Confesso que, quando li pela primeira vez que havia piratas informáticos a mexer nos frigoríficos dos supermercados, pensei que era mais uma daquelas histórias exageradas da internet. Não é. Na madrugada de domingo para esta segunda-feira, uma nova vaga de ciberataques atingiu os sistemas de refrigeração de dezenas de supermercados em vários países europeus e, ao que tudo indica, Portugal não escapou: o Grupo Os Mosqueteiros confirmou que sete lojas Intermarché no nosso país foram afetadas.
Segundo o comunicado enviado à SIC Notícias, foram identificadas “ocorrências relacionadas com um ataque informático em sete lojas Intermarché em Portugal, que terá visado um prestador de serviços externo responsável pela gestão dos sistemas de refrigeração”. A empresa não revela quais são as lojas, mas garante ao PÚBLICO que “a cadeia de abastecimento não foi afetada” e que estão “asseguradas todas as condições de higiene e segurança alimentares”.
Intermarché e companhia: o que aconteceu
O método, pelo que já se sabe, é tão simples quanto assustador. Segundo Stephan Moelans, CEO da Sabcobel, a empresa belga que gere a refrigeração das lojas Delhaize, os atacantes ativaram remotamente o modo de descongelação dos evaporadores, o que fez disparar a temperatura de frigoríficos e congeladores. Em algumas lojas na Suécia e na Estónia, a temperatura foi mesmo definida para 50 °C, de acordo com o The Guardian. O resultado foi o óbvio: prateleiras vazias e muita comida para o lixo.
A lista de afetados é longa. Segundo a AFP e o The Guardian:
- Bélgica e Luxemburgo: dezenas de lojas Delhaize, cerca de 15 lojas Carrefour, lojas Colruyt, Intermarché, Spar e até o IKEA de Mons.
- Irlanda: 13 supermercados SuperValu, com produtos refrigerados e congelados retirados de venda.
- Suécia: lojas das cadeias Coop e ICA.
- Países Baixos, Finlândia e Estónia: pelo menos 17 pequenas lojas locais nos Países Baixos, lojas da Kesko a investigar problemas semelhantes e uma loja Selver.
Por cá, a CNN Portugal avança que a Polícia Judiciária está a averiguar, em articulação com o Centro Nacional de Cibersegurança, se houve um incidente malicioso e se existe ligação aos ataques nos restantes países.
Um déjà vu vindo de França
Não é a primeira vez que isto acontece. Em outubro, piratas informáticos tomaram conta dos controladores de refrigeração de centenas de supermercados em França, incluindo lojas Intermarché, Carrefour e Leclerc, com prejuízos estimados em dezenas de milhões de euros. Na altura, os controladores atacados eram sobretudo da dinamarquesa Danfoss, que disse ter identificado falhas de segurança no ano passado e recomendado atualizações aos clientes. Ninguém reivindicou os ataques, e o comissário europeu da Agricultura, Christophe Hansen, já fala numa “tentativa deliberada de perturbar a nossa cadeia de abastecimento alimentar”.
Para mim, o mais preocupante é que isto é o lado B da “casa inteligente” e de tudo o que ligamos à internet. Um especialista citado pelo The Guardian diz que milhares destes controladores continuavam acessíveis online depois do ataque em França, e o responsável da Sabcobel admite que uma atualização de software não chega, sendo preciso mexer fisicamente nos equipamentos. Quem se lembra da botnet Mirai, que transformou câmaras e routers num exército de ataques, percebe bem o filme. E depois de, ainda ontem, termos falado do ciberataque à Warhorse Studios e de a FromSoftware ter desligado os servidores de Dark Souls II e III por vulnerabilidades de segurança, está a ser uma semana daquelas para a cibersegurança.
Para quem vai às compras, não há motivo para pânico: as cadeias garantem que os produtos afetados foram retirados. Ainda assim, vale a pena estar atento a congelados com ar de quem já descongelou e voltou a congelar. Vamos acompanhar a investigação da PJ e atualizaremos assim que houver novidades.

