Confesso que, quando penso em Fórmula 1, a primeira coisa que me vem à cabeça é o barulho, os pneus e aquela largada que nos deixa colados ao sofá. Os servidores não costumam entrar na lista. Mas na sexta-feira, 11 de setembro, dia de treinos livres do Grande Prémio de Espanha, passei o dia no Madring, em Madrid, convidado pela Lenovo. Paddock, centro técnico, pit lane e ainda rádios das equipas em direto. Um dia inteiro a ver o que está por trás de uma corrida.
Um circuito novo, construído à volta da IFEMA
O Madring estreou-se no calendário este ano e é o primeiro circuito novo da Fórmula 1 desde Las Vegas, em 2023. São 5,414 km e 22 curvas, num traçado híbrido que mistura estradas públicas com troços permanentes à volta do recinto da IFEMA Madrid e da zona de Valdebebas. A parte sul tem aquele ambiente típico de circuito citadino, com os pavilhões da IFEMA a fazer de boxes, e a parte norte, depois de passar por baixo da autoestrada, parece muito mais um autódromo.
A estrela é a curva 12, a La Monumental: cerca de 550 metros de curva semicircular, inspirada numa praça de touros, com uma inclinação de 24% (cerca de 13,5 graus) e espaço para uns 45 mil espectadores. Os pilotos passam lá uns seis segundos sempre a acelerar.
A corrida, essa, já aconteceu: a 13 de setembro, Kimi Antonelli venceu o primeiro Grande Prémio no Madring, ao fim de 57 voltas, à frente de Max Verstappen e Lando Norris.
A Lenovo na Fórmula 1: muito mais do que logótipos
A Lenovo trabalha com a Fórmula 1 desde 2022 como Official Partner e, desde janeiro de 2025, é Global Partner, o nível mais alto de parceria, num acordo plurianual em que a Motorola, do mesmo grupo, passou a ser Global Smartphone Partner. Se acompanham o que a marca anda a fazer com a IA nos portáteis, como no novo Googlebook de 15 polegadas, muita da conversa por aqui vai dar ao mesmo sítio.
A lista do que a Lenovo fornece é comprida. Do lado de quem trabalha: portáteis ThinkPad das séries X, T, P e L, workstations ThinkStation, desktops ThinkCentre, monitores ThinkVision, tablets Lenovo Tab e Idea Tab Pro, o Lenovo Smart Paper e smartphones Motorola Edge, Razr e ThinkPhone. Do lado da infraestrutura: servidores ThinkSystem (SR630, SR645, SR650 em várias gerações, SR250 V3 e SD665-N V3), armazenamento ThinkSystem DE4000H e DE4000F, servidores de edge ThinkSystem SE350 e a refrigeração líquida Neptune. Basicamente, do telemóvel no bolso de um técnico ao servidor que processa a telemetria, é tudo Lenovo.
O paddock
A visita começou pelo paddock, aquela zona que conhecemos das transmissões e que, ao vivo, num dia de treinos livres, é o ponto de encontro entre equipas, organização e convidados. É também ali, a poucos metros das motorhomes, que se percebe que a Fórmula 1 é uma operação logística gigantesca, que monta e desmonta uma pequena cidade em cada Grande Prémio.
O centro técnico: um datacenter que anda de circuito em circuito
O coração da visita foi o Event Technical Centre (ETC), o centro técnico que a Fórmula 1 monta em cada Grande Prémio, uns dez dias antes da corrida. A Lenovo descreve-o como a maior e mais complexa instalação transportável do género no mundo. Em Madrid, ocupava uma área de 25 por 15 metros, com cerca de 750 equipamentos a correr mais de 40 sistemas de software feitos à medida.
Toda esta tecnologia viaja de circuito para circuito. Como nos explicaram lá dentro, existem dois conjuntos de equipamento que vão alternando entre corridas, para que haja sempre um a caminho do próximo Grande Prémio enquanto o outro está a trabalhar. E a equipa chega alguns dias antes para instalar toda a tecnologia à volta do circuito, das cabines às câmaras e aos sensores de cronometragem.
E este datacenter itinerante tem emagrecido bastante. Desde 2020, com a mudança para a produção remota, grande parte do trabalho passou para o Reino Unido, e uma reformulação posterior reduziu a carga do ETC de seis contentores para três. Com a Lenovo, a F1 passou ainda de três racks de equipamento de TI para apenas um, sem perder capacidade. A plataforma de virtualização da Lenovo no ETC tem 512 núcleos de CPU (1,4 THz de capacidade de processamento), 8,2 TB de memória e 100 TB de armazenamento all-flash, assente em servidores ThinkSystem SR650 V3, num sistema de armazenamento ThinkSystem DE4000F e em workstations ThinkStation P3 Ultra. E tudo com redundância: se um disco ou uma fonte de alimentação falhar, outro equipamento assume o trabalho.
Os números de um fim de semana são daqueles que nos fazem rir de nervoso: entre 350 mil e 400 mil passagens de transponders de cronometragem, 750 a 800 páginas de documentos oficiais em formato eletrónico e 300 a 400 GB de dados gerados localmente.
Telemetria: processada ali mesmo, na pista
A Fórmula 1 é o fornecedor oficial de telemetria das equipas: tudo o que sai dos carros é recolhido, processado e enviado para as 11 equipas pelos sistemas da F1, e é com base nesses dados que as equipas decidem estratégias e confirmam que o carro e o piloto estão bem. Ao contrário do resto, a telemetria fica no circuito. Cerca de 8 TB de telemetria por fim de semana são processados e deduplicados ali, no ETC, em vez de irem ao Reino Unido e voltarem. Segundo a Lenovo, isto reduziu em até 0,3 segundos o tempo que os dados demoram a chegar às equipas, medido nas corridas mais distantes do calendário. Em Fórmula 1, três décimas são uma eternidade.
Rádios das equipas em direto
Um dos momentos mais interessantes do dia foi uma sessão em que pudemos ouvir as rádios das equipas em direto, durante os treinos livres, enquanto pessoas da Fórmula 1 nos explicavam o que se estava a passar em pista. Ouvir a conversa entre piloto e engenheiro e ter, ao lado, alguém a explicar aquilo que estávamos a ver é uma forma bem diferente de acompanhar uma sessão. E ajuda a perceber que cada mensagem de rádio, antes de chegar à transmissão, também passa por esta cadeia de equipamento e de pessoas.
De Madrid para Biggin Hill num piscar de olhos
Grande parte da produção já nem acontece na pista. As imagens, o áudio e os dados seguem para o Media & Technology Centre (M&TC) da Fórmula 1, em Biggin Hill, a sul de Londres, onde a transmissão é produzida e enviada para todo o mundo. O circuito e o M&TC estão ligados por dois circuitos de fibra ótica de 10 Gbps, e num fim de semana de corrida circulam entre 600 e 650 TB de dados. Segundo a F1, cerca de 350 TB vêm dos carros (telemetria, câmaras de bordo e rádios das equipas) e os restantes 300 TB são vídeo e media da transmissão.
A latência é ridícula: segundo a Lenovo, a informação chega do circuito ao Reino Unido em cerca de um quarto de segundo, e a F1 diz que, mesmo na Austrália, a corrida mais distante, fica sempre abaixo dos 300 milissegundos. Em Biggin Hill, os servidores Lenovo correm cerca de 270 máquinas virtuais em 640 núcleos (1,7 THz), e o centro tem mais de 180 sistemas de software feitos à medida, com mais de quatro milhões de linhas de código. É aí que os gráficos, os tempos e as rádios são trabalhados para chegar a nossa casa.
Neptune, IA e portáteis com NPU
Também em Biggin Hill estão os servidores ThinkSystem SD665-N V3 com refrigeração líquida Lenovo Neptune, que usam água morna em vez de ar para retirar o calor diretamente dos processadores. A Lenovo diz que isto melhora a eficiência energética em até 40% face a sistemas arrefecidos a ar. É nesta infraestrutura que a F1 está a testar um modelo de IA híbrido, para correr modelos nas próprias instalações em vez de depender da cloud.
A IA também chegou aos portáteis. Em 2025, no Grande Prémio da China, a F1 testou no ETC o ThinkPad X9 Aura Edition, um PC com IA. Segundo a Lenovo, com base em números da própria F1, o portátil correu um modelo em Matlab sobre dados desportivos 30% mais depressa do que PCs sem IA, com os resultados a seguirem para as equipas de produção e de comentário entre sessões.
Ou seja: quando vemos aquele gráfico com a diferença entre dois carros, já houve uma viagem de ida a Inglaterra pelo meio, com muito hardware pelo caminho. Para quem só conhece a F1 dos videojogos, como o EA Sports F1, é a melhor prova de que a realidade consegue ser ainda mais “nerd”.
A pit lane
Para fechar, o passeio pela pit lane, garagem a garagem, de uma ponta à outra: Ferrari, Red Bull, McLaren, Mercedes, com a box de Kimi Antonelli, Racing Bulls, Aston Martin, Haas, Audi, Alpine e a estreante Cadillac, onde tirei uma fotografia em frente ao carro (sim, turista, eu sei). Na McLaren, apanhámos ainda um treino de pit stop mesmo à nossa frente, com os mecânicos a repetirem a troca de pneus vezes sem conta, a poucos metros de distância.
Vale a pena olhar para os bastidores?
Cada tempo por volta, cada gráfico e cada rádio que passa na transmissão tem um caminho por trás, e foi esse caminho que pude ver de perto no Madring: dois conjuntos de equipamento a dar a volta ao mundo, um rack que substituiu três, telemetria processada à beira da pista e um centro em Inglaterra a receber tudo em menos de um terço de segundo.
Para quem gosta de tecnologia, a Fórmula 1 é um dos melhores palcos possíveis para ver hardware a trabalhar sob pressão. E a Lenovo, que por cá conhecemos mais pelos portáteis Legion e pelos ThinkPad, está lá no meio de tudo isto, mesmo que, na televisão, só a vejamos nas barreiras.
Nota: por regras da Fórmula 1, não foi possível usar fotografias próprias. As imagens são material oficial de imprensa da Lenovo/Fórmula 1.

