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As peripécias de gravar um filme IMAX no espaço

Viu o trailer do filme A Beautiful Planet? Se ainda não o fez, fica convidado a fazê-lo. Só assim estará pronto para a segunda etapa deste artigo: imaginar-se sentado numa sala IMAX perante um ecrã curvo com 26 metros de largura e 20 metros de altura. Se as imagens do planeta Terra visto do espaço são por si só impressionantes, pense qual será a experiência de ver um filme com imagens super nítidas, gigantes e com contrastes muito mais realistas.

Nos EUA o filme A Beautiful Planet está disponível em três salas de cinema. A experiência de 45 minutos teve Toni Myers [Space Station 3D, Hubble3D] como realizadora e tem na atriz Jennifer Lawrence [trilogia The Hunger Games, Silver Lining Playbook] a narradora. Atores não existem: todas as pessoas que aparecem estão a ‘representar’ o seu papel real, isto é, são os astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS na sigla em inglês).

Mas o grande ponto de interesse do filme não está só no resultado final em si, mas também na forma como foi gravado um filme IMAX no espaço.

As janelas para o mundo

Todas as imagens do planeta Terra foram filmadas na cúpula, o único local da ISS onde é possível ver em maior dimensão o planeta Terra. Este módulo de observação é constituído por sete ‘janelas’ e só foi aplicado na Estação Espacial Internacional em 2010.

As imagens que deram vida ao filme foram captadas com câmaras digitais, ao contrário de partes de outras produções IMAX feitas no espaço que tinham usado câmaras analógicas para fazerem o registo. As câmaras usadas – Canon EOS C500 e EOS 1-D – estão comercialmente disponíveis e não foram alteradas para filmar no espaço, explica a Wired.canon-c500

As vantagens de filmar em digital e não em película são fáceis de perceber. Em primeiro lugar a película tem de ser protegida para não ser exposta a radiação, o que contamina as filmagens. Depois a película é limitada, enquanto no digital é possível gravar e regravar as vezes que quiser. Depois também por uma questão de ‘ergonomia’: o equivalente a 4,5 quilogramas de filme só resultou em 108 segundos de filme propriamente dito noutras experiências feitas.

Mas a película garantia uma qualidade de imagem muito superior, o equivalente a 12K [três vezes mais do que o Ultra HD]. Por outro lado os equipamentos mais recentes comportam-se melhor a captar imagens em ambientes de baixa luminosidade, o que acabou por ser um ponto muito positivo para esta produção.

Como é que as filmagens regressaram à Terra? De duas formas: através das missões de reabastecimento, que também aproveitavam para restabelecer o stock de discos e cartões; outras eram partilhadas através da ‘Internet do espaço’, isto é, via o Tracking Data Relay Satellites (TDRS), um conjunto de nove satélites que ajuda a estabelecer a comunicação entre a ISS e os centros de apoio e investigação na Terra.

Mas desengane-se se pensa que as câmaras digitais são invencíveis perante a radiação espacial. “Consegues ver os píxeis que faltam na gravação. Sobretudo em imagens de baixa luminosidade, consegues olhar e dizer quanto tempo tem a câmara [no espaço]”, explicou à publicação a antiga astronauta Marsha Ivins.

E como é que os astronautas percebiam quando as câmaras estavam demasiado afetadas? Colocavam a tampa na objetiva e filmavam tudo preto. Quantos mais píxeis mortos houvesse, maior celeridade era necessária na troca da câmara. A esperança média de vida dos equipamentos era de alguns meses, sendo trocadas sempre que uma missão da SpaceX ia até à Estação Espacial Internacional.



Estes dark frames também eram usados para que os editores de vídeo cá em baixo na Terra soubessem exatamente onde deviam colocar píxeis ‘falsos’ para compensar os danos registados nos equipamentos.

O filme envolveu também muita engenharia gráfica no que diz respeito à perceção do espaço. Ainda que nada do que é visto no filme seja feito graficamente, o material acabou por ter de ser todo trabalhado.

“Hoje, mais do que nunca, estamos a assistir a uma espécie de renascimento de artistas e cientistas a trabalharem juntos para trazer novos visuais às pessoas e para que a precisão da ciência esteja embutida nesse visual”, disse a diretora do laboratório de visualização da Universidade do Illinois, Donna Cox, citada pela Space.com.

Boleias espaciais

A aventura do filme A Beautiful Planet no espaço começou a 23 de setembro de 2014 foi quando foram entregues as primeiras câmaras e o material necessário para começar a filmar. Em janeiro e abril de 2015 o processo repetiu-se quase da mesma forma, mas para subsituição e reabastecimento.

O mesmo era para ter acontecido alguns meses depois, em junho, mas a missão da SpaceX a caminho da ISS explodiu, destruindo todo o material que levava consigo: neste caso câmaras de substituição e também um par de Hololens da Microsoft.

Isto causou algum stress na produção. Apesar de as câmaras que estavam no espaço terem aguentado e de haver armazenamento suficiente para o resto das filmagens planeadas, a verdade é que se fosse mesmo necessário um equipamento de substituição ninguém sabia quando haveria nova missão à ISS.

A SpaceX voltaria lá acima, mas então já tinham passado sete meses desde o final das filmagens – pois apesar de ser um filme sobre o planeta Terra visto do espaço, não deixou de ter um timing para cumprir.space-x-dragon

Representação do módulo Dragon da SpaceX que faz o transporte de material para a Estação Espacial Internacional

Foi então que os astronautas – além de atores também foram os mestres de cerimónias na parte das filmagens – receberam ordens para não gravarem passagens com mais de 60 segundos, caso contrário seria muito difícil enviar as filmagens para a Terra via satélite. E sabiam perfeitamente o que estavam a fazer: receberam treino específico para este filme, ressalva o Engadget.

Alguns gigabytes de dados podiam demorar cerca de seis horas a serem transmitidas do espaço para os centros de controlo, além do facto de a equipa de produção ter de ficar na fila de espera – a ISS realiza muitas experiências e produz dados científicos importantes que têm prioridade.

Mas se por um lado os conteúdos gravados foram vistos como vitais no processo, o mesmo não pode ser dito das câmaras de filmar e dos respetivos periféricos: vão acabar por ser destruídas e libertadas no espaço como lixo. Longe vão os tempos em que era possível enviar maiores quantidades de material para a Estação Espacial a bordo dos shuttles norte-americanos – mas agora o trabalho é feito maioritariamente pelas pequenas cápsulas Dragon da SpaceX.

Uma questão de coordenação

Se até aqui todo o processo de gravar um filme no espaço parece megalómano, há ainda a considerar o facto de haver timing para algumas gravações. Em coordenação com os especialistas da NASA, os astronautas da ISS eram notificados sobre a necessidade de fazer determinada gravação pois era quando havia uma janela de oportunidade para uma aurora boreal ou para uma tempestade, por exemplo.

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Crédito: NASA

Até a questão da meteorologia representou um papel importante: caso houvesse tempestades não seria possível captar a vida do planeta Terra à noite. E diz quem já viu o filme que se as imagens do planeta Terra de dia são surpreendentes, as noturnas são aquelas que mostram verdadeiramente o impacto da civilização no planeta.

É aí que chega parte da mensagem do filme: temos de preservar melhor o nosso planeta. E qual a melhor forma de fazê-lo? Colocar o ‘berlinde azul’ em toda a sua glória dentro dos olhos das pessoas. É que numa sala de cinema IMAX é difícil de desviar o olhar, mesmo que a consciência esteja a pesar.