Ghost of Yotei

Ghost of Yotei – Análise

Tinha acabado de passar uma dúzia de horas a abater inimigos em Ghost of Yotei quando, finalmente, me foi dada a tarefa de salvar uma vida. Numa missão secundária, Atsu, aprotagonista encontra-se a resgatar uma cria de urso deixada a defender-se sozinha depois de a mãe ter sido morta. Após a transportar para um local seguro, Atsu senta-se junto a uma fogueira com a sua companheira de missão, Haci. Na calma da noite, e longe de todo o derramamento de sangue que tinha deixado para trás, Haci faz uma pergunta que me deixou a pensar: “Que papel desempenhas neste mundo?”

É um pequeno momento num vasto mundo aberto, mas um ponto de viragem crucial na nova aventura da Sucker Punch. Aqui, não nos pedem para moralizar sobre a natureza da violência e da vingança. Em vez disso, ficamos a pensar em algo que raramente pensamos nas histórias de jogos de ação deste tipo, que vida esperamos depois de derramada a última gota de sangue?

Atsu e o seu passado

Situado na região de Ezo, no Japão, por volta de 1603, Ghost of Yotei segue as pisadas do seu antecessor de ação e aventura, mas conta uma história mais pessoal.

Esta história é um simples enredo de vingança, que já vimos dezenas de vezes em entretenimento. Depois de testemunhar o assassinato brutal da família quando era criança, Atsu faz da sua missão de vida derrotar um dia os assassinos dos pais, e assume ser a Onryu, um título com uma certa mitologia em Ezo. Os culpados são um grupo de bandidos mascarados conhecido como os Yotei Six, dando à história uma estrutura clara de lista de alvos.

Atsu, já adulta quando a história começa, encara tudo como uma missão suicida. Mesmo que não morra em combate, não há vida para ela quando a missão terminar, porque o foco dela é eliminar todo o grupo e o seu líder Saito, sem pensar no que virá a seguir.

A história pode ser batida, mas a maneira que a Sucker Punch a conta, que molda a narrativa no sentido de oferecer ao jogador a melhor experiência no jogo, é fulcral. Com alguns volte faces à mistura, o enredo principal serve o propósito de vingança de Atsu, apoiado por cinemáticas simplesmente brilhantes.

Pelas planícies fora

Chegar a esse desfecho sombrio é uma longa aventura. Ghost of Yotei desenvolve a estrutura de mundo aberto de Tsushima, construindo um cenário de grande escala e de uma beleza notável, o sonho de qualquer fotógrafo virtual (todas as imagens aqui foram retiradas da minha jogabilidade). A região, situada em torno do imponente Monte Yotei, não é uma área densamente povoada, cheia de cidades e castelos. É antes uma beleza natural pontuada por pequenas aldeias, habitadas por pessoas que levam vidas pacíficas nas planícies ou junto aos rios. O talento da Sucker Punch está na capacidade de criar um mundo que parece autêntico, ainda que as suas colinas estejam coloridas com flores que guiam naturalmente o olhar até à próxima missão ou objetivo.

Foi esse o ponto forte que distinguiu Ghost of Tsushima de todos os outros em 2020, e Yotei mantém o mesmo espírito. A sequela continua a trocar marcadores e minimapas no ecrã por pistas visuais. As rajadas de vento guiam-nos até ao objetivo, pássaros dourados conduzem-nos a fontes termais que aumentam a saúde e a outras atividades, e o som de uma raposa a chorar indica que há uma toca por perto. Não se trata apenas de tornar a experiência mais “imersiva” mantendo o jogador fora dos menus. Ezo é a casa de Atsu há décadas. Ela conhece cada recanto, porque precisaria de um mapa para se orientar?

Alguns dos melhores momentos de Yotei acontecem no início, enquanto ainda estamos a habituar-nos ao mundo. Quando começamos a caçar os meus primeiros alvos, não sabemos bem por onde começar. Há uma missão principal a seguir, mas cada vez que montamos no nosso fiel garanhão, tropeçamos em mais informações. Isso acontece pela primeira vez num local inesperado, ao falar com um homem no meio do nada, longe de qualquer objetivo, sou emboscado por bandidos. Mato os reforços, mas poupo o homem e interrogo-o no local. Ele acaba por revelar informações sobre The Kitsune, um dos Yotei Six que se esconde atrás de uma máscara de raposa. A situação parece totalmente espontânea, e senti que o jogo se adaptava à medida que eu ia progredindo no mapa, seja para que lado fosse na região inicial.

Esse sentimento não se mantém para além do primeiro ato, onde posso caçar os dois primeiros alvos na ordem que quiser. Yotei acaba por assentar num ritmo de mundo aberto mais tradicional, que me faz saltar constantemente entre a missão principal, colecionáveis, recompensas e missões secundárias. Com tantos jogos de mundo aberto que existem e que jogo, poderia haver algum cansaço, mas Ghost of Yotei prendeu-me tal como Ghost Of Tsushima o fez e pelas melhores razões.

Quando olho para um campo de flores vermelhas vibrantes a contrastar com um céu azul como o mar, é como contemplar uma peça de arte. Perco a noção do tempo na exploração enquanto o som do shamisen (o nosso instrumento de estimação) de Atsu me transporta para o Japão do século XVII.

A representação do Japão feita pela Sucker Punch nestes dois jogos representa e honra a cultura japonesa.

Podemos iniciar a nossa aventura (ou mudar a qualquer altura) com modos que tentam homenagear personalidades japonesas. O modo preto e branco “Kurosawa” ou o novo modo inspirado no animador Shinichiro Watanabe (que substitui a banda sonora por lo-fi beats e foi uma preferência minha), Ghost of Yotei pode ser customizado desde o início do jogo.

E claro que no decorrer da história temos trajes samurais extravagantes, os minijogos de pintura sumi-e no painel tátil do DualSense e os desafios de cortar bambu, tudo adiciona à experiência imersiva do Japão feudal.


De katana na mão

Ghost of Yotei não deita fora o que Tsushima fez tão bem, nos duelos de katana sentimos o impacto do aço contra o aço a cada defesa, ou quando carregamos com golpes em cima do inimigo. Atacamos inimigos um a um até os apanhar desprevenidos e os duelos individuais são especialmente impressionantes, cada um com o seu próprio ritmo e padrão de ataque/defesa.

A diferença entre Jin, o herói de Tsushima, e Atsu, a protagonista de Yotei, é que esta usa armas diferentes em vez de mudar de postura para lidar com vários tipos de inimigos. Quando preciso de partir um escudo, usamos uma Kusarigama, para um inimigo com armadura, recorro à lenta, mas poderosa Odachi. Esse vasto arsenal, combinado com pistolas, bombas e kunai, dão-nos condições para eliminar vários grupos de inimigos seguidos, desde que consigamos dominar todas as mecânicas de jogabilidade, face a tanta coisa que podemos utilizar.

Temos de salientar a quantidade de amuletos e as habilidades passivas que nos dão, bem como os movimentos com todas as armas que vamos desbloqueando ao encontrar templos. Vamos amealhando amuletos ao longo da aventura, tanto no mapa como em missões secundárias e podemos trocá-los a nosso belo prazer.

Felizmente temos a opção de gravar vários loadouts e assim ter várias builds preparadas e disponíveis para cada tipo de necessidade no terreno.

Embora não seja uma revolução (ainda há confrontos diretos e assassinatos furtivos), as novas ferramentas combinam com a atitude de Atsu. Em Tsushima, Jin seguia um código de honra samurai e a sua história era sobre testar essa tradição e perceber quando valia a pena quebrá-la para um bem maior. Atsu não está presa a nenhum código. É uma máquina movida a sangue e vingança, e não vê diferença entre uma decapitação silenciosa e um duelo justo.

Atsu também começa a partilhar uma ligação com os lobos da região, que por vezes lutam ao seu lado e ao fazer as missões secundárias das tocas de lobos, ajudamo-los a recuperar a sua alcateia, aprisionada pelos homens de Saito.

As planícies e o Monte Yotei

Ghost of Yotei é dos jogos mais bonitos desta geração, mas não tanto pela resolução ou se as texturas estão no ponto ou não, mas pelo que nos faz sentir.

O grafismo pode sofrer em ambientes mais fechados (joguei em modo performance), mas quando estamos a cavalgar pelas planícies fora o sentimento de liberdade é algo quase inexplicável quando acompanhado pela excelente banda sonora (o tema principal é fantástico). Cada zona tem as suas próprias caraterísticas e cores que nos invadem o ecrã, praias, cascatas, neve sem nos esquecermos do topo do Monte Yotei, onde temos um dos melhores momentos de história, o boss mais difícil do jogo e uma vista estonteante.

As músicas com instrumentos japoneses acompanham a história, duelos e exploração e os efeitos sonoros brindam os nossos ouvidos a cada momento. O som do vento, do aço a bater e a excelente interpretação dos atores de voz (principalmente Erica Ishii no papel principal), deram outra imersão às 68 horas de jogo que passei em Ezo.


Considerações finais

Ghost of Tsushima foi uma surpresa gigante para mim em 2020. É para mim, o jogo perfeito em exploração em mundo aberto e até o platinei. Em Ghost of Yotei, não descansei enquanto não fiz o mesmo, porque fora o impacto que já tive do primeiro jogo, este último agarrou-me da mesma maneira e não descansei enquanto não fiz tudo o que havia para fazer. A Sucker Punch descobriu a fórmula perfeita para mim, um jogo que quando não o estava a jogar, estava a pensar nele.

Há uma clara dicotomia entre a violência do combate e a paz que encontramos na exploração do mapa, são dois sentimentos completamente diferentes que não vamos encontrar em muito jogos.

Mas Ghost of Yotei quer que acreditemos que um dia travaremos a nossa última batalha. Que as forças que nos oprimem podem e irão ser derrotadas. Que existe paz para lá da violência. Que vida queremos viver quando esse dia chegar? A missão de Atsu não é sobre vingança é sobre encontrar um novo propósito depois dela.

nota 5 recomendado

+ Banda sonora
+ A história de Atsu como é contada
+ O arco de Kitsune dos Yotei Six
+ A personagem Mad Goro

– O grafismo não é o melhor em ambientes fechados