Desde os primeiros tempos da indústria dos videojogos, na década de 1980, a série cinematográfica de James Bond teve uma forte presença no entretenimento interativo. Embora nenhuma adaptação tenha tido, talvez, o mesmo impacto que o exclusivo da Nintendo 64 de 1997, GoldenEye 007, um dos grandes títulos desse tempo que ainda hoje mantém uma comunidade ativa de fãs, especialmente entre os praticantes de speedrunning, as adaptações oscilaram muito de qualidade, geralmente entre projetos ambiciosos e jogos mais banais. Após um longo período sem novos lançamentos, à semelhança do que aconteceu com a própria série de filmes nos últimos tempos, temos finalmente algo novo, um jogo de ação e aventura totalmente original e exclusivo deste universo, 007 First Light.
Pela mão da IO Interactive, estúdio mais conhecido pelo seu trabalho nas séries Hitman e Kane & Lynch, o jogo revela bastante a influência dessas séries, principalmente Hitman. Não traz só um novo capítulo, como também traz uma nova origem ao personagem, uma nova maneira de ver as origens de James Bond, desde os tempos anteriores ao seu recrutamento para o MI6 até aos seus primeiros casos. Este Bond é mais jovem e muito menos experiente do que as suas versões do grande ecrã. Mas será que Bond brilha nestas aventuras?
Bond, James Bond
Conhecemos James Bond não como o famoso agente secreto que todos reconhecemos, nem sequer como alguém que aspira a sê-lo. Em vez disso, encontramo-lo como membro da tripulação aérea da Marinha Real Britânica, envolvido numa operação que corre terrivelmente mal e da qual acaba por ser o único sobrevivente. Quando toda a esperança parece perdida, consegue estabelecer contacto por rádio com o MI6 e realiza uma missão que ultrapassa largamente o dever esperado, chamando a atenção dos serviços secretos. A partir daí, é rapidamente integrado num programa 00 recentemente reativado, e o que se segue é, essencialmente, a formação do homem que virá a tornar-se James Bond.
Acompanhamos os seus primeiros dias, desde o treino até à criação das suas primeiras alianças dentro da estrutura, e vemos desde cedo uma característica que lhe é familiar, não obedecer sempre aos seus superiores. O ator irlandês Patrick Gibson destaca-se no papel, e confere à personagem uma identidade própria através da sua interpretação. Este Bond é arrogante, impulsivo, superconfiante e avança sem pensar onde um agente mais cauteloso aguardaria ou simplesmente seguiria ordens. Ainda assim, é carismático e rápido a reagir.
Elenco recheado
A história de 007 First Light reúne todos os elementos pelos quais a série é conhecida. Existe uma organização misteriosa a manipular acontecimentos mundiais nos bastidores, e uma ameaça central baseada em tecnologia experimental perigosa e implicações da inteligência artificial. Tudo isto conduz a uma escalada de acontecimentos com consequências à escala global.
O vilão principal permanece envolto em mistério durante grande parte da campanha, o que torna a sua revelação final ainda mais eficaz. Pelo caminho, surgem vários inimigos secundários interessantes. Ainda mais impressionante é o elenco, que não se limita a reproduzir as personagens dos filmes. Figuras como M, Q e Moneypenny surgem interpretadas por novos atores e com maior profundidade, acompanhadas por um conjunto de personagens originais que elevam a narrativa e exploram as aventuras e vida de um agente secreto.
O jogo está muito bem escrito e em minha opinião é das melhores histórias da série sendo segundo apenas para Casino Royale. É impressionante como First Light nos traz todos os passos de uma aventura de 007 habitual, mas com mais competência e que se traduz lindamente para uma experiência jogável.
No cinema, James Bond sempre se destacou pelas suas localizações exóticas e visualmente impressionantes, 007 First Light mantém essa tradição. Ao longo da campanha principal, os jogadores visitam não só partes da sede do MI6, mas também tundras geladas, campos de treino secretos em Malta, um hotel luxuoso na zona rural da Eslováquia, uma discoteca londrina cheia de vida, mercados negros escondidos na Mauritânia e muito mais.
Embora os cenários não sejam verdadeiramente de mundo aberto, isso advém de necessidades narrativas. Cada local apresenta um elevado nível de detalhe, tanto de perto como à distância. Os ambientes são vivos e credíveis, com multidões que seguem as suas rotinas e cheio de pequenos pormenores ambientais.
Visualmente espetacular
No que diz respeito à apresentação visual, 007 First Light é, na sua maioria, uma demonstração impressionante do que os jogos narrativos de ação conseguem alcançar em 2026. Os gráficos são sofisticados e extremamente detalhados, com iluminação de elevada qualidade e visualmente excelente que é evidente até nos cenários mais banais. Uma produção bastante forte que transmite um nível de polimento que reflete claramente o enorme esforço investido pelo estúdio depois de termos Hitman, que não tinham este nível de pormenor.
O universo de Bond está também recheado de marcas reais, desde automóveis de luxo até ao relógio que usa no pulso e às máquinas de venda automática espalhadas pelos cenários. Embora a quantidade de implementação de produto seja difícil de ignorar, nunca parece desfasado numa série sempre associada a uma certa ideia de luxo e sofisticação.
Tem de ter um Bond Theme
O design sonoro é uma das áreas onde o jogo é muito coerente com a identidade de James Bond. O tema clássico da série está presente, mas é utilizado com moderação, escolhido para os momentos mais marcantes. A canção principal original, interpretada por Lana Del Rey, adequa-se perfeitamente ao tom a que estamos habituados, enquanto a restante banda sonora acompanha eficazmente todas as situações e cenários.
O trabalho de dobragem é igualmente excelente. Patrick Gibson carrega o jogo ás costas com uma interpretação que transmite a arrogância, o charme e os momentos de vulnerabilidade característicos de um Bond jovem, sem nunca cair na simples imitação dos atores que o interpretaram no passado. É acompanhado por um elenco de grande qualidade, incluindo Lennie James no papel do cético Greenway, Kiera Lester como uma impressionante Moneypenny e Alastair Mackenzie como um Q que combina elementos das versões das eras Pierce Brosnan e Daniel Craig.
Um espião em potência
Tal como os trabalhos anteriores da IO Interactive sugerem, o estúdio possui uma grande competência na produção de jogos que combinam combate de ação com mecânicas de furtividade e infiltração. 007 First Light assenta que nem uma luva nesses pressupostos. Embora tenha identidade própria e não seja simplesmente um “Hitman com James Bond”, as influências são bastantes.
As missões decorrem geralmente em áreas movimentadas onde o objetivo se encontra fora do alcance imediato. Cabe-nos recolher informações, encontrar oportunidades e descobrir formas de aceder a zonas restritas. É possível escutar conversas para obter pistas, furtar cartões de acesso e códigos a alvos distraídos ou utilizar o sistema Bluff, que nos permite convencer guardas desconfiados de que pertencemos ao local apenas através da nossa confiança e atitude,
Quando a furtividade falha, chegamo-nos à frente com o combate corpo a corpo. Não se resume a pressionar botões ao acaso, com contra-ataques, esquivas e bloqueios, embora exista também algum espaço para a abordagem mais direta. Bond tira partido do ambiente sempre que possível, tornando os confrontos mais espetaculares e dinâmicos. O sistema não é particularmente profundo e pode tornar-se confuso quando o jogador é cercado por vários adversários, mas cumpre eficazmente a sua função.
Licença para matar
Como seria de esperar, 007 First Light não permite que Bond saque de uma arma e comece a disparar indiscriminadamente numa situação “normal”. Esta limitação é levantada através do sistema “Licence to Kill”, o qual Bond só pode utilizar armas de fogo quando um inimigo demonstra intenção letal clara. Assim, o jogador não pode resolver todos os problemas à força das balas e só o podemos fazer quando se justifique. As zonas são contidas, mas eficazes na espetacularidade.
Quando os tiros começam, os confrontos são rápidos e satisfatórios. A quantidade bastante limitada de munições obriga à gestão de cada disparo, levando-nos a pensar em estratégias alternativas, como combate corpo a corpo ou utilização do ambiente. Ainda assim, os tiroteios acabam por ser menos divertidos do que o combate físico. Já as batalhas contra bosses constituem o ponto mais fraco do jogo, recorrendo a fórmulas repetitivas baseadas em esquivas, armadilhas e eventos rápidos (QTEs), com exceção de um em que a luta é fenomenal.
Os apetrechos de Q
Nenhum James Bond está completo sem os seus famosos engenhos tecnológicos, e esta versão mais jovem não é exceção. Os gadgets são um dos grandes destaques do jogo e encontram-se centralizados no Q-Watch. O relógio permite analisar áreas em busca de ameaças, piratear equipamentos eletrónicos à distância e criar distrações úteis.
Antes de cada missão, escolhemos o equipamento a levar em missão, incluindo ferramentas como um laser capaz de cortar cadeados ou um dardo que provoca desorientação nos alvos. Em vez de funcionarem com tempos de recarga tradicionais, os dispositivos consomem recursos eletrónicos e químicos recolhidos ao longo dos níveis, criando um sistema próprio de gestão de recursos que, embora acessível, pode ocasionalmente deixar-nos sem opções em momentos de aperto.
As secções de condução são, por contraste, a parte mais fraca da experiência. Os veículos parecem pouco precisos e algo difíceis de controlar, além de estarem geralmente confinados a percursos muito lineares. Para além de conduzirmos o mítico Aston Martin por pouquíssimo tempo, parece que estas secções foram introduzidas apenas pela tradição que ocupam nas histórias.
Fora da campanha principal, os jogadores têm ainda acesso ao Tactical Simulator, um modo separado disponível tanto através do menu principal como dentro do jogo. Este oferece uma série de desafios curtos, permitindo desbloquear novas armas, fatos e outras recompensas.
Considerações finais
Após décadas de jogos de James Bond a alternarem entre o memorável e o esquecível, e depois de um longo período sem novos títulos, a pergunta inicial recebe uma resposta clara, 007 First Light é um grande jogo.
O jogo reúne as melhores qualidades das aventuras narrativas, inspirando-se em títulos como Uncharted e Hitman, ao mesmo tempo que respeita a identidade da série sem a imitar ponto por ponto. A IO Interactive criou uma história de origem genuinamente original, sustentada pela excelente interpretação de Patrick Gibson e por um elenco notável, tudo isto envolvido em alguns dos cenários internacionais mais luxuosos e na ação mais refinada que a série alguma vez apresentou.
Demorou quase três décadas, mas James Bond tem finalmente um jogo digno de ser colocado ao lado de GoldenEye 007 e isso é de louvar.

