The Last of Us Parte I 1 PlayStation 5 PC

Psicologia dos Jogos #3 – The Last of Us: as personagens e os seus comportamentos

Antes de mais, porque acho que é importante esclarecer, embora a minha formação em psicologia possa permitir-me uma análise diferente dos comportamentos e motivos das personagens, a verdade é que estas personagens são fictícias e criadas através das vivências e ideologias de várias pessoas. Além disso, não estou, nem quero estar, a diagnosticar ou avaliar personagens pois, mais uma vez, não são reais. Contudo, nada me impede de dar os meus “2 cêntimos” sobre a história que foi apresentada pela equipa da Naughty Dog em The Last of Us e, além disso, como gosto de falar e jogar videojogos, mesmo que tentassem impedir falaria na mesma.

O tema de The Last of Us (TLoU) tem sido explorado e esmiuçado por toda a indústria ao longo dos últimos anos. Entre os que defendem o jogo e os que o odeiam com uma paixão, a verdade é que poucos ficaram indiferentes ao que foi apresentado pela Naughty Dog.

Mais uma vez, isto não é um parecer profissional nem clínico, é apenas a ideia de alguém formado em psicologia que gosta de falar e jogar videojogos. Por isso, apertem os cintos, preparem-se para spoilers e vamos começar a viagem.

Acho que antes de falar de The Last of Us Part II (TLoU II) temos inevitavelmente de falar de TLoU pois muito do que podemos retirar da segunda parte vem do nosso conhecimento e interpretação da primeira.

Então o que temos em TLoU? Como muitos sabem, TLoU começa com um dos momentos mais emocionantes no mundo dos videojogos. Em poucos minutos o jogo consegue prender-nos neste mundo e acima de tudo, consegue criar uma ligação com a personagem principal do jogo, Joel.

Embora não seja explícito no jogo, pois não nos é dada a possibilidade de jogar com Joel nos momentos seguintes à morte da sua filha, é aceitável assumir que Joel tenha entrado em processo de luto que, na verdade, nunca ficou bem resolvido e ajudou a alterar a perceção que este tinha sobre o mundo e os outros. Não podemos também esquecer que entre 2013 e 2033, Joel acabou por perder amigos e outros membros da família, acabando por cimentar ainda mais qualquer o seu percurso e ideias e, acima de tudo, contribuindo para um estado emocional menos estável.

Quando retomamos o jogo, já bastantes anos após a morte de Sarah (filha de Joel) são nos apresentadas algumas pistas do que tem sido a vida de Joel como “traficante” no mercado negro. Sabemos que alguns dos trabalhos que Joel tem aceite quebram algumas barreiras morais, mesmo para outros com a mesma profissão. É  aí que vemos que Joel entrou no que pode ser descrito como uma “espiral autodestrutiva” que, na verdade,  acaba por lhe dar vantagem na sua linha de trabalho. É um pouco o clichê de “o que se vai tirar ao homem que já perdeu tudo.” E a verdade é essa, Joel, na sua interpretação, perdeu tudo. Existe uma tentativa constante de fuga da dor e é aqui que o papel de Ellie é importante, mas vamos falar disso mais tarde.

Inicialmente quando Ellie é apresentada a Joel, ela não passa de mais um trabalho, de mais um carregamento, mas com o desenvolver da história podemos ver Joel a mudar a sua perceção em relação a Ellie e a vê-la quase como uma filha que ele necessita de proteger, um propósito e até uma segunda oportunidade.

A forma como Ellie cresce aos olhos de Joel é incrível e pode ser vista em momentos subtis que são apresentados de forma brilhante ao longo de TLoU. Um desses momentos é quando Joel está a ser atacado e nós temos que fazer tudo que para tentar sobreviver, mas com pouco sucesso. Quando achamos que Joel poderia ser afogado ouvimos um tiro e percebemos que Ellie, a criança que nos tem acompanhado, acabou de tirar a sua primeira vida para nos salvar. No entanto, a reação de Joel não é a esperada. Ele repreende Ellie por não ter ficado onde ele disse e diz ainda que teve sorte por ela não lhe ter acertado. Será que Joel queria chegar ao seu final e este seria um alívio? Será que ao ver a Ellie a tirar uma vida para o salvar ele acredita que a está a corromper? Talvez seja tudo isto, talvez nada.

Joel é também deparado com a realidade de que por vezes ele poderá estar vulnerável. O Joel que até agora manteve o Joel vivo, precisou de ajuda para escapar desta situação. Com este pequeno momento temos um conjuto de “clashes” de realidades que podem estar a acontecer dentro da mente do Joel. No entanto, a resposta de Joel continua a ser uma de distanciamento. O que não está claro é se isso é feito porque acredita que isso protege os outros ou porque se protege a si mesmo.

Momentos mais tarde, quando Joel e Ellie precisam de atravessar uma área controlada por pessoas menos simpáticas, Joel deposita a sua confiança em Ellie e explica como ela pode usar uma espingarda para ajudar. Aqui vemos uma demonstração indireta de aceitação e desenvolvimento de uma personagem. Passamos do “lobo solitário” para alguém que está disposto a receber ajuda. Além disso, transitamos para um Joel protetor não de uma mercadoria, mas de uma jovem. É este sentimento de proteção que guia o resto da narrativa de ambos os TLoU… proteção que pode em parte ser vista como uma tentativa de recuperar o que foi perdido ou de corrigir erros

Umas das frases mais importantes ditas por Ellie é: “Todas as pessoas de quem eu gosto ou morrem ou deixam-me” Esse sentimento de isolamento faz com que ela tenha criado alguns mecanismos de coping desajustados que podem justificar a sua impulsividade assim como as barreiras emocionais criadas para lidar com tudo o que está a acontecer à sua volta. Além disso, esse sentimento não está muito afastado do que vemos o Joel a experienciar desde o início do jogo. O sofrimento acaba por ser mais um ponto comum aos dois e algo que ajuda a cimentar a ligação que existe.

Se pararmos para pensar, Ellie é uma adolescente que viveu toda a sua vida num mundo pós-apocalíptico em que todas as pessoas com quem ela se relacionava morreram ou acabaram por a deixar. Além disso, ela é agora vista como uma mercadoria. Não é um Ser Humano, mas sim algo que precisa de ser levado do ponto A ao ponto B. Mais tarde, Ellie volta a ser vista como um objeto.  Uma cura desprendida de qualquer humanidade e que pode ser a salvação da espécie humana. A falta de conexão com outro humano, a falta de modelos que lhe ensinem a lidar com a frustração, raiva, tristeza e até mesmo alegria. Nada disso existe ao longo do seu desenvolvimento.

The Last of Us Remastered

Mas ok, isso tudo leva-nos ao momento final. Temos que ter em conta que vários momentos não foram mencionados e estamos apenas a tentar simplificar um pouco a história de TLoU para chegar a The Last of Us Parte II. Se querem saber mais recomendo mesmo que joguem o jogo pois é sem dúvida um dos grandes clássicos dos videojogos. Agora com o remake pode ser que mais pessoas consigam experimentar aquele que para mim é um jogo que marca e deixa uma enorme marca na indústria.

Deparado com a possibilidade de salvar o mundo em troca da vida da Ellie, Joel não hesita e mostra-se disponível a eliminar todos os que estiverem no seu caminho. No final, depois de vários corpos deixados para trás, vemos Joel a esconder a verdade de Ellie enquanto caminhamos para um mundo mais feliz… ou não.

TLoU não é o primeiro jogo, nem será o último, a colocar o jogador no papel de salvador que necessita de eliminar dezenas ou centenas de pessoas para atingir o seu objetivo. No entanto, poucos são os que nos mostram as consequências de tais atos. Eliminar pessoas para atingir um objetivo pode fazer sentido quando todos os que se deparam no caminho do “herói” são claramente “vilões”. No entanto, num mundo como TLoU cheio de áreas cinzentas, por vezes, pessoas inocentes, ou indefesas, acabam por ser apanhadas pelo caminho.

Pois… Agora aqui é que a percepção sobre o Joel pode mudar. Para muitos a atitude de Joel não passa de uma atitude impulsionada pelo seu instinto paternal em que tudo é válido para salvar a sua “filha”. Para outros, Joel está apenas a tentar redimir-se de anos de más decisões influenciadas por ódio e raiva e procura desta forma manter o seu contacto com a única pessoa que o fez acreditar um pouco mais (fuga da dor). Outros, referem-se ainda a Joel como o homem que sacrificou a humanidade seja porque motivo for. Isso tudo indica que embora uns consigam ver Joel como o herói, para outros, ele acaba por ser o vilão.  Contudo, existem dezenas, ou centenas, de outras perspectivas e essas seriam as perspectivas de todas as pessoas que perderam algo, ou alguém, durante o “salvamento” da Ellie. Uma dessas pessoas é Abby.

Abby, assim como Joel e Ellie, acaba por passar pelo mesmo processo emocional. Alguém que perdeu tudo graças ao que o mundo se tornou. Alguém que procura no ódio, raiva e vingança a resposta para todos os problemas. No entanto, Abby consegue colocar uma cara no sofrimento que sente, Joel. Durante TLoU II ficamos a saber que o cirurgião que ia operar Ellie e que o Joel mata a durante o salvamento era o pai de Abby. Um médico que procurava encontrar a solução para o que se estava a passar no mundo e que de alguma forma queria acabar com o sofrimento desmedido das pessoas. “Isso é tudo muito bonito, mas ele estava disposto a matar uma criança para o fazer.” Sim, bem-visto. Da mesma forma que para o Joel a Ellie era uma mercadoria, para este homem ela não passava de uma possível cura. A diferença é que um não teve tempo para desenvolver uma relação com ela.

Se fizermos uma pesquisa online sobre trauma podemos ver que muitos indicam que este é o resultado de um evento extremamente stressante que impacta a nossa percepção do mundo e dos outros. Este evento pode ainda criar conflitos emocionais, memórias perturbantes e deixar-nos num constante estado de ansiedade. A American Psychological Association, afirma também que alguns dos sintomas a longo prazo incluem dificuldades relacionais e emoções imprevisíveis. Se formos mais longe, a Harvard Health (2019) refere ainda que pessoas com memórias traumáticas tendem a apresentar comportamentos de risco que podem ser vistos como mecanismos de coping para lidar com a desregulação emocional.

Olhando para estas definições é mais fácil de perceber o que se passa no mundo de TLoU e na vida das nossas 3 personagens. Todas elas, de uma forma ou de outra, estão a lidar com trauma. Embora, em alguns momentos esse trauma pareça estar esquecido, a verdade é que o nosso corpo mantém registo de tudo que se passou. Contudo, TLoU mostra-nos 3 formas distintas, ou em fases diferentes, de lidar com o trauma e todas as emoções que dele originam.

No caso de Joel, temos um homem a tentar reencontrar a sua humanidade após anos de comportamentos destrutivos. Isso é possível através da sua relação com Ellie que lhe traz algum conforto e alguma normalidade. Além disso, cria a ideia de que ele vai poder viver com Ellie, o que não conseguiu viver com Sarah. Isto leva a uma vida confortável em Jackson, onde Joel começa a fazer parte de uma comunidade funcional que parece exaltar ainda mais a ideia de “normalidade”. Esta ideia de normalidade e esta aproximação à Ellie é que, na minha opinião, faz com que quando Joel vê Abby, uma jovem da mesma idade de Ellie, em perigo no meio do nada, sinta que a deve proteger. É aqui que Joel baixa a sua guarda porque ao longo do tempo que ele passou em Jackson conseguiu deixar de parte o constante estado de alerta e começar a depositar a confiança nos que o rodeiam. Isso leva-nos até à personagem Abby, que passou os últimos anos a preparar-se para o dia em que se poderia vingar do Joel.

The Last of Us Part I

Ao contrário de Joel e Ellie, que entram num processo de autodestruição, Abby criou uma rotina quase militar que lhe proporcionou controle e rigor criando uma certa predictabilidade que ajuda a reduzir a ansiedade. Contudo, uma das partes mais interessantes no desenvolvimento de Abby como personagem é a realização que esta tem quando finalmente atinge a sua vingança. Objetivo concretizado, mas a realidade é que nada muda para melhor. Os pesadelos continuam e, acima de tudo, o sentimento de perda mantém-se. O que  vemos na Abby é algo que podemos equacionar a tomar um paracetamol quando temos uma perna partida. Ajuda a diminuir a dor? Sim, ligeiramente. Elimina a dor por completo? Em alguns momentos, talvez. Contudo, não trata a origem do problema e graças a isso o paracetamol torna-se uma necessidade constante para que a vida seja passada com uma dor reduzida.

Já Ellie, que vê Joel a ser assassinado, e tem um registo de situações traumáticas passadas como já tínhamos referido, vê-se agora no papel da pessoa que necessita de encontrar justiça pela morte de Joel. Isto embora, sem conhecimento da motivação da sua atual rival. Além disso, se olharmos novamente para a frase de Ellie em TLoU (“todas as pessoas de quem eu gosto morrem ou deixam-me”) podemos ver que tinha uma continuação: “… menos tu”. Essas duas palavras mostram a ligação de Ellie a Joel e como num mundo aparentemente arruinado ele era a única constante e o único conforto.

Então vamos ver o que temos: Abby perde o seu pai e segue numa busca metódica de vingança que a leva a matar Joel. Ellie, perde a sua figura paternal e segue numa busca de vingança na tentativa de matar Abby. Motivações similares, abordagens diferentes, resultados quase opostos.

Momentos após a chegada a Jackson, Ellie descobre a verdade sobre o que se passou na base dos Fireflies e como Joel a retirou de lá e acabou com a chance de se encontrar a cura. Neste momento ouvimos Ellie a dizer “tiraste-me a chance da minha vida poder ter um sentido”. Algo bastante forte principalmente quando nesta altura Ellie está quase num ambiente ideal dentro de uma comunidade funcional e, mais uma vez, aparentemente “normal”. Mas aqui vemos mais uma vez o peso dos eventos passados. O possível impacto da rejeição e da perda. A forma como Ellie continua a lutar para ter um propósito na vida parecendo quase como se houvesse um vazio.

Acho que é neste ponto que a Ellie e a Abby mais se distinguem. Aqui entra a pergunta: Será que, se Ellie em algum momento soubesse a motivação de Abby, teria feito as coisas de forma diferente? Esta é a grande diferença entre as duas narrativas. Abby também sabe perfeitamente o porquê da Ellie a querer eliminar. Já a Ellie procura vingança porque perdeu a figura paterna nas mãos de alguém que ela não conhece e que não lhe dá um motivo. Não existe mais explicações ou conhecimento nem uma procura de tal, na verdade.

The Last of Us Parte I 1 PlayStation 5 PC

Abby tinha uma relação saudável com o pai dentro de uma comunidade funcional. Ela tinha amizades com outros da sua idade e mesmo quando os Fireflies caíram, ela manteve algumas dessas relações que lhe permitiam algum equilíbrio. O papel do Owen, Mel e Manny são muito importantes porque cada um tem uma percepcao diferente do mundo mas, de certa forma, acabam por se complementar. Quando Isaac está a tentar usar o estado emocional da Abby para a ter como uma arma, o seu grupo de amigos funciona quase como um suporte que lhe mostram o “outro lado”. O impacto que a vingança tem na Mel relembra que existem limites que não devem ser passados e a abordagem passiva de Owen, que questiona o preço a pagar pelo que os WLF estão a fazer, mostra que pode existir algo mais para além do “eles contra nós”.

Já Ellie, nunca experienciou esse ambiente, esse equilíbrio, até recentemente e mesmo assim parte da sua aprendizagem veio do Joel que ainda estava a tentar compreender e combater os seus sentimentos e, na verdade, está também a tentar criar mecanismos de coping adequados. Juntando a isso o temos Tommy que na sua procura da vingança ajuda a alimentar a vontade de Ellie. Isto fornece todos os fatores necessários para a levar nesta “viagem” que em momento algum deixa uma forma de tentar eliminar a sua dor emocional e encontrar algum conforto.

Para percebermos ainda melhor o comportamento destas 3 personagens é também preciso falar da motivação. Durante muito tempo acreditamos que o comportamento humano era motivado pela busca de prazer. No entanto, recentemente, esse pensamento tem sido questionado e o paradigma parece ter mudado. Atualmente, o comportamento humano é visto como sendo motivado pela fuga de sofrimento/dor. Este é o retrato do TLOU2. Ao longo de todo o jogo, os comportamentos que nós vemos não passam de decisões tomadas na fuga do sofrimento. São os melhores comportamentos e decisões? Não, de todo. Mas essas decisões são tomadas tendo em conta tudo que falamos até agora.

Existem dois momentos essenciais perto do final de TLOU2. O primeiro é quando Abby, após perder tudo, é confrontada com a possibilidade de poder matar a pessoa que lhe trouxe todo aquele sofrimento. Alí, naquele momento ela pode fazer com que Ellie sofra mais uma vez matando Dina e, por fim, pode finalizar a sua história com Ellie. No entanto, isso não acontece. Não porque não lhe passou pela cabeça, mas porque é parada por Lev. Mas será que ela pára só mesmo pelo Lev? Provavelmente não. Existe uma aprendizagem inicial que foi feita pela Abby. Quando esta matou o Joel ela reparou que o sofrimento, o desespero, e a dor não pararam. A vingança que tanto procurou não trouxe o fim desejado e, na verdade, só fez com que ela perdesse um pouco da sua identidade e que criasse um fosso entre ela e os que a rodeiam.

Ao longo da história vemos Abby a deixar de ser guiada pela procura de uma fuga ao sofrimento mas sim, por uma valorização das coisas positivas que acontecem ao seu redor (A ligação com Lev, os rumores da existência de uma base dos Fireflies). Existe quase que uma aceitação ou até um entendimento de que o problema não advém da dor emocional, mas sim da necessidade de a controlar. Além disso, naquele momento em que ela pode matar Ellie ela decide, mais uma vez, não o fazer porque Ellie nunca foi o objetivo, embora a Ellie achasse que o era. Ao longo desta procura de vingança matar o Joel só trouxe mais perda. Essa realização, esse entendimento do sofrimento e da sua origem permite que Abby mude o seu foco. Isso significa que o trauma passou? Não, de todo. Mas significa que existe uma melhor compreensão do seu estado emocional e da forma de lidar com ele.

O segundo momento é quando Tommy, depois de Ellie conseguir estabilizar a sua vida com Dina e o seu filho, volta com informação sobre o possível paradeiro de Abby. É aqui que nós vemos a espiral de Ellie. Neste momento ela tem a vida “perfeita” (dentro do possível naquele mundo) e parece absurdo deitar tudo isso fora para continuar esta procura sem sentido. É importante referir que momentos antes vemos que Ellie apresenta sintomas de Stress Pós-Traumático. Normalmente pessoas com Stress Pós-Traumático tendem a reviver os momentos traumáticos das suas vidas através de sonhos ou flashbacks e muitas das vezes apresentam comportamentos de isolamento, irritabilidade e culpa. Juntando isso ao que já falamos sobre trauma e do possível motivador do comportamento humano é possível compreender o porquê de Ellie abdicar do seu confronto em busca da Abby. Naquele momento, por mais irracional que nos pareça, a busca de vingança é uma forma de lidar com a culpa, mas é também a única forma que Ellie vê de pôr um ponto final no que sente.

Ah, mas ela matou os amigos todos da Abby. Isso não chegava? – Dizem vocês muito bem. –  Mas a verdade é que não. Aquelas mortes nunca foram o objetivo. Eram, sim, necessidades para alcançar o alvo principal (ou essa foi a forma como a Ellie as racionalizou para lidar com os seus atos). Essa busca do alvo principal consumiu a Ellie ao ponto de ela pôr de parte o bem-estar dos que a rodeiam. Podemos ver isso quando Tommy está em perigo e Jesse diz para o irem ajudar. Se ela for pode perder a oportunidade de confrontar a Abby e por isso, ela acaba por decidir manter o seu caminho para o desagrado de Jesse.

Mas ela no final deixa Abby viver e até ameaça matar uma criança inocente. –  mais uma ótima observação. – Nesse momento em que Ellie ameaça matar Lev vemos mais uma vez o desespero e os comportamentos irracionais para ela tentar alcançar o que ela acredita ser a única forma de fugir daquele sofrimento. Se aquela não for a solução então qual foi a razão de tudo isto? Contudo, quando ela deixa Abby viver temos uma visão de uma conversa com Joel em que vemos Ellie num momento de dor a perceber que por vezes seguir em frente é a única forma de superar o passado. Esse momento faz com que Ellie reconecte com aquilo que ela achava ter perdido. O deixar Abby viver não é a Ellie a reconhecer que o que fez estava errado, mas sim ela a reconhecer que matar a Abby não é a única solução. Aqui vemos mais uma vez uma personagem a perceber que o problema não é a dor emocional, mas sim a tentativa de a controlar ou evitar.

“Não sendo uma saga perfeita [The Last of Us] acho que é um exemplo incrível de como transferir emoções para os videojogos”

É fácil perceber o que incomoda os jogadores no que diz respeito à história de TLOU2 principalmente quando falamos das decisões da Ellie. Tal como no primeiro jogo, nós somos colocados no lugar de passageiro nesta aventura, mas sentimos que temos um papel ativo na história embora isso não seja real. Nós passamos várias horas a cuidar e proteger a Ellie e isso leva a que alguns jogadores criem uma relação mais pessoal com a personagem. Para muitos, essa relação apela mesmo ao instinto paternal ou maternal e, por isso, é que é tão fácil perceber a decisão do Joel no final do jogo. Essa ligação ajuda também a que criemos expectativas quanto ao desenvolvimento das personagens e ao que nós gostávamos que elas fossem ou fizessem. Recentemente em psicologia tem-se dado um foco ao processo de apego por personagens fictícias, principalmente no mundo dos videojogos. Quando falamos desse apego falamos da proximidade, gosto e conexão com as personagens jogáveis e os NPC. Um dos grandes pontos para que esse apego exista é também o processo de identificação. Aqui, o jogador coloca-se no lugar da personagem e permite que o seu Self (as suas experiências pessoais) sejam transferidas para a personagem apresentada (Bopp, Müller, Aeschbach, Opwis, Mekler, 2019).

No entanto, embora The Last of Us Parte II volte a colocar o jogador no lugar do passageiro, desta vez deixa bem claro que o jogador é alguém completamente passivo que está a ver uma história desenrolar-se sem qualquer controlo. Mas a ligação emocional, o apego, continuam lá despertando uma resposta emocional bastante forte que pode, por vezes, criar atrito com a imagem criada pelo jogador, principalmente porque as decisões tomadas não são as nossas decisões e  distanciam a personagem da nossa identidade.

Quando vemos Ellie a tomar um conjunto de decisões questionáveis, queremos gritar para que ela mude o seu percurso. Quando ela decide não matar Abby muitos preferiam que o tivesse feito pelo menos para ter algo. Mas, na verdade, esta não é a nossa história. É, sim, a história de uma jovem que cresceu num mundo aterrador, que teve de fazer coisas inimagináveis e que a cada dia teve de lidar com várias situações traumáticas e com todas as consequências físicas, emocionais, comportamentais e psicológicas dessas mesmas situações.

Para mim a saga de TLoU não é de todo perfeita. Ao longo deste texto não referi várias partes da história que podem acrescentar à construção, ou não, deste mundo. Decidi antes focar-me no que eu achei serem os pontos fulcrais. Mas mesmo não sendo uma saga perfeita acho que é um exemplo incrível de como transferir emoções para os videojogos e, além disso, de como criar uma resposta emocional nas pessoas que jogam. O facto de haver tanta discussão sobre os jogos e o que eles significam, mostra que cada pessoa teve uma ligação diferente com personagens diferentes. Mostra como nós reagimos a diferentes motivações e como acabamos por transferir as nossas crenças e ideologias para as personagens que estão no nosso ecrã.

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