Havia uma enorme expectativa em torno de Marvel’s Wolverine. Não só por ser uma das personagens mais conhecidas da Marvel, mas também porque o jogo está a cargo da Insomniac Games, o estúdio responsável por Marvel’s Spider-Man e depois do excelente trabalho feito com esse herói, era normal esperar muito deste novo projeto. Wolverine é uma personagem bastante diferente de Peter Parker, com uma personalidade mais agressiva, um passado marcado pela violência e poderes que parecem perfeitos para um jogo de ação. Felizmente, a Insomniac percebeu isso e criou uma experiência que consegue transmitir muito bem a sensação de controlar Logan. O problema é que, apesar de ter muitos momentos excelentes, o jogo nem sempre consegue manter o mesmo nível de qualidade em todas as áreas.
Marvel’s Wolverine é uma aventura de ação focada principalmente em Logan e na sua história. Ao contrário dos jogos de Spider-Man, não temos aqui um enorme mundo aberto. A experiência é mais linear, embora existam vários conteúdos opcionais para quem quiser mais jogo. Temos upgrades para melhorar as capacidades de Wolverine, diferentes fatos para desbloquear, desafios adicionais e vários objetos para colecionar, incluindo garrafas de whisky. São elementos que ajudam a tornar a aventura mais completa, embora não consigam esconder algumas das suas falhas.
Um Logan mais humano
Uma das melhores decisões da Insomniac foi mostrar-nos um Logan diferente daquele que normalmente conhecemos. Wolverine continua a ser agressivo e perigoso, mas o jogo também mostra o homem que existe por detrás das garras. Logan é alguém marcado pelo passado, com dificuldade em confiar nos outros e que tenta encontrar uma forma de lidar com tudo aquilo que fez e viveu.
Esta parte funciona particularmente bem quando o jogo abranda e nos dá oportunidade de conhecer melhor a personagem. Logan não é apenas uma máquina de combate, existe sofrimento, dúvida e até alguma vulnerabilidade por detrás das suas atitudes. É uma personagem que tenta seguir em frente, mesmo quando o seu passado continua a persegui-lo e parece que nunca pára de o fazer.
O excelente trabalho de voz ajuda bastante neste aspeto. A interpretação de Logan é um dos grandes pontos fortes do jogo, Liam McIntyre consegue transmitir raiva, sarcasmo, dor e momentos mais emocionais. A personagem parece natural e convincente, mesmo quando está simplesmente a conversar com outra pessoa. Já Nathaniel Essex, (um personagem meio misterioso ao início, mas quem lê as comics sabe bem quem é), interpretado por Troy Baker, rouba toda a atenção (como costuma fazer em todos os trabalhos de ator) e conta com uma excelente interpretação vocal, ajudando a tornar as suas cenas mais interessantes. No geral, o trabalho dos atores é uma das partes mais fortes da aventura.
Uma história que nem sempre funciona
É na história que encontramos um dos principais problemas de Marvel’s Wolverine. A aventura começa com uma ideia bastante interessante e cria expectativas sobre aquilo que poderá acontecer. Acompanhamos o passado de Logan, os seus problemas pessoais e os diferentes conflitos apresentados parecem preparar-nos para uma história com bastante potencial. Infelizmente, nem todos os passos se desenvolvem da melhor maneira. A história nem sempre é coesa e existem momentos em que parece que algumas ideias foram introduzidas sem serem depois devidamente desenvolvidas. Algumas situações acontecem demasiado depressa (como uma interação entre Logan e outra personagem), enquanto determinadas personagens e relações poderiam ter recebido mais atenção.
Outro problema é que o conceito inicial nunca chega verdadeiramente a concretizar-se. Não quero dar spoiler até porque não podemos, mas prefiro que os jogadores vão com zero noção para um jogo destes que é altamente narrativo e cinemático. A ideia apresentada no início parece apontar para uma determinada direção, mas a história acaba por seguir outro caminho. Não há nada de errado em uma história mudar e surpreender o jogador, mas aqui fica a sensação de que algumas das ideias inicialmente apresentadas foram deixadas para trás e não significa que a história seja má. Existem vários momentos muito bons e algumas cenas conseguem ser bastante emocionantes e o problema é que esses momentos nem sempre estão ligados da melhor forma. Quando a história se concentra em Logan, funciona bastante bem. Quando começa a juntar demasiadas personagens e acontecimentos, perde alguma força.
Se os rumores de um desenvolvimento conturbado (pelos adiamentos do jogo) forem reais, nota-se muito aqui, na falta de coesão de todos os elementos. E o mais estranho neste tipo de jogos é que que parecia fácil construir uma história decente, com todos o material dos comics disponível.
Um combate feito para Wolverine
Se a história tem alguns problemas, o combate é precisamente o contrário.
Jogar como Wolverine é uma das melhores coisas que o jogo oferece. A Insomniac não se limitou a pegar no sistema de combate de Spider-Man e a colocar Wolverine no lugar de Peter Parker. Logan luta de uma forma completamente diferente. Não depende de teias ou da sua agilidade. As suas principais armas são as garras, a força física e a capacidade de recuperar dos ferimentos.
Os combates são rápidos, agressivos e muito físicos. Os ataques têm impacto e as animações fazem com que cada golpe pareça ter peso e podemos dar graças ao Dual Sense por isso. Logan pode avançar diretamente contra os inimigos, atacar vários adversários ao mesmo tempo e utilizar diferentes habilidades para causar ainda mais estragos. Quanto mais aprendemos a utilizar o sistema de combate, mais divertido se torna porque podemos combinar diferentes ataques, esquivar-nos dos golpes dos inimigos e aproveitar as habilidades de Logan para criar combinações espetaculares.
É aqui que o jogo mostra claramente a sua identidade e Wolverine não luta como um herói tradicional. Ele entra no meio dos inimigos e continua a lutar mesmo depois de sofrer vários golpes. Marvel’s Wolverine é um jogo bastante violento e sangrento, e essa é uma decisão que combina perfeitamente com a personagem. Cada vez que vamos para combate sente-se a tensão do combate, que todos vêm atrás de nós e entre parries e esquivas, é um exercício de foco, destreza e um pouco de coreografia.
Se há alguma queixa que tenho relativamente a este tema, é a distância que estamos de Logan e nem sempre vemos os inimigos a atacar em algumas direções, mas nem sempre isso acontece.
A Insomniac não tentou esconder a violência de Wolverine. As garras de adamantium são usadas de forma bastante brutal e os combates podem deixar muito sangue espalhado pelo cenário. As execuções são especialmente violentas e ajudam a criar uma experiência bastante diferente daquela que tivemos noutros jogos. Esta violência faz sentido porque está ligada à própria personagem. Wolverine é alguém que foi treinado para lutar e matar, e a sua capacidade de regeneração permite-lhe continuar de pé mesmo depois de sofrer ferimentos graves. O jogo utiliza essas características para criar uma experiência em que podemos ser bastante mais agressivos.
Mais importante ainda, a violência não parece estar no jogo apenas para impressionar. Faz parte da forma como Wolverine combate e ajuda a tornar a experiência mais fiel à personagem. A capacidade de regeneração de Logan também tem um papel importante durante os combates já que em vez de termos de evitar todos os ataques, podemos assumir alguns riscos e continuar a lutar enquanto Wolverine recupera dos ferimentos. Isto muda bastante a forma de jogar. Podemos entrar no meio de vários inimigos, sofrer alguns golpes e continuar a atacar, é uma mecânica simples, mas funciona muito bem porque está diretamente ligada àquilo que Wolverine é. A Insomniac conseguiu, assim, fazer com que os poderes da personagem não fossem apenas elementos visuais e têm uma influência real na forma como jogamos e ajudam a criar um estilo de combate próprio.
Upgrades para tornar Logan ainda mais forte
Ao longo da aventura podemos melhorar as capacidades de Wolverine através de upgrades e estes melhoramentos permitem desbloquear novas possibilidades tornando Logan cada vez mais forte à medida que avançamos. O sistema não é nada complicado, o que acaba por ser uma vantagem e não precisamos de passar muito tempo a estudar menus ou estatísticas. Os upgrades estão ligados principalmente ao combate e ajudam a melhorar as capacidades que utilizamos durante as batalhas. Também existe uma boa razão para explorar os cenários, ao desviarmo-nos do caminho principal podemos encontrar recursos e outros elementos que ajudam na evolução de Logan e desta forma, a exploração não serve apenas para admirar os cenários, mas também pode trazer recompensas bastante úteis.
Uma delas são os diferentes fatos e estilo de garras que podemos desbloquear. Wolverine tem uma longa história nos comics e passou por várias versões visuais ao longo dos anos. Por isso, a possibilidade de escolher diferentes fatos e garras é particularmente interessante para os fãs da personagem. São sobretudo uma opção de personalização, mas funcionam bem como recompensa pela progressão e exploração. Poder escolher o aspeto de Wolverine que mais gostamos é sempre uma adição bem-vinda, principalmente numa personagem que possui tantos visuais conhecidos. Entre os objetos que podemos encontrar existe ainda um colecionável bastante curioso: as garrafas de whisky. Espalhadas pelos diferentes cenários, estas garrafas podem ser encontradas pelos jogadores que gostam de explorar todos os cantos do mapa. Não muda a forma como jogamos, mas acrescenta variedade e dá mais uma razão para procurar conteúdos escondidos durante a aventura.
Desafios adicionais para prolongar a experiência
Para além da campanha principal, existem também desafios adicionais que permitem testar as nossas capacidades de combate e são uma boa forma de continuar a jogar depois de avançarmos na história e de experimentar melhor as diferentes habilidades de Logan. Os Nightmare Trials são especialmente interessantes para quem gosta de dominar completamente o sistema de combate ou simplesmente quer passar mais tempo a jogar com Wolverine. São desafios cronometrados, de combate ou rapidez de progressão num nível e quando concluídos, é-nos dado um pouco mais de conhecimento sobre o passado de Logan, uma história muito especial. Ao terminar todos, há um novo desafio que ao terminar, conclui esse olhar ao passado.
É uma boa forma de aproveitar o excelente sistema de combate criado pela Insomniac, sobretudo depois de já termos desbloqueado várias habilidades.
No melhor pano cai a nódoa
Já que o combate é a joia da coroa neste jogo, deduzíamos que os encontros com os bosses seriam inesquecíveis. E por um lado são, pela negativa. Lutamos com dos maiores rivais de Wolverine sim, mas infelizmente, os bosses não conseguem acompanhar a qualidade do combate normal. As batalhas têm bons momentos e são visualmente impressionantes, mas existe um problema que se torna evidente rapidamente: os padrões dos bosses são demasiado repetitivos. Depois de percebermos como determinado inimigo funciona, muitas batalhas passam a ser uma questão de esperar pelo ataque, esquivar, encontrar uma abertura e repetir o processo. Falta maior variedade e, em alguns casos, um momento espetacular para surpreender o jogador.
As animações dos bosses também se tornam repetitivas. Alguns movimentos são utilizados várias vezes e, depois de os vermos repetidamente, torna-se fácil perceber aquilo que o inimigo vai fazer a seguir, o que é uma pena, porque estes deveriam ser alguns dos melhores momentos do jogo. Os bosses têm presença e conseguem impressionar visualmente, mas faltou maior variedade para transformar estas batalhas em experiências realmente memoráveis.
Uma excelente demonstração da PS5
Uma das diferenças mais importantes em relação aos jogos de Spider-Man é a estrutura mais linear. Marvel’s Wolverine não tenta criar outro enorme mundo aberto e, na minha opinião, esta é uma decisão acertada. Wolverine não precisava necessariamente de uma cidade gigantesca cheia de missões secundárias. A estrutura mais direta permite à Insomniac controlar melhor o ritmo da aventura e concentrar-se na história e no combate. Ainda assim, existem conteúdos suficientes para quem quiser explorar. Os upgrades, os fatos, os desafios e os colecionáveis, como o whisky, dão motivos para sair ocasionalmente do caminho principal.
O problema é que uma estrutura mais linear também torna mais visíveis os problemas da história. Quando a narrativa perde ritmo, não temos um enorme mundo aberto para nos distrair e somos obrigados a continuar a acompanhar a história, o que torna essas falhas mais evidentes.
Visualmente, Marvel’s Wolverine é uma excelente demonstração das capacidades da PlayStation 5. Os cenários apresentam bastante detalhe e variedade, as personagens estão muito bem construídas e as sequências de ação (bem como as cinemáticas) conseguem criar momentos verdadeiramente espetaculares. Logan merece especial atenção com a forma como se movimenta, corre e combate ajuda a diferenciá-lo de outros protagonistas da Insomniac. Os seus movimentos são mais pesados e agressivos, o que combina perfeitamente com a personagem. Durante os combates, o sangue, os efeitos visuais, a destruição e as animações juntam-se para criar momentos muito cinematográficos. É nestas situações que o jogo consegue mostrar todo o seu potencial. A Insomniac não se limitou a criar um jogo visualmente bonito. Também conseguiu utilizar as animações e os efeitos para transmitir a força e a brutalidade de Wolverine.
Considerações finais
Depois de terminar Marvel’s Wolverine, fica uma sensação difícil de ignorar: este poderia ter sido um jogo ainda melhor.
A base é excelente. Temos uma personagem muito forte, um sistema de combate divertido e brutal, uma boa apresentação técnica (exceto alguns bugs pontuais, mas a nossa versão até à data desta análise, ainda não tinha atualizações), excelentes interpretações vocais e vários conteúdos adicionais. Os upgrades, os fatos, os desafios e os colecionáveis ajudam a tornar a aventura mais completa e oferecem mais coisas para fazer além da campanha principal.
O problema é que nem todos estes elementos têm a mesma qualidade. A história poderia ter sido muito mais coesa e acredito que o conceito inicial merecia ter sido explorado de forma mais consistente. Algumas personagens e acontecimentos parecem precisar de mais tempo para serem desenvolvidos e isso nota-se. Os bosses também são uma oportunidade perdida. Apesar de serem espetaculares à primeira vista, os padrões repetitivos e as animações demasiado semelhantes fazem com que algumas batalhas percam rapidamente o impacto.
Mas a verdade é que mesmo não sendo o jogo perfeito que esperava, já que as expetativas eram muito altas, Marvel’s Wolverine é bastante melhor que muitos jogos que são lançados hoje em dia, e não retira em nada a capacidade da Insomniac Games em produzir blockbusters desta dimensão. Se gostam de Marvel Comics, da MCU ou apenas de Wolverine como personagem, não durmam neste jogo, porque vão ter o que esperaram durante tanto tempo.

