Ter uma impressora 3D em casa é como ter uma mini-fábrica de objetos: pode imprimir virtualmente tudo, dentro dos limites de impressão que cada máquina tem. Não há como negar a espetacularidade desta técnica de fabrico e o impacto que está ter inclusive em diferentes segmentos de negócio.

Nos últimos anos temos assistido acima de tudo a uma democratização desta tecnologia. Veja-se o exemplo da impressora 3D portuguesa Blocks Zero: é um convite de entrada de gama para quem quer experimentar a impressão 3D, mas não quer fazer um investimento demasiado grande.




Mas à medida que o segmento vai ficando mais amigo dos consumidores, na facilidade de utilização e também no nível de preço das impressoras 3D, vai igualmente evoluindo noutros eixos: em funcionalidades e em novas técnicas.

Há no entanto uma área que apesar do passar dos anos continua sem ganhar proeminência. É ela a impressão multicor, isto é, imprimir uma única peça com diferentes cores.

Isso já é possível’, dirão os leitores com maior conhecimento na matéria. É verdade. Mas não é igualmente verdade que é um processo com consequências no ponto de vista da utilização? Se só tiver uma cabeça de extrusão, é necessário parar a impressão, trocar o filamento e reiniciar a impressão; se tiver uma dupla cabeça de extrusão, isso tem um impacto negativo sobretudo na calibração da impressão e também no tempo em que determinado objeto leva a ficar concluído.

Quando falamos em impressão 3D multicor é como falarmos de um método de impressão que faz lembrar o das impressoras de papel que existem lá por casa: o utilizador só precisa de mandar imprimir e ir buscar o resultado final. Já imaginou se tivesse de colocar e tirar inteiros sempre que quisesse uma imagem a cores?

João Reis é mestre em engenharia mecânica pela Universidade de Aveiro (UA) e o seu projeto de investigação consistiu justamente no desenvolvimento de uma impressora 3D multicor por Deposição de Material Fundido (DMF). Este projeto tinha como objetivo chegar a uma impressora 3D multicor que além de mais amigável nos processos de utilização, seria também mais ‘amigável’ na carteira do consumidor.

“Era um projeto aliciante, era um projeto com uma dimensão generosa, com um objetivo de realmente construir um protótipo e testar a tecnologia. E foi aí que nós – quando digo nós é eu, o professor [António Completo] e a Universidade – escolhemos o tema e fomos trabalhando. Chegou ao fim e tivemos resultados interessantes”, conta João Reis em entrevista ao FUTURE BEHIND.

João Reis António Completo Impressão 3D multicor

João Reis, à esquerda, segura o protótipo da cabeça de extrusão multicor. António Completo, à direita, diante de um dos modelos impressos com o sistema de testes. #Crédito: Universidade de Aveiro

Na sua tese de mestrado João Reis desenvolveu todo o raciocínio necessário para a criação de uma impressora 3D desktop multicor. Já do lado prático foi construído um protótipo funcional do sistema que pode em teoria ser integrado, à escala, numa impressora de secretária.

O sistema desenvolvido por João tem os mesmos princípios básicos das impressoras tradicionais. Partindo de um número limitado de cores primárias é possível produzir um vasto conjunto de cores, cores essas que podem ser aplicadas às impressões 3D por questões estéticas ou simplesmente para conferir um maior realismo.

Outra parte interessante deste projeto é que apenas necessita de uma cabeça extrusora para conseguir a impressão multicor, o que permite a impressão de diferentes cores de forma contínua e sem intervenção do utilizador, sem prejudicar igualmente o tempo de impressão.

“Nós no interior temos um segredo que faz com que os filamentos circulem e se misturem um com o outro. No final, na pontinha – é óbvio que este processo tem de ser otimizado, tem de ser trabalhado -, mas consegue já sair uma mistura razoavelmente boa. É lá dentro que os filamentos se encontram, circulam numa câmara e que faz com que se misturem”, explicou.

No vídeo abaixo podemos ver em funcionamento o protótipo desenvolvido na UA.

Quando João Reis começou a sua investigação ainda não havia qualquer impressora 3D de secretária por DMF no mercado que tivesse um sistema de impressão multicor. Mas já se sabe que no mundo da tecnologia a evolução é rápida e ‘da noite para o dia’ surgem novos produtos, com novas propostas de valor.

Foi isso que fez a botObjects. A empresa britânica apresentou o seu conceito, mas a verdade é que durante algum tempo acabou por sofrer de desconfiança: a empresa tardava em dar provas ‘vivas’ da tecnologia que dizia ter em sua posse. Apesar do clima de incerteza, a empresa acabaria por ser comprada pela 3D Systems, uma empresa já com nome no mercado da impressão 3D.

Em janeiro de 2015 a 3D Systems revelou ao mundo a CubePro C, a primeira impressora da empresa já com o sistema de impressão multicor adquirido à botObjects. Mas a história também não terminou por aí: além do preço elevado da CubePro C – 4.000 libras, perto de 4.700 euros -, a impressora acabou por não ter impacto no mercado.

Olhando para o catálogo atual da 3D Systems, não há qualquer referência à CubePro C. A impressora desktop topo de gama da empresa é a Cube Pro, custa perto de 3.500 euros e só permite imprimir com três cores diferentes que precisam de ser selecionadas previamente.

O projeto desenvolvido por João Reis permitiria construir uma impressora 3D desktop multicor abaixo dos três mil euros, o que para o segmento de Deposição de Material Fundido seria um avanço.

“Conseguir ter uma impressora desktop que fosse possível com a tecnologia DMF porque é mais económica e ter o mesmo resultado provavelmente do que uma impressora muito mais cara a nível profissional”, defende o investigador no que diz respeito ao resultado do aspeto e das cores da impressão.

Apesar de continuar a haver oportunidade de mercado, a verdade é que a investigação da Universidade de Aveiro não evoluiu depois da conclusão do mestrado por parte de João Reis. Ainda assim o projeto ainda mexe na sua cabeça.

“Adorava voltar a mexer e a aperfeiçoar. Tenho algumas ideias para melhorar o que lá está, aquela questão de melhorar a qualidade da mistura, tenho algumas ideias e gostava de testá-las e de melhorar o produto em si. Agora é óbvio que não poderei ser eu sozinho a fazer isto. Tinha de ter algum tipo de apoio”.

João Reis está a trabalhar na Beeverycreative, a empresa que desenvolveu a primeira impressora 3D portuguesa, a Beethefirst – já galardoada a nível nacional e internacional. O engenheiro não comentou a estratégia da empresa, mas na sua opinião parte do futuro do mercado da impressão 3D passará pelo desenvolvimento de novas funcionalidades. Melhorar a qualidade geral das impressões por camada e o interesse crescente em novos materiais, como o metal, são duas tendências apontadas por João Reis. E claro, a impressão multicor.

“O protótipo está desenvolvido, a ideia está lá e se alguém precisar, se alguém poder continuar o trabalho é ótimo. Queremos é que seja possível fazer isto”.

A busca por uma impressora 3D desktop de fácil utilização e com um preço competitivo continua.

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