Mixtape é o segundo projeto da Beethoven & Dinosaur, os criadores de The Artful Escape, lançado em 2021. Só por isso, já tínhamos a ideia que este jogo poderia ser algo diferente e especial, principalmente por estar tão profundamente enraizado na música. Em Mixtape, a música é o seu ADN, com uma banda sonora de rock alternativo dos anos 80 e 90 que não só desperta memórias da nossa juventude, mas também das nossas amizades e escapes nos nossos dramas de adolescência.
Mixtape é um jogo experiencial. É importante perceber desde já que isto não é um shooter, um RPG ou sequer uma aventura point-and-click. Isto é uma experiência. Não vamos ser penalizados pela jogabilidade, nem existe um final “bom” ou “mau”. Podemos interagir tanto ou tão pouco quanto quisermos. Estamos a viver a última noite de liceu de um grupo de três melhores amigos antes de entrarem na próxima fase das suas vidas.
Rockford, Slater e Cass são um trio há já bastante tempo no liceu. Embora Rockford e Slater sejam amigos há mais anos, Cass juntou-se mais tarde e trouxe uma dinâmica diferente ao grupo. A história começa connosco a descer uma estrada de skate, rodeados por uma natureza lindíssima, carros a passar de ambos os lados, algumas manobras divertidas de skate à escolha e Devo a tocar em altos berros durante todo o percurso. Percebi rapidamente o ambiente musical desta cena: estamos claramente numa vibe de skaters dos anos 80/90, e muito bem conseguida.
Quando o trio chega a casa de Rockford, temos uma boa perceção da personalidade das três personagens principais, com Rockford a assumir quase o papel de locutora explicando-nos tudo, desde o grupo de amigos até “o que é afinal uma mixtape”. Estes momentos misturam animação do jogo com fotografias e vídeo, evocando os filmes dos anos 90 em que claramente se inspiram, como Ferris Bueller, o Rei dos Gazeteiros em Portugal.
Estas pequenas pausas vão preenchendo a tracklist, enquanto Rockford nos dá contexto sobre porque certas coisas são importantes, quem são os idiotas nas suas vidas e porque a próxima música da cassete importa sempre.
À medida que a história avança, deparamo-nos com os obstáculos associados a terminar o liceu e seguir em frente. Embora o trio tivesse planeado uma viagem para levar Cass à universidade, Rockford alterou os planos para que ela chegasse a Nova Iorque a tempo de tentar ter um emprego através da amiga da irmã. Como seria de esperar, isto cria tensão dentro do grupo. Dramas adolescentes.
Também conhecemos as figuras de autoridade que complicam a vida aos nossos protagonistas. Não queremos revelar grandes momentos da narrativa, mas a forma como Mixtape nos conduz por todo o conflito, e pelo que vem depois, com os seus altos e baixos, deixou-me emocionado no fim do jogo.
Com a maneira que o jogo está escrito, as personagens são bastante fáceis de conhecer e sentir empatia. Rockford está sempre dois passos à frente, sem nunca largar as alegrias do passado. Quer criar mixtapes e bandas sonoras para filmes, porque ela e os amigos sabem o talento que tem para registar estes momentos.
Slater está sempre presente para os amigos, apoiando tanto Rockford como Cass da forma que consegue. Embora talvez ainda não tenha uma ideia clara do que quer da vida, é um artista em várias áreas e possui imenso talento.
Cass (Cassandra) vem de uma família muito rígida e tenta descobrir quem realmente é, procurando liberdade através de pequenos atos de desobediência. É inteligente, multifacetada, mas está à procura do seu “lugar no mundo”.
Estas três personalidades têm muito em comum, mas também razões claras para entrarem em conflito.
Apesar de o jogo durar apenas entre 3 a 4 horas, tem um conceito e narrativa bastante definidos. É como ver um filme muito longo, mas que arranja uma forma de interagirmos com ele.
Afinal o que é que jogamos?
No campo da jogabilidade, controlamos as línguas de duas pessoas a beijarem-se, atiramos papel higiénico a uma casa, voamos num campo aberto, mandamos pedras à água, controlamos fogo-de-artifício, alugamos um filme enquanto bêbedos e muitas outras situações dignas de uma fantasia narrativa.
Embora estas ações não tenham consequências diretas na jogabilidade, influenciam sempre a história e aproveitem estes momentos durante o tempo que vos apetecer. Passei bastante tempo a atirar pedras à água, e atirei mais de cinquenta rolos de papel higiénico no nível em questão. A jogabilidade, tal como o resto do jogo, centra-se totalmente na experiência de o fazer. Às vezes, o melhor numa atividade é saber quando chegou a altura de parar, mas é tudo consoante o acompanhamento musical. Todas estas sequências são acompanhadas pela tal mixtape de Rockford.
Tal como acontece na vida real, as conversas acontecem conforme o nosso interesse. Podemos falar com Slater e Cass durante as cenas nos quartos sempre que quisermos. Percebemos que o diálogo termina quando começam apenas a responder coisas como “hey” e pouco mais. Gostei sempre destas conversas e da boa disposição entre eles até porque é assim que algumas sequências de jogabilidade são desbloqueadas. Ainda assim, isso não será para toda a gente, e o jogo deixa-nos jogar exatamente como quisermos. Saberemos o que faz avançar a história através de um brilho amarelo à volta dos objetos.
As cores da California
Os gráficos encaixam perfeitamente na narrativa, apresentando um estilo quase entre claymation e cel-shading, que faz com que cada momento pareça ainda mais especial, com uma aura diferente. A mistura deste estilo com fotografias reais durante os momentos em que Rockford olha diretamente para a câmara cria uma mudança dinâmica entre cenas e emoções da história. As cores quentes da Califórnia prevalecem no design visual e característicos da altura do ano dos eventos do jogo.
Uma das minhas cenas que mais me impactou foi um momento em que o ambiente arrefeceu devido a uma discussão e, de repente, a cor do jogo desapareceu e tudo ficou a preto e branco enquanto a cena continuava. O nível de detalhe visual de cada momento foi pensado ao pormenor, do início ao fim. A maneira que complementa a cena com a música escolhida não é fácil, mas Mixtape acerta em todas as notas.
A cassete pirata
A verdadeira estrela do jogo, para além das personagens e da história, é a música que torna tudo isto especial. A mixtape deste jogo é exatamente aquilo que gostaríamos que fosse e ainda mais. Inclui grandes artistas dos anos 80 e 90, como Devo, Lush, The Cure, Joy Division, Iggy Pop, The Smashing Pumpkins e muitos outros.
Senti que cada música encaixava perfeitamente no ambiente, em cada situação mostrando-nos o estado de espírito das personagens a cada momento e recordação. Os atores que dão a voz às personagens fazem um trabalho fora de série, o que facilita a nossa imersão nas histórias dos adolescentes.
Todas estas músicas foram “selecionadas pela Rockford” para a última noite antes de deixarem o liceu. No entanto, conforme as relações entre o grupo mudam ao longo da história, essa mixtape também precisa de mudar, certo?
A quebra da quarta parede torna a viagem musical ainda mais emocionante, já que antes de cada música aparece no ecrã o nome da música e do artista dito pela própria Rockford.
Considerações finais
Mixtape fala sobre o movimento constante e inevitável da vida, a passagem entre a adolescência e o ser adulto, mas também sobre recordar os momentos que fazem de nós quem somos. Vemos personagens presas no mesmo lugar, outras a sonhar com algo maior e melhor, outras apenas à procura de uma saída, e muito mais.
Este jogo entrega tudo aquilo a que se propõe: não há DLC, nem finais alternativos, apenas um princípio, meio e fim que oferecem um olhar emocional e criativo sobre o que acontece a amigos com ambições diferentes. Este jogo é sobre “os bons velhos tempos”, e todas as recordações que temos da nossa altura de escola, de todas as aventuras que tivemos durante a adolescência. Para pessoas da minha idade nascidos nos anos 80, este jogo tem um lugar especial porque todos tivemos no lugar destes personagens. Saíamos à rua, tínhamos aventuras que nem os nossos pais sabiam e guardámos esses momentos só para nós.
Mixtape captura um dia importante na vida destes miúdos, que relembram os seus melhores momentos, antes de a seguirem em frente e tentar perceber o que será no seu futuro.

