certamente muitas arestas por limar, muitas parcerias por fazer e muitas questões técnicas por resolver.

Mas a mais difícil de todas as resoluções para a Microsoft pode ser também a mais básica: como convencer os jogadores a comprarem uma Xbox One que dentro de um ano terá quase seis vezes menos capacidade de computação que o Project Scorpio? Isto não são smartphones, são consolas. Se sistemas de jogo de meia geração já eram difíceis de assimilar, um salto geracional em tão curto espaço de tempo pode ser um choque para o ecossistema.

Se positivo ou negativo, só o tempo o dirá.



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