Há notícias de cibersegurança que lemos, encolhemos os ombros e seguimos com o dia. E depois há esta. A Binance, a maior exchange de criptomoedas do mundo, foi alvo de um ataque que lhe levou cerca de 6,3 mil milhões de dólares em ativos digitais, e confesso que tive de ler o número duas vezes para ter a certeza de que não me tinha enganado nos zeros. Não me enganei. É, segundo as empresas que estão a seguir o rasto do dinheiro, o maior roubo de criptomoedas alguma vez registado.
Tudo aconteceu esta quinta-feira, dia 29 de outubro, a partir das 20h05 em Portugal continental. Segundo a BleepingComputer, que cita a empresa de análise blockchain TRM Labs, foram retirados cerca de 6,36 mil milhões de dólares de carteiras da Binance em dez blockchains diferentes, a maior parte em apenas 20 minutos. Para termos noção da escala, é cerca de quatro vezes o ataque à Bybit, em fevereiro de 2025, que até agora detinha o recorde com 1,5 mil milhões de dólares.
Binance aponta para portátil comprometido, mas a história não acaba aí
Numa primeira atualização, publicada no X já durante a madrugada desta sexta-feira, a Binance explicou que a investigação inicial apontava para o portátil comprometido de um engenheiro de DevOps, o que terá permitido ao atacante aceder a um contentor de serviço e submeter pedidos de levantamento não autorizados. A empresa garante que não encontrou qualquer indício de fuga de chaves privadas das carteiras.
Horas depois, a história complicou-se. A Binance revelou que descobriu “pontos adicionais de intrusão” e que se trata de “um ataque complexo”. O co-CEO Richard Teng fez questão de esclarecer, citado pela BleepingComputer, que “o atacante não usou simplesmente as permissões de um engenheiro” e que não foi uma ação de “um só clique”. Ou seja, nada de apontar o dedo a uma única pessoa, pelo menos para já.
Coreia do Norte é a principal suspeita
Quem está por trás de tudo isto? A TRM Labs e a Chainalysis atribuem o ataque, com elevado grau de confiança, ao TraderTraitor, um grupo de hackers ligado ao Estado norte-coreano e associado ao famoso Lazarus Group, o mesmo que o FBI responsabilizou pelo ataque à Bybit. Segundo a Chainalysis, a prova mais forte surgiu quando os investigadores viram, em tempo real, fundos roubados à Binance a misturarem-se com dinheiro levado no ataque à Bitget, no mês passado, também atribuído à Coreia do Norte.
A boa notícia, se é que podemos chamar-lhe assim, é que a indústria reagiu depressa. Emissores de stablecoins como a Tether, a Circle e a Ripple congelaram uma parte importante dos fundos, e a Binance fala em cerca de 3 mil milhões de dólares congelados até ao momento. Ainda assim, de acordo com a TRM Labs, os atacantes continuam a controlar mais de 420 000 ETH e 18 270 BTC, qualquer coisa como 2,4 mil milhões de dólares que já ninguém consegue congelar.
O que muda para quem tem conta na Binance
Para quem tem dinheiro na plataforma, a mensagem oficial é de calma. A Binance garante que vai cobrir todas as perdas através do fundo de emergência SAFU e de fundos próprios, e diz que já começou a recuperar ativos para os utilizadores. Para além disso:
- Depósitos: continuam a funcionar normalmente.
- Levantamentos: estão suspensos enquanto a equipa reforça a segurança do serviço, com a retoma prevista para as próximas 48 horas.
- Transparência: a empresa promete publicar uma análise técnica detalhada do ataque e uma Prova de Reservas atualizada quando terminar a investigação.
Segundo a CNBC, os analistas da Fundstrat consideram que, para já, o ataque não coloca em causa a solvência da Binance. Ainda bem, porque o mercado das criptomoedas não precisava de mais um susto destes.
No meio disto tudo, há uma lição que serve para todos nós, tenhamos ou não criptomoedas: a segurança de uma empresa gigante pode cair por causa de um único equipamento comprometido. Já por aqui falámos de como nos protegermos de phishing e outros ataques informáticos e de que nas criptomoedas nem tudo o que brilha é ouro, e a verdade é que, anos depois, continua tudo muito atual.

