Há jogos que nos conquistam pela sua personalidade, mesmo quando não conseguem fazer tudo tão bem como gostaríamos. Well Dweller é um desses casos. Desenvolvido por Kyle Thompson, o criador de Islets e Crypt Custodian, este metroidvania traz-nos um mundo que mistura a aparência de um conto de fadas com uma atmosfera sombria, personagens peculiares e uma aventura que consegue despertar a curiosidade desde os primeiros minutos.
Somos Glimmer, um pequeno pássaro armado com um fósforo, temos de enfrentar uma rainha cruel e tentar salvar a nossa família. A premissa é simples, mas funciona bem dentro do universo que o jogo apresenta. O problema é que, apesar de ter várias qualidades, Well Dweller nem sempre consegue aproveitar as suas melhores ideias. Há momentos em que a aventura brilha, sobretudo na exploração e na direção artística, mas também existem situações em que fica a sensação de que poderia ter ido mais longe.
Ainda assim, é um jogo que merece atenção, especialmente para quem gosta de metroidvania e procura uma experiência que não dependa exclusivamente da dificuldade para manter o interesse.
UM MUNDO QUE MERECE SER EXPLORADO
A primeira coisa que me chamou a atenção em Well Dweller foi a sua direção artística. Os cenários parecem saídos de um livro ilustrado, com personagens que, à primeira vista, até poderiam fazer parte de uma aventura infantil, mas, no entanto, basta avançar um pouco para perceber que estamos perante um mundo bastante mais cruel e perturbador do que a sua aparência inicial sugere.
É precisamente este contraste que considero ser um dos maiores trunfos do jogo. Glimmer é uma personagem adorável, mas o mundo que o rodeia está cheio de criaturas estranhas, situações violentas e locais que conseguem transmitir uma sensação de desconforto. Esta combinação funciona muito bem e dá ao jogo uma identidade que nem todos os títulos independentes conseguem alcançar.
Também gostei da forma como o humor aparece ao longo da aventura. Existem personagens e diálogos que ajudam a aliviar a tensão, sem transformar o jogo numa comédia ou retirar importância aos momentos mais sombrios. O equilíbrio nem sempre é perfeito, mas contribui para que o universo tenha personalidade e a história, por sua vez, cumpre aquilo a que se propõe, embora não seja particularmente surpreendente. A missão de Glimmer serve de motivação para a aventura, mas não esperem uma narrativa cheia de reviravoltas ou personagens com um desenvolvimento especialmente profundo. O interesse está mais no mundo que vamos descobrindo do que na história em si.
A JOGABILIDADE É O GRANDE TRUNFO
Se há algo que Well Dweller faz bem, é a forma como nos movimentamos pelo mundo. A jogabilidade é simples de compreender, os controlos respondem bem e os saltos são suficientemente precisos para que os desafios de plataformas sejam agradáveis. Num jogo deste género, estes aspetos são fundamentais. Podemos ter um mundo visualmente impressionante, mas, se a personagem não responder como esperamos, a exploração rapidamente se transforma numa tarefa frustrante. Felizmente, não é esse o caso. Glimmer movimenta-se de forma fluida e permite-nos atravessar os cenários sem estarmos constantemente a lutar contra os controlos.
O fósforo que acompanha a personagem é outra boa ideia. Para além de servir como arma, também desempenha um papel importante na exploração e na forma como ultrapassamos determinados obstáculos. À medida que avançamos, desbloqueamos novas capacidades que abrem caminhos e permitem chegar a locais anteriormente inacessíveis. É aqui que o jogo funciona melhor, porque descobrir uma nova habilidade e perceber que podemos utilizá-la para explorar uma zona que antes parecia impossível de alcançar continua a ser uma das sensações mais gratificantes do género. Well Dweller compreende bem esta lógica e utiliza-a para manter o jogador interessado.
Não acho que consiga fazer algo verdadeiramente novo com estas mecânicas. A progressão é familiar e, na maioria das vezes, sabemos exatamente o que esperar quando desbloqueamos uma nova capacidade. Isso não é necessariamente negativo, mas também significa que a jogabilidade raramente surpreende.
EXPLORAR É DIVERTIDO, MAS NEM TUDO SURPREENDE
A estrutura do mapa segue aquilo que esperamos de um metroidvania. O mundo está interligado, existem caminhos inicialmente bloqueados e temos de regressar a determinadas áreas quando adquirimos novas capacidades. É uma fórmula conhecida, mas continua a funcionar quando os cenários são interessantes e a exploração é recompensadora.
Em Well Dweller, há sempre alguma razão para olhar com mais atenção para o que nos rodeia. Podemos encontrar melhorias, acessórios e passagens escondidas que ajudam a tornar a aventura mais interessante. Nem todos os segredos são difíceis de descobrir, mas a sensação de encontrar algo que nos tinha escapado é sempre bem-vinda.
Também apreciei a forma como o jogo evita complicar desnecessariamente a progressão. Os pontos de descanso e fast travel tornam as deslocações mais simples, reduzindo o tempo que passamos a percorrer caminhos já conhecidos. São pequenos detalhes que melhoram a experiência e demonstram uma preocupação com o ritmo da aventura. Ainda assim, nem todas as zonas têm o mesmo impacto. Existem ambientes que nos deixam curiosos e que convidam a explorar cada recanto, enquanto outros acabam por ser menos memoráveis. A direção artística ajuda a disfarçar esta irregularidade, mas nem sempre é suficiente para impedir que algumas secções pareçam demasiado convencionais.
Outro aspeto que poderá dividir opiniões é a dificuldade. Well Dweller não procura castigar constantemente o jogador, preferindo uma experiência mais acessível. Para mim, esta abordagem funciona na maior parte do tempo, porque permite aproveitar o mundo e descobrir os seus segredos sem que cada obstáculo se transforme numa luta prolongada. Não é um jogo demasiado difícil, respeitando também o jogador, no máximo poderia haver uma opção de dificuldade para os mais exigentes. Mesmo assim ainda lá perdi quase 20 horas, mostrando que há muito para fazer neste jogo.
Por outro lado, quem procura um metroidvania exigente poderá sentir falta de desafios mais elaborados. Gostaria de ter encontrado mais situações em que fosse necessário dominar verdadeiramente as capacidades de Glimmer.
O COMBATE FICA AQUÉM DA EXPLORAÇÃO
É no combate que começo a sentir as maiores limitações de Well Dweller. O fósforo permite atacar os inimigos e a possibilidade de utilizar outros elementos, como recipientes com óleo inflamável, acrescenta alguma variedade. No entanto, o sistema não tem a mesma qualidade da movimentação e da exploração. Os confrontos funcionam, mas raramente são a parte da aventura que mais vontade me dá de continuar a jogar. Falta alguma profundidade aos ataques e mais variedade na forma como os inimigos nos obrigam a reagir. Em determinados momentos, a melhor estratégia acaba por ser relativamente óbvia, o que reduz o interesse dos combates.
Os bosses deveriam ser a oportunidade ideal para contrariar esta limitação. Alguns destacam-se pelo desenho e pela forma como encaixam no universo do jogo, mas nem todos conseguem transformar essas boas ideias em confrontos memoráveis. Existem padrões de ataque que se tornam previsíveis e situações em que a dificuldade parece resultar mais da repetição do que da necessidade de aprender uma estratégia nova. Os upgrades e os acessórios ajudam a personalizar a personagem, mas também não alteram profundamente a forma como jogamos. São úteis e dão algum valor à exploração, embora não sejam suficientes para transformar o combate num sistema particularmente complicado.
No final, esta é a componente em que Well Dweller mais precisava de arriscar. Com mais variedade nos ataques, inimigos com comportamentos distintos e bosses com mecânicas mais criativas, a experiência teria sido consideravelmente mais completa.
VISUALMENTE INTERESSANTE
Visualmente, Well Dweller é um jogo que sabe o que quer ser. Os cenários desenhados à mão têm personalidade, as personagens são expressivas e o contraste entre o lado adorável e o ambiente sombrio funciona quase sempre bem. Não precisa de gráficos realistas para criar momentos visualmente interessantes. Pelo contrário, é precisamente a simplicidade do estilo artístico que permite ao jogo construir um universo tão próprio. Existem cenários que ficam na memória e criaturas cujo desenho consegue ser mais impressionante do que aquilo que encontramos em jogos com mais mestria técnica.
A apresentação é, na minha opinião, uma das razões mais fortes para continuar a explorar o mundo. Mesmo quando uma secção não apresenta grandes novidades na jogabilidade, há sempre algum detalhe visual que ajuda a manter o interesse. A componente sonora acompanha os visuais, mostrando bem a atmosfera dos diferentes locais e os momentos de maior tensão. Não é necessariamente uma banda sonora que se destaque por si só, mas cumpre a sua função e encaixa no universo criado pelo jogo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar das suas limitações, gostei de jogar Well Dweller. É uma aventura competente, com uma vertente visual forte e interessante, uma exploração agradável e uma jogabilidade que funciona muito bem. Não tenta complicar aquilo que deve ser simples e consegue manter um ritmo que convida a continuar a jogar. A sua maior qualidade está na consistência. Mesmo quando não surpreende, Well Dweller raramente perde completamente o rumo. A exploração continua a ser divertida, a personagem responde bem aos comandos e o mundo tem personalidade suficiente para nos manter interessados até ao final.
Para quem gosta de metroidvania, é uma recomendação fácil, sobretudo se valorizar a exploração, a direção artística e uma dificuldade mais acessível. Já quem procura combates mais difíceis, bosses memoráveis e mecânicas capazes de renovar constantemente a experiência poderá encontrar motivos para ficar menos impressionado.

