São várias as tecnologias que nos últimos anos têm amadurecido e que prometem revolucionar diferentes aspetos da nossa vida quando estiverem totalmente desenvolvidas. Isso é válido para a realidade virtual, para a realidade aumentada, para a Internet das Coisas, para os sistemas de condução autónoma e para a inteligência artificial.

Uma tecnologia que nem sempre surge nestas listas, mas que definitivamente tem tanta ou mais capacidade de revolução é o blockchain. Muitos comparam as diferentes tecnologias de blockchain à própria internet, isto é, uma tecnologia a partir do qual será possível criar e utilizar vários serviços que tiram proveito das características únicas deste sistema.

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Transparência, imutabilidade, segurança, robustez, descentralização, eficácia, integridade e rapidez são algumas das características associadas às tecnologias de blockchain – resolvendo por isso justamente alguns dos problemas que estão associados aos modelos atuais de utilização online.

Mas para perceber os efeitos práticos que o blockchain pode ter na forma como utilizamos os serviços online, ajuda perceber em primeiro lugar em que consiste esta tecnologia.

O que é o Blockchain e porque todos falam dele?

Ainda que o termo possa não ser neste momento tão popular quanto o da inteligência artificial, por exemplo, tem havido um interesse crescente pelas tecnologias de blockchain. Isso está intimamente relacionado a outro fenómeno tecnológico, o das criptomoedas.

Divisas digitais como o Bitcoin, Ethereum ou Litecoin têm conhecido um forte crescimento devido ao aumento do seu valor – o Bitcoin, por exemplo, já valeu 3.000 dólares. Atualmente o valor de mercado para as cem principais criptomoedas é de 88 mil milhões de dólares, um valor que ajuda a perceber por que razão tantas pessoas querem saber o que é o Bitcoin e como funciona.

Acontece que o Bitcoin acaba por ser o primeiro grande exemplo de utilização da tecnologia de blockchain para a criação de um novo produto – neste caso uma divisa digital que dispensa regulação de entidades bancárias e governamentais.

O Bitcoin surgiu pela primeira vez em 2008 como resultado de um white paper publicado sob o pseudónimo Satoshi Nakamoto. A ideia de ter uma moeda descentralizada é por si só revolucionária, mas com o passar dos anos as pessoas ligadas à tecnologia começaram a perceber que o verdadeiro segredo do Bitcoin estava na tecnologia de blockchain.

Bitcoin Blockchain

O Bitcoin é neste momento o exemplo mais conhecido da utilização de uma tecnologia de blockchain. #Crédito: MichaelWuensch / Pixabay

Na prática o blockchain é uma base de dados que está constantemente em atualização e que é gerida por milhares ou milhões de utilizadores em simultâneo. Em vez de a base de dados estar concentrada apenas nas mãos de uma entidade e dos seus administradores, esta base de dados está repartida por um grande número de máquinas.

Uma rede de blockchain como a do Bitcoin é considerada como uma rede pública, ou seja, onde é possível a qualquer utilizador de internet verificar os registos que vão sendo feitos nessa base de dados. É como se o leitor, o João e a Maria tivessem em sua posse o mesmo documento, sincronizado entre os seus computadores e que é atualizado sempre que existe uma nova transação digital – e que não precisa obrigatoriamente de ser relacionada com dinheiro. Qualquer propriedade digital pode ser transferida e verificada a partir de uma tecnologia de blockchain.

Cada transação feita cria um novo registo na base de dados descentralizada, com a particularidade de cada novo registo estar ligado aos registos anteriores. Isto permite evitar utilizações abusivas, isto é, utilizadores maliciosos tentarem eliminar determinados registos desta linha cronológica de registos. Como estão todos ligados entre si, é fácil de ver quando há uma tentativa de fraude.

Sempre que é feita uma transação digital por meio de um serviço desenvolvido através de uma tecnologia de blockchain, esse registo é criptografado e agregado a outras transações. Este grupo de transações forma um bloco que é enviado para toda a rede. O bloco é depois verificado através de algoritmos. O processo de verificação requer bastante poder de computação e por isso sempre que alguém verifica uma transação é recompensado com um token. O token é a recompensa digital associada aos blockchains, ainda que existam tecnologias de blockchains sem tokens.

Por exemplo, o Bitcoin é o token do blockchain do Bitcoin. É assim que são gerados bitcoins: os utilizadores são recompensados pelo seu trabalho de verificação de transações que existem dentro dessa rede.

Estes blocos recebem um carimbo cronológico, carimbo esse que permite o seu registo temporal na base de dados distribuída. É depois o encadeamento cronológico entre os blocos que dá nome à tecnologia – blockchain.

Vamos dar um exemplo prático para tentar perceber melhor como funciona. Imagine que estão dez pessoas numa mercearia. Sempre que alguém compra um produto, essa transação é registada no livro do merceeiro. Todos têm a oportunidade de ver se o valor pago pelo produto corresponde ao seu valor tabelado. O facto de serem outros utilizadores a verificar a autenticidade das transações permite dispensar o merceeiro, o tal intermediário.

Como o livro do merceeiro está disponível para a consulta de todos naquele instante e está em constante atualização, as tentativas de fraude são nulas. Mesmo que um dos utilizadores tente ‘viciar’ o sistema, existem outros nove naquela mercearia para repôr a verdade dos factos.

Os especialistas em blockchain não estão muito preocupados com o facto de os utilizadores perceberem ou não como funciona a tecnologia – isso é apenas uma formalidade. Milhões conduzem automóveis todos os dias e não sabem como funcionam realmente em termos de mecânica e tecnologia. Milhões utilizam a internet todos os dias e também não sabem os fundamentos tecnológicos que o permitem. Com o blockchain vai acontecer – ou já está a acontecer – exatamente o mesmo.

Não há euforia sem desgostos

“As criptomoedas provaram que o blockchain realmente funciona”. Este é um dos motivos que na opinião do líder europeu de blockchain da IBM, Louis de Bruin, ajuda a justificar tamanho interesse por uma tecnologia que já existe há quase dez anos.

Outro motivo está relacionado com o aparecimento de tecnologias de blockchain que permitem definir contratos inteligentes, ou seja, permitem desenvolver uma grande variedade de serviços e aplicações em torno da rede de blockchain. São exemplos disto o Ethereum – daí a sua fama repentina – e a Hyperledger, uma tecnologia de blockchain que conta com o apoio de várias tecnológicas, incluindo a IBM.

“[O blockchain] É aquilo que nós chamamos de moonshot. É muito importante para a IBM, mas ainda está em desenvolvimento. O mercado vê a IBM como um líder, é muito importante pois temos algumas centenas de pessoas, quase mil, agora na área de blockchain. Temos centenas de projetos com os nossos clientes. É muito importante, mas ainda está na sua fase inicial. Se continuar assim, vai ser muito importante”, disse Louis de Bruin em entrevista ao FUTURE BEHIND.

O representante da IBM deu um exemplo concreto: no início de 2016 tinha três programadores a trabalhar consigo em blockchain nos Países Baixos, atualmente tem 30. “Tenho de dizer aos clientes que é necessário esperar dois ou três meses antes de começarmos um novo projeto”, disse, relativamente ao grande interesse que tem surgido para este sistema.

Apesar de todas as potencialidades e vantagens que o blockchain apresenta em teoria, aproveitámos a entrevista com Louis de Bruin para esclarecer algumas questões de curto e médio prazo relacionadas com a tecnologia.

Louis de Bruin IBM Blockchain

Louis de Bruin passou por Portugal durante o IBM Watson Summit para falar de blockchain. #Crédito: Future Behind

Uma está relacionada com as áreas nas quais vamos ver um maior impacto do blockchain nos próximos anos. O representante da IBM diz que o sector financeiro, as áreas dos transportes e da logística, assim como o sector da saúde, são aqueles que neste momento estão a explorar o blockchain como uma forma de dar uma melhor resposta às exigências dos seus utilizadores.

Esta ideia não foi referida por Louis de Bruin, mas a longo prazo acredita-se que o blockchain permitirá transformar todas as atividades de negócio em que existem intermediários, neste caso para os eliminar. Será como no exemplo do merceeiro – os clientes vão poder continuar a fazer compras e já não vão precisar do merceeiro como um intermediário para manter tudo na ordem.

Mas como acontece em algumas grandes tendências, por vezes a euforia cria uma bolha maior do que o real valor atual da tecnologia. Haverá por isso alturas em que a bolha vai sofrer impactos.

“Claro que também tens o hype agora. Como é sexy, tens muitas pessoas a criarem projetos em blockchain porque também querem criar algo relacionado com o blockchain. Vamos definitivamente ter contra-argumentos de pessoas a dizerem ‘porquê usar o blockchain para isto?”, salientou Louis de Bruin.

“Toda a gente pensa que a internet começou há 25 anos com a World Wide Web, mas a internet já existia 25 anos antes disso. Demorou bastante tempo até chegar lá. O blockchain vai evoluir de forma mais rápida pois já vimos o que a internet nos pode trazer, vai haver uma adoção mais rápida, mas não será da noite para o dia, vão existir altos e baixos como em todos os desenvolvimentos”, acrescentou logo de seguida.

Utilizações para o blockchain

No caso do blockchain do Bitcoin, a tecnologia foi concebida tendo apenas em mente um objetivo: criar uma divisa digital descentralizada. Mas isso não significa que todos os blockchains tenham que ter um propósito ‘financeiro’.

Por exemplo, a Hyperledger é uma tecnologia de blockchain que nem sequer tem tokens associados. Isto permite eliminar da equação possíveis tentativas de manipulação da rede tendo em vista a manipulação do valor dos tokens. Na prática a Hyperledger permite extrair todas as vantagens de um blockchain ‘tradicional’, incluindo a criação de contratos inteligentes, sem haver dinheiro em jogo.

Uma pequena nota para explicar o que são os contratos inteligentes: são mecanismos de verificação automáticos que são desenvolvidos em cima do conceito de blockchain. O sistema basilar funciona da mesma forma, mas a rede consegue funcionar de forma automática na execução de algumas tarefas.

Por exemplo, só é dada a permissão de expedição de um produto assim que for confirmado pela rede que esse produto foi pago. A ordem de expedição é depois feita automaticamente pelo smart contract, sem necessitar de uma ação humana. Isto porque a verificação feita pela rede de utilizadores funciona como o elo de confiança de que tudo está bem e que a expedição pode ser feita sem perigos.

Com ou sem contratos, há um grande número de utilizações para as tecnologias de blockchain. É possível criar validadores de identidade online, algo que aumentará o nível de confiança em serviços onde ter confiança na pessoa é essencial – como no caso do Airbnb. A Microsoft e a Accenture estão inclusive a desenvolver um sistema que vai criar mil milhões de identidades digitais através de tecnologia blockchain.

Cartões de pagamento inteligentes, pagamento de impostos, votações online, criação de redes sociais, registos de propriedades, licenciamento de propriedade intelectual, empréstimos, crowdfunding, registo de veículos, emissão de licenças para empresas, registos criminais, permissões de porte de arma, caça ou pesca, transparência governamental, testamentos, chaves de casa, cupões, licenças de videojogos e até cartões SIM de telemóveis.

Estes são alguns de muitos outros exemplos – a Ledra Capital enumerou quase 90 – de tarefas que poderão ser melhoradas com a implementação de tecnologias de blockchain.

Havendo mais do que uma rede de blockchain e dezenas de possíveis aplicações, isto pode vir a criar alguma confusão? A resposta é não, pois à semelhança do que já acontece atualmente na internet, existem diferentes tecnologias que permitem criar serviços online bastante diversos. Os programadores depois escolhem aquela que está melhor direcionada para o seu objetivo.

“A competição entre tecnologias de blockchain é pelo melhor, portanto não, acho que não vão usar apenas o Hyperledger, acredito que vão usar outros [blockchain] e isso vai manter-nos em bicos de pés para continuarmos a melhorar o Hyperledger”, salientou Lous de Bruin durante a entrevista com o FUTURE BEHIND, a propósito da possibilidade de utilização de uma ou de vários blockchains por parte das entidades bancárias.

Uma ideia parece certa: o blockchain veio para ficar, mas ainda serão necessários alguns anos para que o seu verdadeiro impacto comece a ter uma maior influência na forma como utilizamos os serviços online. Se a internet ajudou a ‘encolher’ o mundo, transformando-o numa aldeia global, as tecnologias de blockchain vão acentuar ainda mais esta nova realidade – haverá cada vez menos intermediários, o que nos vai colocar em contacto ainda mais direto com outras pessoas, estejam elas onde estiverem.

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