Ninja Gaiden 4

Ninja Gaiden 4 – Análise

Há algo de especial nos Ninja Gaiden dos anos 2000 que me continuam a atrair bem como Devil May Cry 3 ou Bayonetta. É difícil explicar, mas o resumo é simples, jogabilidade é rainha e enquanto acho que DMC e Bayonetta são jogos expressivos pela apresentação fora do normal, Ninja Gaiden é expressão através da execução. São jogos que recompensam precisão, timing e sangue-frio (que honestamente já não tenho para muitos géneros de jogos) e onde sobreviver é procurar reflexos onde já não os temos, sendo o sentimento de vitória das melhores sensações do mundo.

Nos clássicos Ninja Gaiden 1 e 2 não havia barras de poder nem habilidades que nos deixavam temporariamente invencíveis. Tínhamos de conquistar cada vitória à força bruta e disciplina. O combate estava todo ali, desde o primeiro minuto, o progresso vinha de nós, de saber quando aplicar um combo de sete golpes ou quando atirar um inimigo pelos ares com um Izuna Drop.

É precisamente essa essência que Ninja Gaiden 4 tenta preservar. A sensação de acertar uma esquiva perfeita e, no mesmo movimento, arrancar um braço ao inimigo ainda está lá. O prazer de executar um golpe final num adversário enfraquecido, tornando-nos momentaneamente invencíveis enquanto outro se aproxima para nos atacar, também.

Mas o problema é que quase tudo o que Ninja Gaiden 4 acrescenta é, no melhor dos casos, desnecessário e pior, interfere com o que sempre fez Ninja Gaiden funcionar tão bem.

O peso do nome

Ryu Hayabusa sempre foi o protagonista ideal para este tipo de jogo: um ninja sem identidade, sem piadas, sem emoções. Só eficiência. Enquanto Devil May Cry e Bayonetta nos enchem com expressões “Stylish” e “Sweet!”, Ninja Gaiden recompensava-nos com silêncio e pontuação. Simples.

Agora, Ninja Gaiden 4 introduz um novo protagonista, Yakumo que parece saído diretamente de um anime genérico. A meio do jogo, literalmente saltamos por cima de um tubarão. Sim, leram bem. Entre secções de grind em carris e lutas contra piranhas fluorescentes em discotecas, o jogo começa a ser um pouco absurdo e por um momento parece querer encontrar uma nova identidade e romper com os jogos quando Ryu era protagonista. Mas esse momento nunca chega.

Yakumo é um protagonista sem sumo, e o jogo tenta em vão dar-lhe mais carácter através da sua relação com Seori, uma sacerdotisa que mal aparece e que, quando surge, parece saída de um Dead or Alive, muito sexualizada nem necessidade nenhuma.

Demasiado moderno para o seu próprio bem

A tentativa de “modernizar” Ninja Gaiden acaba por prejudicar o ritmo do jogo. Muitas habilidades estão bloqueadas atrás de moedas (NinjaCoins), apenas para serem desbloqueadas minutos depois, o que levanta a questão: porque é que estavam bloqueadas? Cada luta termina com notificações sobre novas habilidades ou pontos disponíveis, até o jogador se fartar.

Os níveis são lineares e repletos de secções “sobre carris” tão repetitivas que acabam por matar qualquer sensação de fluidez e divertimento. As missões secundárias encaixam mal e quebram o ritmo e mesmo com várias opções de acessibilidade como defender automaticamente e codificação de cores para inimigos, o jogo insiste em atirar efeitos visuais irritantes e mensagens constantes no ecrã sem maneira de simplificar a coisa.

O resultado é um jogo que parece dividido entre o desejo de ser acessível e explicativo e a necessidade de preservar o seu ADN. Mas Ninja Gaiden sempre viveu da dicotomia entre o nosso controlo sobre o combate e o caos instalado no ecrã. Ninja Gaiden 4 tenta fazer isso com menus, barras e notificações, quando só o que queremos é apenas o seguir em frente com aquele sentimento de ter limpado uma arena inteira de inimigos sem suar.


Combate mortal

A boa notícia é que o combate, quando tudo encaixa, continua espetacular. Ninja Gaiden 4 expande o sistema com uma barra de fúria, ataques Bloodraven e defesas, parries e esquivas com contra-ataques mortíferos. Senti que o combate é mais complexo, menos elegante, mas quando acertamos uma sequência perfeita (com as tas habilidades desbloqueáveis, um parry que se transforma numa decapitação, seguida de um ataque Bloodraven que atordoa o inimigo para uma combinação final, o jogo brilha com a qualidade que a série sempre mostrou. E atenção que estes inimigos são esponjas. Absorvem vários golpes, o que nos dá a oportunidade de lhes demostrar todos os nossos argumentos com as combos.

Entre todas as armas que podemos ter, a quarta arma de Yakumo é o ponto alto: braços mecânicos que se transformam em shurikens, bombas ou lâminas enormes conforme a combinação. É criativo, e divertido, no entanto é o elemento mais longe da identidade tradicional da série.

Infelizmente, no último terço, o jogo perde algum embalo, ao obrigar-nos a repetir níveis anteriores com Ryu Hayabusa. O reencontro com o lendário ninja reduz-se a uma série de secções curtas e apressadas ao ponto de enfrentarmos o mesmo boss duas vezes seguidas, com personagens diferentes. É um desperdício e falta de imaginação.

Não é bonito de se ver… nem ouvir

Graficamente não é o que poderíamos esperar de um jogo da Team Ninja e PlatinumGames, e sei que os jogos da série nunca foram um colírio para os olhos. Não há nada que se destaque em Ninja Gaiden 4 sem ser talvez o design do nosso protagonista Yakumo.

Os cenários são fracos e genéricos (como os restantes da série) e os inimigos repetitivos o suficiente para serem desinteressantes. Na versão Xbox Series S, (a testada), o jogo é muito fraco tecnicamente no modo performance, com texturas horríveis e efeitos visuais pobres exceto raras ocasiões. A câmara continua a não ajudar, com um efeito estático enquanto progredimos nas secções de plataformas, mas no combate decide ser mais dinâmica borrando a pintura toda. Não se foca em nenhum inimigo e ao mesmo tempo não acompanha bem os nossos movimentos.

Penso que o motor de jogo já não consegue acompanhar o que a equipa quer para a série. É um motor proprietário da PlatinumGames e tem de haver um upgrade ao mesmo, senão que seja feito um jogo de acordo com as limitações do mesmo.

A acompanhar, a nível sonoro também não há muito a ressalvar exceto o som de quando estamos em combate, com o tilintar do aço no caos da batalha. Nem a nada sonora nem a entrega das vozes dos personagens merecem algum destaque.

Considerações finais

Ninja Gaiden 4 é um jogo que tenta muita coisa sem conseguir tudo. Tenta homenagear o passado, atualizar os sistemas para o presente e conquistar novos públicos para o futuro. Consegue algumas vitórias, o combate é a estrela, rápido e fluido, e tecnicamente o jogo corre impecavelmente a 60fps.

O espírito dos clássicos está lá, mas falta-lhe o carisma. A PlatinumGames parece ter querido fazer um Ninja Gaiden moderno, mas acabou por criar um jogo que não é nem o um clássico, nem se consegue destacar.

Mesmo assim, num panorama dominado por souls e roguelikes, é bom ver ser lançado um beat/slash’em up de ação e com raízes tão profundas, mesmo que não seja o que esperava.

nota 3

+ Combate frenético
+ Jogabilidade com os nossos movimentos

– Grafismo mediano
– Apresentação sem criatividade
– Sem carisma