Certame de Eletrónica Sumptuosa

Chega hoje ao fim mais uma edição da Consumer Electronic Show. Ano após ano a feira que se realiza em Las Vegas, nos EUA, assume-se como a maior mostra mundial de tecnologia e eletrónica de consumo. Quase todos os nomes grandes da indústria tecnológica marcam presença no CES e mostram os gadgets que vão ser lançados ao longo do ano e outros que são protótipos daquilo que o futuro provavelmente nos reserva.

A edição de 2017 do CES foi vibrante e não desiludiu. Houve dezenas de anúncios importantes e tal como se previa, houve a afirmação de duas grandes tendências: inteligência artificial e veículos autónomos.




No caso da inteligência artificial assistiu-se a uma afirmação da assistente Alexa, desenvolvida pela Amazon, que ao longo do ano vai passar a marcar presença em muitos equipamentos de diferentes segmentos. A afirmação da inteligência artificial a que se assistiu no CES foi esta: integração do que já existe e é popular, e não uma tentativa de cada um ter o seu próprio assistente.

Relativamente aos veículos autónomos, bastava olhar para o alinhamento do CES 2017 para sabermos que ia ser um tema interessante. De todas as apresentações a da Faraday Future e a da Nvidia foram aquelas que mais chamaram a atenção: a primeira por ser um misto de desejo e desconfiança, a segunda por ser a afirmação de uma empresa da qual as pessoas não esperavam muito nesta área.

Mas houve claramente uma terceira tendência na edição deste ano do CES: extravagância.

Esta foi a edição em que vimos dispositivos de eletrónica completamente fora do normal. Sim, é suposto o CES mostrar-nos qual é o futuro, mas a questão é que muitos destes equipamentos que foram mostrados não são o futuro: são o presente elevado a níveis exorbitantes. Este foi o ano em que o CES transformou-se no Certame de Eletrónica Sumptuosa.

O exemplo mais gritante desta tendência foi o portátil com três ecrãs Ultra HD (!) que a Razer revelou. O Project Valerie é um equipamento como nunca foi visto e vai ser um dos gadgets mais espampanantes do mundo tecnológico. Já dissemos que tem três ecrãs Ultra HD, numa resolução combinada de 11.520×2.160 píxeis?

Como se os três ecrãs não fossem suficientes, existe ainda um mecanismo de extensão automática, saindo dois painéis da parte traseira do portátil para criar um ambiente de jogo que parece digno de uma sala de combate militar.

O portátil prepara-se ainda para ser uma máquina cheia de potência, integrando uma GeForce GTX 1080, a placa gráfica mais poderosa da atualidade. Estima-se que o preço deste computador possa situar-se bem acima dos 5.000 euros.

Mas porquê ter apenas uma das placas gráficas mais potentes do mercado quando podemos ter duas? É isso que faz o Acer Predator 21 X, um dos computadores mais absurdos já criados, ainda que provavelmente seja também um dos computadores mais ambiciosos de sempre.

Foi revelado originalmente na IFA, em Berlim, ainda em 2016, mas só agora é que todos os pormenores relativamente ao computador portátil foram partilhados. Incluindo o preço de dez mil euros. Repetimos: 10.000 euros por um computador. Há carros novos que não custam tanto e seria o suficiente para comprar dez dos melhores iPhone.

A verdade é que a Acer de certa forma justifica o valor exorbitante pedido por este computador: passe no nosso artigo e confira todas as especificações.

A Dell também quis dar um ar da sua graça no CES 2017 e apresentou o monitor Dell UP3218K com resolução 8K. Sim, ainda estamos a discutir a falta de conteúdos no 4K, portanto um ecrã 8K, porque não? O futuro certamente passará por aqui e mais vale começar desde já a rentabilizar o investimento de cinco mil dólares que é necessário fazer neste monitor.

São 32 polegadas, mais de 33 milhões de píxeis e mais de mil milhões de cores suportadas. Na prática é um monitor que tem tudo a mais do que os outros. Fica à venda em março e será acima de tudo procurado pelos produtores de conteúdos multimédia que são uns puristas na questão da qualidade.

E se extravagância é a palavra de ordem, o que dizer do televisor OLED de 75 polegadas que a Sony desenvolveu? A sumptuosidade é tal que o equipamento nem sequer foi projetado para ficar numa parede ou encaixado num móvel, deve ocupar um lugar no chão, como se fosse o elemento em torno do qual gravita o resto da casa.

A Sony ainda não revelou o preço que vai dar a este televisor, mas sabendo que a rival LG tem alguns modelos que custam acima dos dez mil euros, não será de estranhar se a Bravia OLED tiver uma etiqueta com um valor semelhante.

Depois há todo um registo de escovas do cabelo, escovas de dentes, colchões, colunas de som, torradeiras, bengalas, colchões e até acessórios para animais que evoluíram mais em show off do que propriamente em acessibilidade e praticalidade. Isto faz com que o preço dos equipamentos também aumente significativamente, o que acaba por funcionar como estratégias de marketing para chamar a atenção dos media e direciona os equipamentos para um segmento muito específico de consumidores.

Como muitas tecnologias acabam depois por ter um impacto muito reduzido na vida das pessoas e no verdadeiro mercado de eletrónica de consumo, ano após ano o CES também continua a ganhar fama de vaporware – mais fumo do que fogo, na prática – em comparação com outros grandes certames.

Rui da Rocha Ferreira: Fã incondicional do Movimento 37 do AlphaGo.
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