This War of Mine

This War of Mine Complete Edition – Análise

Haverá sempre os momentos certos para jogar certos videojogos. Este não foi o momento de me dedicar a este.

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A ligação a tudo o que se passa num mundo conturbado como aquele que temos hoje em dia e este This War of Mine Complete Edition é demasiado próxima, semelhante, literal. E daí que cada escolha tomada, cada passo errático, cada interação com as histórias sofridas de um povo em guerra doam mais do que um videojogo devia doer. E ainda assim é fácil considerá-lo uma obra-prima em 2014, aquando do seu lançamento oficial, e hoje onde a ficção se confunde com a realidade. Não foi o momento certo para o jogar, mas foi-o para o entender e lhe atribuir a sua importância. Quando as imagens e os sons que ecoam pelas nossas televisões não são suficientes para perceber a magnitude e a gravidade de tudo o que nos rodeia, quem sabe um jogo, este jogo, o faça. A mim fê-lo.

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De noite o perigo brilha

Este This War of Mine foi agora lançado para as consolas de nova geração, com as versões originais e os respetivos DLC’s e continua a narrar de forma crua e estranhamente bela a visão da guerra daqueles que mais sofrem, dos civis que tentam apenas sobreviver e das escolhas terríveis que são forçados a tomar.

A cidade ficcional de Pogoren serve de palco de guerra, onde a missão do jogador se divide nos naturais ciclos de dia e noite, onde conduziremos um grupo de personagens impactantes. Durante o dia, os sobreviventes terão uma série de tarefas para desenvolver no seu abrigo, tentando que alguma normalidade se mantenha na sua vida no meio de um conflito militar a alta escala: fazer melhoramentos, tratar da alimentação de todos, produzir certos itens para poderem ser trocados. O tempo não para e há que tomar decisões ponderadas sobre o que fazer para que nada falte a quem nada tem.

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De noite, como sempre, vem o perigo. As personagens são separadas e há que decidir o que fazer. Uns podem ficar em casa a guardar o abrigo, mas há que arriscar e tentar que o anonimato da noite lhes permita esgravatar novos itens e produtos nos montes de entulho e lixo que estão por todo e que lhes facilitem um pouco a sobrevivência.

Mas os perigos são imensos. Habitantes hostis, pois a guerra tem o condão de virar as vítimas umas contra com as outras, e as milícias, que não olharam a meios para nos apagarem da existência. As localizações são diferentes e a perigosidade também. Há que ponderar se o risco fará sentido ou até se será moralmente correto fazer o que pensamos. Serm querer revelar muito, estes foram os momentos que mais me comoveram… Arriscar  a vida no aerporto altamente guardado, ou roubar o casal idoso que quer apenas ter mais um dia de cada vez juntos? A escolha recaiu sobre esta última hipótese e ainda me aperta o estômago.  

Na guerra não há fim nem princípio

Cada vez que entramos há uma nova forma de vivenciar uma guerra, pois tudo é aleatório. O inverno do nosso desespero pode ser mais longo ou mais curto, e até as próprias personagens que vamos encontrando vão sendo diferentes e também com reações distintas, o que ajudou a prolongar o meu sofrimento.

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O sentimento de não haver esperança, quaisquer que sejam as nossas escolhas, é o ponto que se pretende alcançar e dói. É um jogo que assenta na perfeição as suas imperfeições, tal como o homem erra sempre que escolhe. Mecanicamente não é perfeito. As personagens mexem-se de forma estranha e lenta e por vezes os comandos que introduzimos não são respeitados (descer ou subir escadas parece um grande desafio!). Ainda por cima, com todo o controlo háptico disponível no DualSense e não fazer nada com ele parece claramente uma oportunidade desaproveitada. Há muitas escolhas que podiam ser otimizadas com esta função. Gosto de pensar que toda esta confusão com os itens e com a própria movimentação das personagens é propositada, ajudando ao clima de desordem e dúvida. Mas sabemos que não é assim… As minhas frustrações quero-as apenas ao nível das minhas escolhas no jogo e não nas suas mecânicas.

This War of Mine

Guerra nas mãos pequeninas

EsteThis War of Mine Complete Edition vem com conteúdo extra que acrescenta muito valor à experiência. The Little Ones, que faz algo que pode parecer simplista mas que torna toda a forma de jogar diferente e, por incrível que pareça, ainda mais dolorosa: os grupos de sobreviventes têm agora crianças. E é dilacerante ter alguns fins de personagens com as quais temos mais facilidade em nos apegarmos. Eu como papá recente sofri com a relação que criei e que por vezes me vi forçado a terminar da pior forma. É duro.

Há ainda o DLC Stories, que traz três histórias envolventes com protagonistas diferentes. A primeira que joguei com mais afinco Father’s Promise, que envolve a procura de uma filha levada por um pai desesperado no meio deste cenário de guerra. O jogo funciona de forma semelhante, mas aqui é dado mais ênfase aos objetivos da história que se pretende contar do que chegar vivo ao fim da guerra como nos outros modos.

A guerra vê-se e ouve-se

Visualmente, todos os modos de jogo são muito detalhados. O jogo é modelado em três dimensões mas apresentado em duas, dando profundidade ao que vemos. Tudo o que vemos é artisticamente imaculado, em tons de luz e negro,  legitimando as parecenças com um real cenário de guerra de um nível de design surpreendente.

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O som não surge ao mesmo nível, com uma série de sons desconexos e que por vezes parecem desfasados. Por vezes demasiado altos, outras quase nem se ouvindo. Mas os sons de guerra, os bombardeamentos, as metralhadoras, contrastam em tempos com o som da guitarra desafinada de um sobrevivente. Intenso.

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Considerações finais

This War of Mine Complete Edition relata na perfeição os horrores da Guerra e aquilo que leva e não devolve. Com a aleatoriedade que traz e ainda o conteúdo DLC, há muito decisão errática  para tomar, julgando nós que fazemos o correto para salvar as nossas personagens. Mas como em todas as guerras, não há decisões certas ou erradas; é decidir e lidar com as consequências. E o jogo é brutalmente frio, mas honesto ao mostrar que tanto mais podíamos fazer, mas que não conseguimos.

Slava Ukarini.

nota 5 recomendado
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Para que ninguém fique sem perceber que viver em guerra é o Legendary Mode que não traz troféus ou achivements, This War of Mine existe.


+ Duro e real
+ Randomização bem conseguida
+ Matéria de reflexão

– Falta de controlo háptico
– Problemas com o som

N.R.: A análise a foi realizada numa PlayStation 5 com uma cópia do jogo, gentilmente cedida pela Evolve PR.

O Future Behind em "Dark Mode"