Há séries que ficam na memória dos jogadores, e Gears of War é uma delas. Desde o primeiro jogo, a saga habituou-nos a combates intensos, armas impressionantes e uma guerra em que a humanidade luta pela sobrevivência. Em Gears of War: E-Day, regressamos ao início de tudo, ao momento em que os Locust surgem e começam a invadir o planeta Sera.
Este novo capítulo permite-nos conhecer melhor os primeiros momentos de um conflito que viria a mudar o mundo. Ao mesmo tempo, recupera a fórmula de combate que tornou a série tão popular, introduzindo algumas mudanças na forma como exploramos os cenários e completamos as missões. O resultado é uma aventura que respeita o passado, mas que também procura fazer algumas coisas de maneira diferente. A jogabilidade continua a ser o seu maior trunfo, o grafismo espetacular e a história cumpre aquilo a que se propõe. A nova zona mais aberta também acaba por funcionar melhor do que esperava, apesar de existirem alguns problemas que prejudicam a experiência.
GRÁFICOS EXCELENTES E CENÁRIOS IMPRESSIONANTES
Uma das primeiras coisas que se destaca em Gears of War: E-Day é a qualidade dos gráficos. A The Coalition voltou a fazer um excelente trabalho, criando cenários cheios de pormenores, personagens bem construídas e ambientes que ajudam a transmitir a dimensão da invasão. A cidade de Kalona é um bom exemplo. As ruas, os edifícios e os espaços destruídos mostram uma cidade que, pouco antes, tinha uma vida normal. À medida que avançamos, começamos a perceber o que está a acontecer e a dimensão do caos provocado pelos Locust. Os cenários não servem apenas para receber os combates: ajudam a contar a história e a mostrar como tudo está a desmoronar-se.
A iluminação também contribui para criar ambientes muito bem conseguidos, enquanto as explosões, os disparos e a destruição tornam os confrontos ainda mais intensos. Tudo isto ajuda a dar vida ao mundo do jogo e torna cada zona de combate mais envolvente. Visualmente, E-Day é um jogo muito bonito, mas sombrio e consegue manter a identidade da série. Os cenários continuam sombrios, as personagens têm um aspeto realista e a destruição está presente em quase todos os momentos. É fácil ficar impressionado com aquilo que a The Coalition conseguiu criar.
No entanto, a experiência não é perfeita. Na versão para Xbox Series S, que utilizei para esta análise, a qualidade gráfica continua a ser um dos pontos fortes do jogo, mas peca pela performance, como slowdowns e demora no carregamento de texturas (mas já lá iremos), mas mesmo nesta consola, E-Day consegue apresentar cenários impressionantes e momentos visualmente muito fortes.
UMA HISTÓRIA QUE NOS LEVA AO INÍCIO DA GUERRA
A história de Gears of War: E-Day decorre no Emergence Day (Dia da Emergência), quando os Locust surgem do subsolo e começam a atacar a humanidade. Acompanhamos Marcus Fenix e Dominic Santiago numa altura em que ainda não são os soldados experientes que conhecemos dos jogos anteriores. O que começa por ser uma situação inesperada transforma-se rapidamente numa luta pela sobrevivência. Os Locust aparecem em grande número, atacam as cidades e deixam as forças humanas sem saber como responder a uma ameaça desta dimensão.
A história é boa dentro daquilo que pretende contar. O principal objetivo é mostrar como começou a guerra e como as primeiras horas da invasão mudaram a vida de milhares de pessoas. Não complica demasiado a narrativa, preferindo acompanhar os protagonistas enquanto enfrentam uma situação que rapidamente foge ao controlo. A relação entre Marcus e Dom continua a ser importante e é interessante vê-los numa fase inicial das suas vidas, antes dos acontecimentos que conhecemos dos outros jogos. A forma como enfrentam o perigo ajuda a dar um lado mais humano à aventura, mesmo quando a ação ocupa grande parte do tempo.
Para quem acompanha a série há muitos anos, existe também o interesse de conhecer melhor um dos momentos mais importantes deste universo. Sabemos que a invasão dos Locust terá consequências enormes, mas E-Day permite-nos acompanhar de perto o início dessa tragédia. Narrativamente pode não surpreender constantemente, mas cumpre bem a sua função. É uma história que ajuda a perceber a dimensão da guerra e que dá um contexto importante aos combates que vamos travando.








A JOGABILIDADE CONTINUA A SER A RAINHA
Se há algo que Gears of War: E-Day faz bem, é manter a qualidade da jogabilidade. A série sempre se destacou pelos combates na terceira pessoa, pela utilização de coberturas e pela importância de escolher o momento certo para atacar. Felizmente, tudo isso continua a funcionar muito bem. Durante os confrontos, temos de procurar abrigo, perceber de onde vêm os inimigos e aproveitar as oportunidades para avançar. Disparar sem pensar raramente é a melhor solução, sobretudo quando estamos rodeados de adversários. É preciso saber quando atacar, quando mudar de posição e quando é melhor esperar. O sistema de coberturas continua a ser uma das bases da experiência, mas os combates mantêm-se rápidos e intensos. As armas têm impacto, os disparos são satisfatórios e os confrontos conseguem transmitir uma sensação de perigo constante.
A Lancer, com a sua conhecida motosserra, continua a ser uma das armas mais emblemáticas, mas o restante arsenal também oferece boas alternativas. Cada combate obriga-nos a adaptar a nossa abordagem, especialmente quando enfrentamos vários inimigos ao mesmo tempo. É aqui que Gears of War continua a demonstrar a sua qualidade. A jogabilidade é simples de compreender, mas suficientemente interessante para nos manter envolvidos durante toda a campanha. Mesmo depois de várias horas, os combates continuam a ser divertidos. Pessoalmente, considero que este é o aspeto mais importante da série. Podemos melhorar os gráficos, acrescentar novas missões ou criar cenários maiores, mas tudo isso perde valor se o combate não funcionar. Em E-Day, a jogabilidade continua excelente e mantém-se como o grande destaque da série.
ARMAS COM MODIFICAÇÕES
Outra das características que merece destaque neste jogo é a possibilidade de melhorar as armas através de modificações que vamos encontrando durante a campanha. Estas melhorias permitem alterar algumas características do nosso equipamento e dão-nos mais razões para explorar os cenários já que amealhamos esses equipamentos ao encontrar caixas espalhadas pelos níveis. Em vez de avançarmos sempre pelo caminho principal, podemos procurar caixas e outros locais escondidos para encontrar elementos que nos ajudem nos combates seguintes.
O sistema não é demasiado complicado e isso acaba por funcionar a seu favor. Não precisamos de passar demasiado tempo a gerir equipamentos ou a estudar dezenas de opções. As modificações servem para melhorar o nosso arsenal ofensivo e defensivo, acrescentando alguma variedade à experiência. É uma boa forma de recompensar quem gosta de explorar e de dar mais utilidade a alguns dos caminhos alternativos. Embora a habilidade durante os combates continue a ser o mais importante, ter armas melhoradas pode fazer a diferença em determinadas situações.


KALONA TRAZ UMA NOVA FORMA DE EXPLORAR
Uma das maiores novidades de está na forma como a campanha está organizada. O jogo continua a ter muitos momentos lineares, mas introduz uma zona mais aberta na cidade de Kalona, onde podemos explorar diferentes áreas, encontrar missões secundárias e participar em combates opcionais. Confesso que prefiro um Gears of War mais linear. Gosto da forma como os jogos anteriores nos levavam de um cenário para outro, mantendo um ritmo bem controlado e apresentando combates preparados para cada momento da história e por isso, tinha algumas dúvidas sobre esta nova abordagem. Felizmente, a zona mais aberta funciona melhor do que esperava e acaba por trazer algo de interessante à experiência, mas pode quebrar aquele ritmo brutal que estava habituado. Continuo a preferir a estrutura mais linear dos jogos anteriores, mas reconheço que esta solução foi bem conseguida. A campanha mantém a identidade de Gears of War e ganha alguma liberdade sem se transformar numa experiência completamente diferente.
MISSÕES SECUNDÁRIAS MAIS NATURAIS
A zona de Kalona também permite encontrar várias missões secundárias. Estas atividades levam-nos a explorar outros locais, enfrentar inimigos e ajudar a resolver problemas que surgem durante a invasão. O que mais gostei foi a forma como estas missões são introduzidas na história. Não parecem estar ali apenas para ocupar o nosso tempo surgindo de maneira natural.
As missões também podem recompensar-nos com melhorias para as armas e outros elementos úteis. Assim, explorar não é apenas uma forma de conhecer melhor Kalona, mas também uma maneira de preparar o nosso equipamento para os combates seguintes. Nem todas as atividades são igualmente interessantes, e algumas acabam apenas por se resumir a mais confrontos.
UMA QUANTIDADE ABSURDA DE COLECIONÁVEIS
Se gostas de procurar tudo o que está escondido num jogo, prepara-te: Gears of War: E-Day tem uma quantidade absurda de colecionáveis. Ao longo da campanha, encontramos as caixas já referidas anteriormente e outros objetos espalhados pelos cenários. Algumas destas caixas contêm modificações para as armas, e outros objetos podem ser encontrados, que servem sobretudo para acrescentar pormenores ao universo do jogo. Esta variedade incentiva-nos a explorar os edifícios e a investigar caminhos que poderiam passar despercebidos.
O problema é que existem tantos objetos para descobrir que a exploração pode tornar-se cansativa. Há momentos em que sentimos a necessidade de verificar todos os cantos de uma sala ou de percorrer um caminho alternativo apenas para garantir que não deixámos nada para trás.
O MULTIPLAYER NÃO DESILUDE
A experiência de Horde Siege leva o modo cooperativo de Gears of War: E-Day numa direção diferente, com combates maiores e uma maior necessidade de trabalhar em equipa. Em vez de se limitarem a defender uma posição contra vagas de inimigos, os jogadores são divididos em equipas de quatro elementos, num total de 12 participantes, e têm de cumprir objetivos enquanto enfrentam os Locust. Cada equipa pode escolher diferentes classes, com capacidades próprias, o que torna a cooperação ainda mais importante. Saber quando avançar, proteger os colegas e aproveitar as vantagens de cada classe pode fazer toda a diferença durante as missões.
O resultado é um modo mais dinâmico, que dá um novo ritmo aos combates tradicionais da série. As equipas podem cruzar-se durante as missões, criando situações inesperadas, enquanto os inimigos mais fortes obrigam os jogadores a trabalhar em conjunto para sobreviver. É uma mudança interessante para quem procura algo diferente das habituais vagas de adversários. Ainda assim, será importante que exista variedade suficiente nos objetivos para manter as partidas divertidas a longo prazo. Se conseguir equilibrar a ação com a cooperação entre jogadores, Horde Siege poderá tornar-se uma das experiências mais interessantes de Gears of War: E-Day.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL É UM DOS MAIORES PROBLEMAS
Infelizmente, nem tudo funciona como deveria e um dos aspetos que mais me incomodou durante a campanha foi a inteligência artificial dos nossos companheiros, que está longe de ser competente. Em Gears of War, a equipa tem um papel importante. Não estamos sozinhos no campo de batalha e esperamos que os nossos colegas consigam acompanhar os nossos movimentos, reagir aos inimigos e ajudar durante os confrontos. Na prática, isso nem sempre acontece. Por vezes, os companheiros ficam presos em plataformas ou em elementos do cenário, sem conseguirem encontrar uma forma de avançar.
Noutras situações, disparam contra obstáculos que estão à sua frente, como se não percebessem que têm algo a bloquear os disparos. Também acontece demorarem demasiado tempo a acompanhar-nos. Em vez de avançarmos naturalmente para a próxima zona, temos de esperar que os restantes membros da equipa consigam chegar até nós. São problemas que prejudicam a imersão e que se tornam ainda mais evidentes num jogo tão focado no combate em equipa. Quando estamos a viver um momento intenso, não queremos ser obrigados a esperar porque um companheiro ficou preso num obstáculo.
A situação não chega a estragar a campanha, mas é difícil ignorá-la quando acontece várias vezes. A inteligência artificial precisava de mais trabalho, sobretudo porque os nossos companheiros fazem parte da experiência e deveriam comportar-se de forma mais natural.
DESEMPENHO NA XBOX SERIES S
A versão que utilizei para esta análise foi a de Xbox Series S, e a experiência apresentou alguns problemas de desempenho. Como referi, encontrei abrandamentos em determinados momentos, especialmente quando a ação se intensifica. Não acontecem constantemente, mas são suficientes para se fazerem notar e retirar alguma fluidez a certas sequências.
Num jogo em que precisamos de reagir rapidamente, procurar cobertura e mudar de posição, a fluidez é importante. Mesmo que os problemas não sejam permanentes, acabam por ter algum impacto na experiência. Apesar destas limitações, o jogo continua visualmente impressionante para a consola que é. Ainda assim, espero que futuras atualizações possam melhorar a estabilidade e tornar os combates mais fluidos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Gears of War: E-Day é um regresso muito bem conseguido às origens da série. Os gráficos são muito bons, a história conta de forma interessante o início da invasão dos Locust e a jogabilidade continua a ser o grande ponto forte da experiência.
A possibilidade de modificar as armas acrescenta alguma variedade, enquanto as missões secundárias e a exploração de Kalona dão uma nova dimensão à campanha. Mesmo preferindo um Gears of War mais linear, gostei da forma como esta zona mais aberta foi integrada. Permite-nos sentir melhor o início da guerra sem transformar o jogo numa aventura de mundo aberto tradicional. A jogabilidade continua excelente, os gráficos impressionam e a nova estrutura da campanha acrescenta algo de interessante à experiência. É sem dúvida um dos pontos altos da série e a história que mais precisava de ser contada.

