Confesso que ainda tenho lá em casa, numa prateleira que ninguém pode tocar, algumas daquelas caixas enormes de jogos de PC dos anos 90, com manual grosso, mapas e CDs que já nem sei se funcionam. Por isso, quando li que a GOG sonha em voltar a vender jogos de PC em formato físico, a minha parte nostálgica deu logo um pulinho. A minha parte racional, essa, foi ler as letras pequenas.
Numa entrevista ao GamesRadar+, publicada a 31 de outubro, Marcin Paczyński, responsável de desenvolvimento de negócio e parcerias da GOG, explicou qual seria o cenário ideal: “Vão à vossa prateleira na GOG, clicam no jogo de que gostariam de receber uma cópia física, encomendam e ela chega-vos a casa. Esse seria o cenário perfeito.” Ou seja, jogos físicos por encomenda, a partir da biblioteca que já têm na loja. Bonito, não é?
GOG: um sonho antigo com muitos obstáculos
O problema é que, segundo o próprio Paczyński, esta é “uma coisa muito, muito complicada”. Vender produtos físicos é “totalmente diferente” daquilo que a GOG faz hoje, e obriga a pensar em logística, armazenamento e envios. Para além disso, a loja precisaria de “aprovações adicionais” das editoras para poder vender os jogos em disco ou noutro suporte físico, o que, convenhamos, não se resolve com um e-mail simpático.
Ainda assim, a ideia não é nova. “É uma ideia que anda pela GOG há anos”, admite o responsável, que diz esperar que um dia seja possível avançar. “Veremos.” Não há datas, não há preços e não há sequer a garantia de que vá acontecer, por isso é melhor encarar isto como uma vontade e não como um anúncio.
Caixas para imprimir enquanto o sonho não chega
Para já, a GOG está a dar aquilo a que Paczyński chama “pequenos passos nessa direção”. Em setembro, o GOG Preservation Program passou a incluir digitalizações 3D das caixas originais de cinco clássicos, que podem ser vistas no visualizador 3D do Windows e do Mac, e ainda versões planas para imprimir, recortar e colar em casa. O projeto foi feito em parceria com a Big Box Collection, um arquivo de caixas de jogos de PC mantido por uma só pessoa desde 2015. Os jogos abrangidos são estes:
- Myst
- Descent
- Hitman: Codename 47
- Star Trek: 25th Anniversary
- Armikrog
Sim, é papel e cola, e não é a mesma coisa que receber uma caixa a sério. Mas, sendo jogos sem DRM, ninguém vos tira aquilo que compraram, o que já é mais do que muitas lojas podem dizer.
A contracorrente das consolas
O timing também não é inocente. Enquanto a GOG fala em trazer o físico de volta ao PC, a Sony anunciou que a PlayStation vai deixar de lançar jogos em formato físico a partir de 2028. Ao mesmo tempo, há quem continue a apostar nas edições em caixa, como vimos com Phantom Blade Zero, que terá edições físicas em 2027. A procura existe, a questão é quem está disposto a pagar a conta da logística.
Para mim, a ideia de abrir a biblioteca da GOG e pedir uma caixa do jogo de que mais gosto é exatamente o tipo de coisa que me faria gastar dinheiro sem pensar duas vezes. Agora é esperar que as editoras e as contas também gostem dela.

