Análise Lost Ember

A natureza atrai quem a observa. Seja num belo quadro de época de cores garridas, nos sons do campo onde o vento sopra devagarinho para onde somos imediatamente transportados logo que fechemos os olhos ou quando visitamos algum sítio onde a não presença do ser humano o transforma num lugar de sonho, pois são cada vez mais raros. É este o primeiro apelo de Lost Ember, jogo da editora Mooneye Studios, que acaba por recriar ambientes naturais, associando-os a um lobo muito especial e a uma narrativa forte de tribos e culturas perdidas.

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Quase um ano depois do lançamento de Lost Ember para outras plataformas, surge a esperada versão para a Nintendo Switch. Conseguirá ela uivar de contentamento por uma adaptação bem conseguida ou será que vai meter as mãos pelos pés… Ou as patas pelas patas, neste caso?

O lobo é só o início

Uma tribo desaparece sem deixar rasto. Mas eis que um dos seus elementos ressurge neste mundo, mas numa forma bem diferente da humana, a de um lobo com o poder metamórfico de se apoderar do corpo de outros animais e das suas habilidades específicas na descoberta incessante de vidas de outrora através de memórias e artefactos. A premissa de Lost Ember é cativante, pois envolve tantas coisas que não estão habitualmente no mais comum dos videojogos. A presença também de uma espécie de guia espiritual armado em engraçadinho serve como contraponto a esta caminhada a diferentes passos num mundo de beleza natural invejável.

O objetivo desta viagem deverá a Cidade da Luz, o local onde todos os seus compadres ancestrais se encontram. Há que quebrar barreiras, explorar cada recanto para poder desbloquear as barreiras físicas que impedem a progressão, ao mesmo tempo que vamos deslindando o que aconteceu a esta tribo carcomida pelo tempo e a esta pobre alma perdida em pele de lobo.

Mas a grande inovação de Lost Ember acaba por ser a forma inteligente de progressão que foi encontrada: o nosso menino-lobo consegue possuir corporeamente os outros animais que encontra pelo seu caminho. Com o clicar do botão, damos por nós a correr na pele de um porquinho, a voar livremente como um papagaio ou até nadar como um peixinho. Todas estas interações são essenciais para a progressão na aventura através de puzzle simplista muitas das vezes, mas podem ser usadas apenas como momentos de diversão. Quem nunca desejou vestir outra pele? E de animais então?

Há ainda imensos itens para colecionar que pedem revisitas e até animais especiais para descobrir.

Alcateia de belezas e algumas feridas

O jogo é atraente no seu visual, permite a interação com diferentes animais e as suas ímpares mecânicas… Mas nem tudo é positivo. O jogo acaba por ser bastante linear, pois envolve quase sempre a mesma estratégia: andar em frente, descobrir o obstáculo, incorporar o animal da zona, destruir o obstáculo e prosseguir. Claro que este desenvolvimento meio seca e a ausência de qualquer tipo de combate pode fazer deste um jogo de nicho. Há também uma série de problemas no baixo frame-rate constante que retiram bastante prazer da velocidade que andar na pele de diferentes animais transmite, bem como alguns bugs que teimam em aparecer após uma morte, pois o jogador é teimosamente colocado num sítio onde a morte se torna inevitável, principalmente através de quedas acentuadas. São mortes atrás de mortes que muitas vezes fazem com que tenhamos que reiniciar o jogo. Uma lástima que se pensa poder ser resolvido com algumas atualizações.

Música – Auuuu! / Falas – Grrrrr!

Nada como aliar um visual impressionante pela sua beleza a um dedilhar de tranquilidade pela música que o acompanha. Lost Ember consegue fazer isso, onde a calma se vê e se ouve, mas sem criar a temida monotonia. Com o uso de simples melodias envolvendo guitarras e pianos que falam baixinho, mas numa harmonia quase enternecedora. Os próprios sons que ecoam da natureza são por vezes a única companhia que temos e não há nada de errado na contemplação de um quase silêncio que fala gentilmente connosco.

Como único aspeto negativo, aparecem as falas do nosso guardião. Parecem totalmente fora do ambiente criado pela Mooneye Studios, que destoa completamente do modo quase zen de todas as outras façanhas alcançadas por esta obra de beleza inequívoca. É como se olhássemos para o nosso ente querido e o víssemos a movimentar de forma leve e intrigante, despertando a nossa curiosidade, para depois lhe ouvirmos a voz e nos parecer um zurrar. É tão contra-natura.

 Considerações finais

Lost Ember conta uma estória delicada e detalhadamente sem realmente a contar. Este é um dos grandes feitos do jogo. Nem tudo nos é metido pelo cérebro adentro, nem tudo é explicado como se fôssemos crias de lobo.

Os visuais cheios de cor e vida, apesar de por vezes parecerem demasiado pixelizados, apelam a que o jogador deambule pelos diferentes e diversos cenários naturais com alguma liberdade, sendo esse amplificado pela grande ideia deste jogo, que consiste na possibilidade de ocuparmos diferentes corpos de animais, tornando-os os nossos veículos de exploração e progressão no mundo em que ajudamos o membro reencarnado da tribo Yanrana.

Sim, é uma experiência curta (cinco horas de jogo), mas ainda assim apetece voltar, nem que seja para apreciar a liberdade que nos dá. Ainda assim, é possível voltar com o objetivo de colecionar alguns itens mais escondidos.

A música impera e a fala degenera. Lost Ember é uma bela brasa que da qual podemos e devemos retirar o máximo de calor até que o fator novidade se extinga. Embora possamos sempre voltar aos passos do lobo…

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Lost Ember é divertido e bonito, com uma mecânica de controlo de animais interessante e uma estória cheia de pormenores. Pena os soluços constantes e o andar em frente constante. Mas não deixa de ser mais uma portabilidade para a Switch bem conseguida.

+ Mundo colorido e variado

+ Muitos animais para evocar

+ Enredo interessante

– Vozes fraquinhas…

– Alguns problemas de frame-rate

– Linearidade

N.R.: A análise a Lost Ember foi realizada numa Nintendo Switch com uma cópia do jogo, gentilmente cedida pela Plan of Attack.

Paulo Tavares: Professor de ocupação, jogador por diversão. Guarda religiosamente as cassetes do seu Spectrum 128k. Leva demasiado a sério a discussão de melhor Final Fantasy. 7, fim de conversa.
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