Há poucas mulheres ligadas às tecnologias mas em Lisboa tenta-se mudar isso

A sociedade evoluiu bastante nas últimas décadas no que diz respeito à igualdade dos género. Mas em pleno ano 2016 a presença das mulheres no sector tecnológico – ou melhor, a fraca presença – continua a ser um tema. O simples facto de ainda ser um ‘tema’ já é alerta suficiente para uma situação que pode esconder histórias pouco dignas da sociedade moderna.

“Por exemplo, na minha empresa tínhamos 20 funcionários, todos homens. Os meus clientes, os que tomavam decisões, eram todos homens. E todos pensavam ‘ok, o que é que ela está aqui a fazer? Ela é jovem, é mulher’. Depois disso o pensamento era ‘é mulher e está grávida’ e depois disso ‘também é mãe’. ‘Ela não é capaz de entender aquilo que estamos a falar”.

“Já tive ocasiões em que senti claramente que o facto de ser mulher foi um factor decisivo para aquela pessoa achar que eu tinha mais ou menos competências, naquele caso analíticas”.

Algumas mulheres podem rever-se nestas histórias ou ter outras diferentes para contar, mas a moral acaba por ser a mesma. E não são relatos aleatórios, são memórias que têm caras.

O primeiro foi contado ao FUTURE BEHIND por Tina Schäfer, a organizadora e principal mentora do projeto Women Techmakers que chega agora a Portugal e que teve ontem, 13 de abril, a sua primeira sessão.

O segundo relato é de Filipa Neto, cofundadora da empresa Chic-by-Choice, uma das startups portuguesas mais proeminentes da atualidade. “Faz parte da jornada ser substimada na perspetiva de mulher nas tecnologias. Mas isto é bom porque depois podem ter uma performance superior porque as pessoas não esperam grande coisa”, disse a empreendedora a uma plateia com mais de 30 mulheres de alguma forma ligadas às novas tecnologias.

“Acho que é um verdadeiro desafio. Acho que a expectativa da maior parte das pessoas é de que há certas áreas que são destinadas às mulheres, ao que as mulheres conseguem ser mais eficientes e que há certas áreas em que os homens têm desenvolvidas mais skills”, disse mais tarde Filipa Neto em entrevista ao FUTURE BEHIND.

Trazer o Women Techmakers para Lisboa

A iniciativa Women Techmakers é um programa que conta com o apoio da Google e tem percorrido cidades um pouco por todo o mundo na tentativa de dar maior visibilidade, recursos e também sentido de comunidade às mulheres que trabalham no segmento das tecnologias.

Agora chega a Portugal e depois do primeiro encontro realizado ontem é de esperar que existam workshops todos os meses onde vão ser abordados tópicos nos quais as participantes disseram querer melhorar.

“Sou da Alemanha e o meu principal negócio também é na Alemanha, o que significa que eu ia até lá para alguns encontros. Marcava presença nos Women Techmakers quando lá estava e falei com o coorganizador e disse “Hey, Lisboa, porque não?””, contou Tina Schäfer.

E eles disseram, “Oh, isso é um problema. Vamos falar com a Google”. Então falei com a Google Alemanha e depois disso com a Google Espanha e decidimos que era para fazer aqui também. Não havia nada como isto até agora em Portugal”.



O que dizem os números

Tina Schäfer levou para o Women Techmakers números de 2015 e que espelham bem a razão destas iniciativas. Os valores foram compilados pela CNet e dizem respeito a algumas das maiores tecnológicas do mundo.

“Somos 50% da população mundial, mas nas posições tecnológicas somos só 15%”, atirou a empreendedora alemã.

Filipa Neto complementa esta ideia com um elemento que traz ainda maior preocupação à discussão: “Há muitas mulheres que experimentam trabalhos na área tecnológica e que depois abandonam. Este número não está a diminuir. Isto acima de tudo é preocupante. Quer dizer que não estamos a construir empresas e espaços em que as mulheres se sintam confiantes e interessadas em desenvolver estas competências tecnológicas que elas aprenderam”.

“É importante passar a mensagem e tentar ao máximo em termos de ecossistema promovermos um ambiente em que as mulheres entrem na tecnologia e acima de tudo fiquem na tecnologia porque têm o ecossistema certo e têm o ambiente certo. Gostam e sentem-se apoiadas pelos homens – lá está, o empoderamento dos homens nas mulheres -, mas também o empoderamento das mulheres entre as mulheres que eu acho que nós também temos de trabalhar. Acho que também há muito para fazer de mulheres para mulheres”, complementou a diretora de gestão da Chic-by-Choice.

Mas não só. A forma como a presença das mulheres é encarada na cultura social também precisa de ser transformada. Por exemplo, Tina Schäfer confessou ter-se sentido desenquadrada quando no 9º ano de escolaridade estava a competir nas olimpíadas de matemática.

“É uma grande tarefa fazer esta mudança. Isto começa na família. Acredito que toda a gente, especialmente os meios de comunicação, devem mudar o exemplo modelo para as raparigas, as jovens mulheres e para as pessoas mais velhas. Desta forma os pais e os avós podem perceber que ‘ok, ela está interessada em matemática, isso é bom, não algo mau’.

Têm sido feitos vários esforços para que estas mudanças aconteçam. Basta abrir o Google e pesquisar pelos termos “women in tech” para perceber que existem vários projetos que tentam trazer algum equilíbrio à balança da força de trabalho nas TIC.

Mas por capricho os resultados de hoje do Google também trazem uma má notícia: “As mulheres nas tecnologias estão a pedir salários mais baixos do que os homens para os mesmos trabalhos”, escreve a Quartz.

Os números dizem que em média o salário das mulheres é 3% mais baixo do que o dos homens nas mesmas tarefas e que 69% dos entrevistados do sexo masculino tinham um salário superior a colegas mulheres que representavam a mesma função.

Melhor feito do que perfeito

Os números continuam a mostrar desigualdade entre os géneros, razão pela qual Filipa Neto considera a iniciativa Women Techmakers em Lisboa como positiva. “A primeira razão pela qual estou aqui é porque feito é melhor do que perfeito. Temos competências que podem ajudar esta comunidade”.

Além das competências, fica também um conselho para todas as mulheres que trabalham ou pensam a vir trabalhar nas novas tecnologias. “Só sabem depois de experimentar. Acima de tudo desafiem-se a vocês próprias. Acho que esse é um dos caminhos para ter esta satisfação no trabalho e no que fazemos que é estarmos sempre em desafio”, salientou Filipa.

Já Tina Schäfer rematou a questão com um desafio bem prático. “Façam-no. Apenas façam-no. Abram o Google, procurem por algum tutorial para principiantes sobre como programar, existem várias possibilidades.

Façam-no”.



Rui da Rocha Ferreira: Fã incondicional do Movimento 37 do AlphaGo.
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