Há jogos que não tentam agradar a toda a gente e ainda bem. Saint Slayer: Spear of Sacrilege é um desses casos: um título que assume, sem rodeios, que quer ser difícil, duro e profundamente inspirado nos clássicos da era 8-bit.
Produzido pela Lillymo Games, este jogo de ação e plataformas 2D bebe diretamente de referências como Castlevania ou Ghosts ‘n Goblins. Mas não é apenas inspiração superficial, é quase uma recriação do espírito desses jogos, com todas as virtudes e defeitos que isso implica.
Um mundo simples, mas com personalidade
A história coloca-nos na pele de Rudiger, um ex-soldado que agora vive como agricultor, até ser puxado de volta para o caos da guerra, uma guerra santa. Um padre corrupto ameaça destruir o mundo, e cabe-nos a nós impedi-lo. Não há aqui grande complexidade narrativa, mas também não é esse o objetivo. O jogo usa a história como pretexto para nos lançar de cabeça na ação.
Visualmente, é impossível não sorrir, especialmente se temos alguma nostalgia pelos jogos antigos. Eu como grande fã dos antigos Castlevania não consigo deixar de salientar a qualidade gráfica, fiel a esta altura. A pixel art é detalhada, colorida e cheia de pequenos pormenores que dão vida aos cenários. Parece um jogo saído da era NES, mas com um toque moderno suficiente para não parecer ultrapassado. Os modelos dos personagens e inimigos estão bastante bem conseguidos e as animações de Rudiger em algumas situações são hilariantes como dar murros no ar antes do nível começar ou quando caímos para a água e antes de se afundar nos faz um manguito.
A música segue o mesmo caminho é excelente com temas em estilo chiptune, rápidos e energéticos, que ficam no ouvido e ajudam a criar ritmo. Não é apenas ruído de fundo, é parte importante da experiência. São bastante diferentes entre níveis e como boas músicas retro, repetem-se bastante, mas sem cansaço no ouvido.




Jogar bem… ou sofrer as consequências
Aqui é onde o jogo se define verdadeiramente. Saint Slayer não é complicado de entender, mas é exigente de dominar. Saltar, atacar, desviar, tudo precisa de precisão. E quando falhamos, o jogo não perdoa.
Os níveis são lineares, mas cheios de armadilhas, inimigos e obstáculos que obrigam a aprender através do erro. Vamos morrer. Muitas vezes. E, em vários casos, vamos ter de repetir grandes partes do nível por causa de um pequeno deslize.
O controlo do personagem é rígido, quase “pesado”. Isto não é um defeito acidental, é mesmo uma escolha de design para imitar os jogos antigos. O problema é que nem sempre isso resulta bem nos dias de hoje. Há momentos em que sentimos que estamos a lutar mais contra o comando do que contra o próprio jogo.
Por outro lado, quando tudo corre bem, quando acertamos aquele salto difícil ou derrotamos um boss depois de várias tentativas, a sensação de satisfação é real. É aquele tipo de recompensa que só jogos mais exigentes conseguem dar.
Nem tudo é castigo
Apesar da dificuldade, o jogo não é só para sofrer. Há variedade suficiente para manter o interesse e alguns níveis introduzem ideias diferentes, como secções em movimento ou situações mais caóticas, que quebram a rotina. Os bosses também ajudam a manter o ritmo. Não são todos memoráveis e alguns bastante estranhos que destoam um pouco, mas obrigam a aprender padrões e a reagir com precisão. Curiosamente, às vezes são menos frustrantes do que os próprios níveis.
O jogo é curto, mas há bastantes pretextos para jogar várias vezes. Há itens para colecionar e fins diferentes, o que incentiva a voltar atrás e melhorar a nossa performance. O jogo oferece vários níveis de dificuldade e um sistema de passwords que serve como modificadores para o jogo. A password MORIARTY por exemplo eleva imenso a dificuldade, um easter egg de Colin Moriarty, fã deste género de jogos e um dos donos da Lillymo Games.
Um jogo que não faz concessões
O mais interessante em Saint Slayer é a sua atitude. Este não é um jogo que tenta adaptar-se ao jogador moderno. Não há muitas facilidades, nem sistemas pensados para reduzir a frustração e isto pode ser visto de duas formas. Por um lado, há uma certa autenticidade nesta abordagem. O jogo sabe exatamente o que quer ser e não se desvia disso. Por outro, há decisões que parecem mais teimosia do que necessidade, como a falta de checkpoints em momentos críticos ou alguns picos de dificuldade pouco equilibrados, mas faz-nos melhorar, como nos jogos da altura da NES.
Considerações finais
Se gostam de jogos desafiantes, que exigem paciência e prática, Saint Slayer: Spear of Sacrilege pode ser uma excelente surpresa. Tem personalidade, estilo e momentos realmente gratificantes. É definitivamente o melhor jogo do estúdio e pode catapultar o género ainda mais, mas se preferem experiências mais leves, com progressão constante e menos frustração, este jogo pode rapidamente tornar-se cansativo.
Saint Slayer é um título que vive da sua identidade forte. Não tenta ser moderno, porque não o é e não tenta agradar a todos e isso, por si só, já o torna diferente. Pode não ser perfeito, mas é honesto naquilo que faz. E, às vezes, isso já é meio caminho andado. Com um preço de 10.99€ é uma escolha obrigatória para quem é fã do género.


